
O ruído está a tornar-se uma constante em todo o lado.
Nos cafés ouvem-se as vozes estridentes das donas de casa que contam as dores nas costas, os almoços de galinha de cabidela e a má educação dos netos para todos os comensais desprevenidos, que tentam, no seu canto, saborear a meia torrada e passar os olhos pelo jornal.
Entram crianças pequenas que gritam desenfreadamente sem que os queridos papás e mamãs os façam calar. Instalou-se na sociedade a noção de que as crianças não podem ser contrariadas, pelo que pulula a selvajaria e a prepotência dos pequenos ditadores, com o embasbacamento dos adultos demitidos das suas funções.
Os adolescentes e jovens adultos usam algumas palavras-chave para comunicarem, para além de alguns sons ininteligíveis, mas sempre a um volume exageradíssimo, talvez porque têm os orifícios auriculares ocluídos pelos auscultadores de um qualquer acessório musical.
Os ajuntamentos de claques futebolísticas, agora com a iminência do mundial de futebol, estão inundados daquelas horrorosas e ensurdecedoras imitações de instrumento musical, com um som absolutamente assustador.
Ainda não percebi se a quantidade de ruído serve para não ouvirmos os nossos próprios pensamentos, por depressivos, ou para não nos deprimirmos pela total ausência de pensamento. Qualquer das hipóteses é deprimente.