09 março 2010

A capitulação do PS

 



DE


 


O PEC, mais do que um programa de relançamento económico e de tentativa de equilíbrio das contas públicas, para que os mercados e a Europa acreditem na economia portuguesa, expressão empregue por Sócrates ontem na conferência de imprensa que deu às 20h00, é uma visão do País. Visão essa que resulta da capitulação quase total deste governo à política defendida pelo PSD e pela Dra. Manuela Ferreira Leite.


 


Uma das características da anterior legislatura foi a noção de que havia uma estratégia de modernização para Portugal, uma aposta na inovação, na ciência, nas novas tecnologias de informação, nas novas energias, nos transportes ferroviários de alta velocidade menos poluentes. O desenvolvimento das regiões afastadas das grandes metrópoles tudo teriam a ganhar com esta visão de um território mais pequeno pela existência de comunicações (internet e físicas) a alta velocidade, que poderiam por à disposição de todos os cidadãos ferramentas e serviços, repovoando o interior, com maior qualidade de vida.


 


Durante a campanha para as últimas eleições os investimentos públicos como o TGV foram uma das bandeiras do programa socialista, criticadas pelos partidos à sua direita, que acusaram Sócrates de aumentarem o défice e a dívida externa com esse projecto.


 


Outro dos assuntos muito debatidos e que faziam a diferença entre uma visão de esquerda e de direita da sociedade foi precisamente a definição das funções do estado. Até pela profunda crise económica existente, devido à ausência de mecanismos de regulação da economia de mercado, o PS assumiu-se defensor de um estado prestador de serviços, atacando a direita pela sugestão de privatização de parte da segurança social e da caixa geral de depósitos.


 


Pois o PS esqueceu a sua visão do País, esqueceu-se do estado prestador, esqueceu-se das altas velocidades. O PS aceitou as imposições da direita e do presidente, tendo cedido à retórica habitual dos economistas do costume. O PEC apresentado poderia ter sido a proposta do PSD, com uns pozinhos de PS.


 


Para quem votou no PS como eu, não é possível que não esteja profundamente desiludido e confuso, como eu. Para além da crise, dos esforços e da factura que cada um tem que pagar, que aceito como inevitável, não deveria ser inevitável abdicar daquilo que poderia ser o nosso desenvolvimento sustentado, a nossa luta pela democratização da comunicação e da informação, o nosso esforço de redução das desigualdades pela aposta nas novas tecnologias e nos desafios científicos e ambientais.


 


O PS, assim como o BE e o PCP, que inviabilizaram qualquer hipótese de acordo parlamentar e de governação à esquerda, mesmo durante a campanha eleitoral, podem assumir as responsabilidades de terem contribuído, mais uma vez, para o status quo do Bloco Central.


 


O sacrossanto, cinzento, avassalador e presidencial Bloco Central.

 

08 março 2010

Contos

 



Graça Morais




Penteio a tua vida em contos de Outono.

Entranço os teus cabelos brancos

arrumados em ondas de filhos invisíveis

como o rosto que me escondes.


 

Feminismo

 



Joseph el Arid: women working


 


Não sei se sou feminista. Não sei se luto pela igualdade entre os homens e as mulheres.


 


Não penso que um dia internacional das mulheres, como um dia internacional das crianças, possa resolver seja o que for para as causas das mulheres e das crianças. Não concordo com quotas para os cargos políticos ou para lugares de topo das administrações do estado ou das empresas.


 


Nestes dias ouço grandes elogios a várias mulheres, que por um motivo ou por outro se distinguiram, foram e são exemplos de excelentes profissionais, de generosidade cívica, de criatividade invulgar. Assisto à distribuição de flores às mulheres surpresas que franqueiam as portas dos empregos, dos supermercados, das escolas.


 


E no entanto são estas mesmas mulheres que recebem uma flor simbólica que todos os dias são ignoradas pela sua família, pelos seus empregadores, pelos seus delegados sindicais, pelos seus governantes. São essas mesmas mulheres que se levantam antes de todos para prepararem as mochilas, os pequenos-almoços e as merendas dos filhos, que passam a ferro depois de arrumarem as cozinhas à noite, antes de desabarem na cama, são essas mulheres que cumprem o melhor que podem e sabem as suas funções profissionais, roendo-se de culpa pela ausência da companhia aos filhos e a toda a família, são essas mulheres que ganham menos que os homens, que faltam mais que os homens, que são despedidas antes dos homens.


 


Os sinais são muito lentos mas é no dia-a-dia que o feminismo se faz. Não com flores ou com palavras de ordem, mas com a persistência de quem tem razão, promovendo a igualdade e a paridade nos diversos deveres que prendem a mulher aos seus afazeres ancestrais, que distribuem papéis predeterminados aos géneros.


 

07 março 2010

Andar de baixo

 



Stephen Nova: Forty Five Downstairs


 


Moro no andar de baixo

daquele que sempre quero.

Abro a porta e espero

que as escadas te encaminhem

para o andar que partilhamos

patamares de diferenças

com que nos amamos.

 

Função Pública

 



 


Quando nos apercebemos de que o plano anticrise do governo apenas foi concretizado em cerca de metade e que o défice atingiu mais de 9% do PIB, tendo aumentado exponencialmente algumas prestações sociais (apoio aos desempregados, por exemplo), percebemos que o papel do estado é crucial e que os recursos precisam de ser direccionados para quem mais necessita.


 


O discurso de diabolização dos funcionários públicos é muito antigo e utilizado pelos defensores de um estado mínimo, ou de quase ausência do mesmo. Não é o meu caso. Defendo um estado que assegure os serviços de defesa e segurança, de justiça, de saúde e de educação, universais e gratuitos, porque penso ser essa a essência da igualdade de oportunidades, para que todos, independentemente da cor, raça, género ou condição social, tenham direito à felicidade.


 


Sendo assim os funcionários públicos são um garante dos alicerces da democracia. Mas não é por isso que não se lhes deve exigir competência, rigor, brio profissional e excelente desempenho. Não é por isso que devem ter empregos vitalícios, independentemente da sua prestação, promoções automáticas, independentemente da sua competência. Não é por isso que estão à parte dos outros trabalhadores, que não lhes devem solidariedade.


 


O movimento sindical cristalizou e não evoluiu com a sociedade. Por isso temos dirigentes sindicais com o mesmo discurso hoje que tinham há 20 anos. Por isso os dirigentes sindicais são os mesmos de há 20 anos. Por isso nunca ouvi os dirigentes sindicais assumir a sua quota de responsabilidade na enorme desigualdade entre ricos e pobres, assim como na enorme e persistente diferença entre os salários dos homens e das mulheres, pelo facto de haver tanta precariedade de emprego, tantos desempregados, tanta falta de formação e de especialização.


 


Os sindicatos da função pública defendem o status quo daqueles que têm um horário de trabalho certo, daqueles que recebem um ordenado certo ao fim do mês, muito ou pouco, quer trabalhem muito, pouco, bem ou mal, conseguem defender a inexistência de avaliações de desempenho, conseguem pedir aumentos salariais de 3,5% na crise que atravessamos. Conseguem ainda, com justificações patéticas, recusar a hipótese de monitorização conjunta da adesão às greves, o que contribui ainda mais para a descredibilização dos números por eles apresentados.


 


Se as suas reivindicações fossem satisfeitas, nomeadamente  o aumento salarial, com o inevitável aumento de prestações sociais a que vamos assistir este ano, pelo desemprego crescente, pelas reformas antecipadas, etc., como evoluiria o défice e o comportamento das contas públicas?


 


É claro que há outros sectores que devem contribuir para o equilíbrio financeiro do estado: a tributação do sector bancário, dos prémios aos gestores, das mais-valias bolsistas, etc., Ninguém deve ficar de fora e todos devem contribuir para o esforço da redução das despesas, do aumento das poupanças, assim como devem ser assegurados pelo estado os serviços essenciais e de qualidade. As exigências são para todos.

 

Intervenção política e sociedade civil

 



Evelien Lohbeck: silhuette


 


O apelo à participação da sociedade civil na vida política do país serve apenas quando essa sociedade civil não está interessada em participar.


 


O anúncio da candidatura de Fernando Nobre é disso um exemplo. É um homem que vem de fora da esfera dos partidos, que tem uma ampla e reconhecida participação de cidadania em organizações humanitárias, tem opiniões políticas sobre vários assuntos, que muitos desconhecem porque também nunca se interessaram em conhecer, assume uma postura apartidária e apolítica mas não anti-política. Fala em valores de humanidade e solidariedade, fala na moralização da vida pública, no conceito de nação, no respeito pelos valores da identidade nacional, nos valores éticos, na avaliação que tem de si próprio e daquilo em que pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos seus concidadãos.


 


Um discurso não muito diferente daquele que Manuel Alegre teve quando se candidatou em 2005, e que eu apoiei entusiasmadamente. Também ele apelou aos movimentos cívicos apartidários e suprapartidários, para a sociedade civil que não se revisse nos jogos aparelhísticos que resultaram na escolha de Mário Soares como candidato oficial do PS. Também ele se revia nos valores éticos e humanísticos, na solidariedade entre gerações, no papel de todos quantos quisessem fazer parte integrante de uma cidadania interventora, em Portugal como nação historicamente resistente e indissolúvel, nos valores da pátria e no sentido do dever. No entanto Manuel Alegre é militante do PS e sempre foi um actor político e partidário no pós-25 de Abril, como já o era no tempo da ditadura o que, obviamente, não representa qualquer problema.


 


No entanto já se ouviram várias vozes que entendem o apartidarismo de Fernando Nobre como uma crítica à democracia representativa assente em partidos políticos, já se ouvem críticas pelo facto de Fernando Nobre não ter um pensamento político, já se declaram incredulidades pelos apoios que foi dando, ao longo da sua vida, e pelos arrependimentos e desilusões que manifesta. Já se diz que a sua experiência e actividade nas ONG, nomeadamente na AMI, a sua presença e actuação em tantos locais de catástrofe, a sua capacidade de decisão e a sua generosidade, não são bases para um bom mandato presidencial.


 


Se há alguém que podemos considerar emanar da tão falada e tão desejada sociedade civil é Fernando Nobre. Não o eleger é um direito que os cidadãos têm, mas menorizar a importância da sua candidatura é demonstrar que, afinal, não queremos a sociedade civil imiscuída na política.

 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...