O PEC, mais do que um programa de relançamento económico e de tentativa de equilíbrio das contas públicas, para que os mercados e a Europa acreditem na economia portuguesa, expressão empregue por Sócrates ontem na conferência de imprensa que deu às 20h00, é uma visão do País. Visão essa que resulta da capitulação quase total deste governo à política defendida pelo PSD e pela Dra. Manuela Ferreira Leite.
Uma das características da anterior legislatura foi a noção de que havia uma estratégia de modernização para Portugal, uma aposta na inovação, na ciência, nas novas tecnologias de informação, nas novas energias, nos transportes ferroviários de alta velocidade menos poluentes. O desenvolvimento das regiões afastadas das grandes metrópoles tudo teriam a ganhar com esta visão de um território mais pequeno pela existência de comunicações (internet e físicas) a alta velocidade, que poderiam por à disposição de todos os cidadãos ferramentas e serviços, repovoando o interior, com maior qualidade de vida.
Durante a campanha para as últimas eleições os investimentos públicos como o TGV foram uma das bandeiras do programa socialista, criticadas pelos partidos à sua direita, que acusaram Sócrates de aumentarem o défice e a dívida externa com esse projecto.
Outro dos assuntos muito debatidos e que faziam a diferença entre uma visão de esquerda e de direita da sociedade foi precisamente a definição das funções do estado. Até pela profunda crise económica existente, devido à ausência de mecanismos de regulação da economia de mercado, o PS assumiu-se defensor de um estado prestador de serviços, atacando a direita pela sugestão de privatização de parte da segurança social e da caixa geral de depósitos.
Pois o PS esqueceu a sua visão do País, esqueceu-se do estado prestador, esqueceu-se das altas velocidades. O PS aceitou as imposições da direita e do presidente, tendo cedido à retórica habitual dos economistas do costume. O PEC apresentado poderia ter sido a proposta do PSD, com uns pozinhos de PS.
Para quem votou no PS como eu, não é possível que não esteja profundamente desiludido e confuso, como eu. Para além da crise, dos esforços e da factura que cada um tem que pagar, que aceito como inevitável, não deveria ser inevitável abdicar daquilo que poderia ser o nosso desenvolvimento sustentado, a nossa luta pela democratização da comunicação e da informação, o nosso esforço de redução das desigualdades pela aposta nas novas tecnologias e nos desafios científicos e ambientais.
O PS, assim como o BE e o PCP, que inviabilizaram qualquer hipótese de acordo parlamentar e de governação à esquerda, mesmo durante a campanha eleitoral, podem assumir as responsabilidades de terem contribuído, mais uma vez, para o status quo do Bloco Central.
O sacrossanto, cinzento, avassalador e presidencial Bloco Central.