28 fevereiro 2010

Pedra a pedra, o poeta constrói o poema (1)





Pedro Teixeira Neves; René Magritte


 


algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas:

 


O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.

O poeta, como as pedras, faz-se de matéria-silêncio.

Se o poeta quiser uma pedra pode ser um poema.

O poeta é um pedreiro cujas pedras traz no peito.

O poeta é um lapidário de sentimentos.

O poeta, como as pedras, precisa de solidão para medrar.

O poeta poetiza pedra a pedra, mas convém que não transforme os poemas em muros de lamentações.

Pedra a pedra o poema se constrói, mas convém que não se confunda com o imobilismo das pedras.

Há quem olhe para a pedra dos poemas como se olhasse para calçadas. Por isso há quem pise a poesia, desconhecendo pisar a vida, esse solo frágil.

Enquanto pedras, as palavras têm falhas. Por isso os poetas falham.

Enquanto pedras, as palavras têm arestas. Por isso é difícil a poesia.

Enquanto pedras, as palavras por vezes doem. Por isso têm os poetas corações magoados.

Enquanto pedras, as palavras são às vezes atiradas da boca para fora.

Enquanto pedras atiradas da boca para fora por vezes as palavras ferem.

Enquanto pedras, as palavras estão e não estão, são e não são.

Enquanto pedras as palavras não precisam de mais nada.

Os poetas nem sempre são puros como as pedras. Do mesmo modo as palavras.

A pedra pode corromper, as palavras também.

Os poemas como as pedras deviam servir apenas para construir.

Em Gaza há décadas que as pedras servem como arma, a poesia também pode ser uma arma.

Uma pedra pode atingir-nos mortalmente, um poema também.

Às vezes o poeta magoa-se com as palavras, tal como uma criança por vezes se aleija brincando com pedras; os poetas têm muito de crianças.

Às vezes não sabemos o que fazer com uma pedra, do mesmo modo que com um poema.

Atirar uma pedra fora é como rasgar um poema.

Olhando para uma pedra julgamos por vezes olhar para nada. Há quem olhe para os poemas como se olhasse para pedras.

Os poemas, como as pedras, encontram-se ao alcance de todos. A poesia, como as pedras, anda na rua.

Um poema é como uma pedra, pode sempre estilhaçar-se.

Alguns poetas têm corações de pedra. Se calhar por isso mesmo são poetas, porque se sentem na obrigação de ao longo das suas vidas irem polindo o coração.

Há pedras tão belas que parecem inventadas. Há poemas tão belos que parecem pré-existir ao poeta.

As pedras a ninguém pertencem. Os poemas deveriam também ser de toda a gente.

No meio do caminho de cada poeta existe sempre uma pedra, como existe sempre a palavra.

As pedras têm a qualidade da inércia. Há poetas que por vezes assumem essa qualidade.

Pegar numa pedra encontrada no caminho sabe bem. Sabe bem sentir o seu peso ancestral, sabe bem sentir a sua pele dura, áspera e seca, sabe bem cheirar o seu cheiro a terra e a distância. Pegar num livro de poesia encontrado ao caminho numa qualquer estante sabe igualmente bem, sabe bem sentir o seu peso, passar a mão pela sua pele de papel, sentir o seu toque e o seu cheiro.

Antigamente os homens escreviam nas pedras. As pedras eram livros que não se podiam folhear. Nesse contexto, os livros já foram de pedra. Ainda assim, isso de pouco lhes valeu – o tempo leu-os tantas e tantas vezes que os apagou da história, restando apenas algumas páginas em cavernas; entenda-se, páginas não encadernadas mas antes, dir-se-ia, encavernadas.

No tempo dos livros de pedra não resisto a pensar que emprestar um livro a alguém podia ser um acto perigoso e subversivo, considerado até um ataque à integridade física.

Igualmente no tempo dos livros de pedra, ninguém ia ler para a margem dos rios. Era demasiado custoso. Isto é, poucos se atreveriam a passear de livro debaixo do braço, sobretudo se fossem calhamaços de seiscentas páginas… Não sei que sucesso nesses tempos teria um Leon Uris ou um Rodrigues dos Santos…

No tempo dos livros de pedra, um best-seller equivaleria a uma pedreira inteira esventrada. Os ambientalistas do tempo dos livros de pedra é bem provável que não vissem com bons olhos os autores de best-sellers. Talvez preferissem os poetas.

Atirada, uma pedra pode viajar sem horizontes, um poema também.

Com pedras se constroem casas, com poemas se constroem abrigos.

Há casas feitas com pedra, e há quem faça dos poemas casa.

Da utilidade das pedras pouco sei dizer, da utilidade de um poema sei dizer o respirar.

Com uma pedra pouco podemos, com apenas uma palavra podemos às vezes muito mais. Com a palavra Amor, por exemplo.

As pedras guardam segredos do princípio do mundo, os poemas revelam esses segredos.

Há poetas que gostariam de ser lidos pelas pedras, como o poeta Manoel de Barros.

O meu pai foi geólogo e escreveu poesia.


 

27 fevereiro 2010

Chuva

 


Quando olhei já te não vi

cega que estava de chuva e névoa,

quando se instalou a ausência

já nem senti

por dentro das pedras que arrastam

a água do silêncio.


 

A ciegas

 



Miguel Poveda


 


 


 


Yo muchas noches sentía,

cercano y al día,

tus pasos en la casa,


 


Gracias a Dios que has llegao,

que no te ha pasao,

ninguna cosa mala,


 


En tus manos, un aroma,

que trasminaba como el clavel,


 


Pero yo, lo echaba borma,

porque era exclavo de tu querer,


 


Que me he entretenio,

las cosas del juego,

y yo te decia,

cerrando los ojos,

lo mismo que a un ciego.


 


No tienes que darme cuentas,

a ciegas yo te he creío,

yo voy por el mundo a tientas,

desde que te he conocío,


 


Llevo una venda en los ojos,

como pintan a la fe,

no hoy dolor como esta gloria,

de estar queriendo sin ver,


 


Mi corazón no me engaña,

y a tu caridad se entrega,

duerme tranquilo se entraña,

que te estoy queriendo a ciegas.


 


No se que mano cristiana,

abrió una mañana,

mi puerta derepente,

luz que cortó en mil pedazos,

como un navajazo,

la venda de mi frente.


 


Me quitaron la ceguera,

con un cuhillo de compasión,

y hoy va solo por la acera,

sin lazarillo mi corazón,

toda esa mentira,

lo firmo y lo pruebo,

y yo te decía,

queriendo ponerme,

la venda de nuevo.


 


No tienes que darme cuentas,

él no te las ha pedío,

quien va por el mundo a tientas,

lleva los rumbos perdíos,


 


Dios me clavará en los ojos,

alfileres de cristal,

pa no verme cara a cara,

contigo y con tu verdad,


 


Miente de noche y de día,

y a jurarme en falso llega,

sigue mintiendo, alma mía,

que te estoy queriendo a ciegas.

 

Comissão Parlamentar

 



 


Finalmente vai haver uma comissão parlamentar de inquérito para apurar as responsabilidades do governo e/ou do Primeiro-ministro à compra da TVI. Ainda bem que o PSD resolveu emparceirar com o BE nesta acção, que também o PS deveria apoiar.


 


A Assembleia da República é o local para apurar essas responsabilidades, assim como a actuação do Procurador Geral da República, como defende Freitas do Amaral. Continuo a pensar que todo este assunto não é mais do que uma tentativa de golpe anti-democrático, com o envolvimento ilegítimo de actores da justiça e de jornalistas, com a pretensão de derrubar ilegitimamente um governo emanado de eleições legislativas, livres e democráticas.


 


Mas alguma vez terá que se apurar a verdade.


 

Oportunistas na política e a vontade de calar quem defende as políticas do PS

 


Este é o texto de Bruno Reis, publicado ontem (26/Fevereiro) pelo Público, em Cartas à Directora (pág.40), a propósito do último artigo de Pacheco Pereira: Um estranho Verão entre eleições

 


O PÚBLICO fez eco, assim como alguns dos seus colunistas, de afirmações caluniosas quanto ao blogue Simplex surgidas em blogues e nalguma imprensa. Eu fiz parte do blogue Simplex. Como muitos dos que lá escreveram, não tenho, nem tive, nem conto ter qualquer cargo político remunerado por via do actual Governo. Nego terminantemente como insultuosas e difamatórias as notícias que caracterizam o Simplex e os que nele participaram como parte de uma campanha de informação determinada pelo Governo e paga com dinheiro público.




Para quem conheça o descontraído e tudo menos ortodoxo João Galamba é delirante pensar que ele seria chefe de fila de uma qualquer cabala coordenada pelo Governo. Que a imprensa de referência ande a dar como notícias tais patetices insultuosas só mostra como desceu o seu nível de referência. A mesma imprensa que tanto critica os blogues dá eco ao que de pior por lá se publica.




O que escrevi no Simplex foi sempre livremente decidido por mim. Foi essa a condição da minha entrada no blogue em conversa com o próprio João Galamba. Os mails, ilegalmente publicados sem autorização (aparentemente não se vê agora obstáculo em fazer notícias com base em divulgação de correspondência privada, ao contrário do que aconteceu quando se tratava de mails trocados entre jornalistas do PÚBLICO), fizeram parte de uma quantidade enorme de mails referente aos mais variados temas políticos ou mundanos. Essa troca de mails resultou simplesmente de uma rede de amizades e convergências políticas que levou a que se trocassem informações sobre os debates que dominavam a campanha eleitoral – foi expressamente com esse objectivo que o blogue foi criado e quem o lia sabia isso. Essa troca de mails nada teve de anormal ou de ilegal. Nenhum foi assinado por um membro do Governo, nem configura qualquer instrução do Governo.




Sei bem o que é estar num blogue com uma linha política definida, e sei bem a diferença.  No Barnabé, blogue em que participavam pessoas mais ou menos ligadas ao Bloco de Esquerda – e agora cronistas em jornais de referência –, mas que se reclamava um blogue plural de toda a esquerda, aí, sim, sofri pressões de alguns para não me desviar de uma determinada linha. Tal nunca sucedeu no Simplex. Sei sobretudo que o Carlos Santos que o PÚBLICO e outros media apresentam como defensor da liberdade de expressão, da imparcialidade e da ética república, CENSUROU a publicação do post em que eu tencionava explicar por que saía do blogue A Regra do Jogo. Sei que o Carlos Santos criou o blogue A Regra do Jogo, logo a seguir ao fim do Simplex e convidando, com elogios rasgados, os que tinham participado nesse (agora) aparentemente temível exemplo de manipulação da informação. Sei ainda que o mesmo Carlos Santos apelou a participantes no Simplex para lhe arranjarem um lugar de cronista na imprensa. Sei que há oportunistas em todos os partidos, que os usam como forma de promoção pessoal. A minha pergunta é se não será esse o caso do Carlos Santos.

 


Convém também recordar que são pagos pelo erário público os deputados e respectivos assessores dos partidos da oposição que, também eles, fazem política e participam no debate público na imprensa e nos blogues. Cabe perguntar, portanto, se o que se quer, na verdade, é que os apoiantes do programa do actual Governo não tenham a liberdade de participar no debate público para defender as suas ideias – sejam eles assessores do Governo, membros do Governo, ou, como é o meu caso, não tenham mais do que prejuízo com o tempo que gastam na política.




Há um clima crescente na sociedade portuguesa de intolerância e tentativa de silenciar os que apoiam as corajosas reformas e os ambiciosos projectos para o país do actual Governo. Quantos comentadores no PÚBLICO defendem regularmente a política do Governo – 1, 2? Entre quantos? Os jornais não têm de reflectir os resultados eleitorais na escolha de colunistas políticos. Mas também não têm o direito de dar eco a calúnias que visam vozes que se atrevem a desafiar os poderes fácticos e os interesses instalados na imprensa e não só.

Bruno Reis, Lisboa

 

Um dia como os outros (39)

 


(...) O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). (...)


 


(...) Eduardo Pitta, poeta, ensaísta, crítico do jornal PÚBLICO e colunista da revista "Ler", foi distinguido com o Prémio Especial Jornalista ou Imprensa de Edição, por “com a sua voz singular e olhar atento, continuar a dar sentido ao conceito de crítica literária”.(...)


 

Mudanças

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