
Parece-me uma péssima estratégia do governo o colocar o ónus de alguns problemas, nomeadamente o chumbo da central de compras para o SNS, no Tribunal de Contas, numa remota e nevoenta recuperada ideia de força de bloqueio. Há, com certeza, assessores jurídicos nos vários ministérios, em particular no Ministério da Saúde, que poderão estudar formas de elaborar protocolos que estejam de acordo com a legislação em vigor. Não se pode exigir dos organismos estatais que cumpram as suas funções fiscalizadoras apenas quando convém.
Por outro lado, apesar da postura irresponsável de toda a oposição, o governo e o PS só teriam a ganhar se tomassem a dianteira política e não ficassem presos às agendas dos partidos à esquerda e à direita. As coligações negativas devem ser realçadas, assumindo todos os partidos a responsabilidade de preferirem derrotar o PS e Sócrates a encontrarem soluções que viabilizem soluções governativas.
Mas além disso, e de acordo com a observação do Porfírio, seria mais lógico e desejável que o governo escolhesse uma área ideológica prioritária para tentar consolidar uma base parlamentar de apoio, pois não se percebe que as tentativas de entendimento sejam indiferentes à esquerda e à direita.
Não me parece credível a sugestão da inevitável dissolução rápida da Assembleia da República. Após um ciclo de três actos eleitorais, em que o PS ganhou dois, no caso das eleições legislativas de uma forma expressiva, não será muito fácil aceitar esta solução. Assim como não é espectável a substituição do Primeiro-ministro por iniciativa presidencial. Há muita vontade de exercitar ficção política, a que se assiste diariamente com a pletora de comentaristas que ouvimos e lemos.
Esperamos deste governo firmeza e determinação para enfrentar a crise, a arrastada e perene crise em que vivemos, com imaginação e sinceridade. Esperamos que este governo governe com a orientação que prometeu na campanha eleitoral – à esquerda.
(Também aqui)