02 julho 2009

Um dia









poema


Sophia de Mello Breyner Andresen


 


Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.




O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nosso membros lassos

A leve rapidez dos animais.




Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.


 

01 julho 2009

Chega de Saudade

 



Tom Jobim & João Gilberto


 


Vai, minha tristeza

E diz a ela que sem ela não pode ser

Diz lhe numa prece que ela regresse

Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade

É que sem ela não há paz, não há beleza

É só tristeza, e a melancolia

Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar

Que coisa linda, que coisa louca

Pois há menos peixinhos a nadar no mar

Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços os abraços

Hão de ser milhões de abraços apertado assim

Colado assim, calado assim

Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio

De viver longe de mim

Não quero mais esse negócio

De você viver assim

Vamos deixar desse negócio

De você viver sem mim


 

Fim de dia

 


Acabo de desligar. Respiro ofegante. Os minutos que passei ao telefone foram quilómetros de corrida desenfreada.


 


Olho para o monitor. Vão morrendo os últimos fragmentos do dia e ainda há sol. Aparece uma mensagem para all users.


 


Sinto-me arrastada pela estrada, por inúmeros passos sem rumo. Abafo. Visto-me sem pressa e sem vontade.


 


Apago a luz.

 

30 junho 2009

Tinta

 



(Jaclyn Mednicov: stacked)


 


Inclinei-me na manhã que despertava

entornei a tinta com que suspirava pelo dia.


 


Pingos de lentidão pelas gotas de luz

que desloquei para o lado

esperam por mim esta noite

à hora dos encontros sublimes.

 

Pina Baush


 


Dancemos.


 

Dois em um

 


Não consigo perceber o que pretende o Bastonário da Ordem dos Médicos com esta proposta.


 


Acho muitíssimo bem que os Centros de Saúde e que os Hospitais do Estado tenham a possibilidade de ter medicamentos genéricos para dispensarem aos seus doentes. Mas a que propósito seriam os médicos a distribuí-los? Porque não estar lá um farmacêutico a fazer o seu trabalho, a exercer a sua competência?


 


Ou será que as Farmácias vão ter um cantinho para os farmacêuticos fazerem consultas aos seus clientes?


 

29 junho 2009

Ponto/Contraponto

 


Tenho andado sempre atrasada em relação ao que se vai passando, mergulhada que estou no trabalho. Mas hoje vi o tão esperado programa de Pacheco Pereira porque ele no-lo proporciona no seu blogue.


 


É um programa de opinião, da opinião dele, como frisa logo de início.


 


Começa por dedicar o programa a Vitorino Nemésio, porque no tempo de Vitorino Nemésio se dava mais importância às palavras e às conversas do que ao espectáculo, transparecendo sempre o gosto de Vitorino Nemésio por connosco conversar.


 


Não me lembro muito bem como era na altura, mas já vi algumas repetições de fragmentos do mítico Se bem me lembro e não se percebe rigorosamente nada do que Vitorino Nemésio diz.


 


Mas percebeu-se muito bem o que Pacheco Pereira disse a propósito da informação e do que significa informarmo-nos, e ainda melhor o que insinuou.


 


Começou por se lamentar e avisar os incautos da escassa liberdade que existe, a encolher todos os dias; referiu-se a um artigo laudatório sobre o novo porta-voz do PS, classificando-o de má informação; folheou os suplementos do Correio da Manhã para concluir que o suplemento do emprego mostrava um enorme desemprego e o estado do país, que o suplemento fiscal (?) era o espelho da hipoteca dos cidadãos e do estado em que estava o país, e que o suplemento dos serviços sexuais era extraordináriamente grande.


 


Depois deu um exemplo de mau jornalismo a propósito de uma peça no Público sobre as datas das eleições, porque usava a palavra tabu, e um exemplo de bom jornalismo a um artigo do Jornal de Negócios sobre o "negócio" da PT, deixando os leitores muito bem informados sobre quem mandava.


 


Terminou aconselhando um livro (mesmo não ganhando nada com isso) do João Gonçalves, esse mesmo, lendo um texto em que, para variar, o autor dizia mal de Sócrates.


 


Enfim, um programa televisivo de propaganda mal disfarçada e de pouca qualidade. Que saudades do "Vírus", na Rádio Clube Português.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...