10 junho 2009

Adamastores

 



(escultura de Júlio Vaz: Adamastor)


 


O que é Portugal hoje? Quem são os portugueses? De que comunidades falamos? Quem são os que se revêem na obra de Camões?


 


É estranho este emaranhado de gentes, que se virou para fora, permanecendo virada para dentro, que deu novos mundos ao mundo, quando desconhece e despreza o seu mundo, que se mistura, se solidariza, se dá, e simultaneamente se entrega e cultiva os sentimentos de isolamento e solidão.


 


Este é o dia em que nos deveríamos repensar colectivamente, como um povo migrante, que assume e absorve o que é novo, que não se basta, que sonha, mas que vive de costas voltadas com a sua própria incapacidade e inaptidão para mudar, para vencer os inúmeros velhos do Restelo que nos habitam.


 


Este é o dia de grandes discursos e eloquentes palavras, de alheamentos estivais e lamentos perpétuos.


 


Portugal tem os seus dias de triunfo e de desastre, neste dia de evocação do que de melhor temos e de expiação do que de pior somos. Somos um povo livre que procura, como sempre, enfrentar os seus Adamastores.


 


Adenda: ler o excelente discurso de António Barreto.

 

Rescaldo

 


Tenho lido e ouvido inúmeras reacções, considerações e confabulações sobre os resultados eleitorais. Há quem rejubile e sonhe com o regresso do PSD/CDS ao poder, há quem rejubile e sonhe com as ruas cheias de manifestantes exigindo aquilo que lhes foi negado até agora, há quem preveja o mais negro futuro e a mais instável instabilidade.


 


De facto, muita coisa mudou com as eleições, mas sempre muda. Podemos estar mais ou menos aleta, mas sempre que os eleitores se exprimem os representantes devem observar e pensar.


 


A abstenção foi grande mas, tal como já li, quem se absteve foi porque não quis votar. Sendo assim o seu não voto não conta.


 


Os votos em branco e nulos foram imensos. Parece-me significativo. Tal como a dona do café das minhas manhãs de fim-de-semana, que me disse que não fazia ideia em quem votar, terá havido muitíssimas pessoas que não se revêem nas propostas ou nas políticas seguidas pelos partidos concorrentes. Ou que não gostam de nenhum deles, por razões diversas e muitas vezes antagónicas.


 


O PSD ganhou estas eleições. Perfilam-se já no horizonte, todos os que se arredaram de Manuela Ferreira Leite à espera da derrota. E vão-se mostrando os regressados da direita, como Bagão Félix e Santana Lopes. Paulo Rangel vai mostrando de que é feito, basta ver as afirmações dele em relação à lei do financiamento dos partidos, vetada por Cavaco Silva.


 


O CDS vislumbra uma perspectiva de regressar ao poder. Portas soma, segue e continua.


 


O BE ganhou 3 deputados, uma enormidade de votos e uma hipótese de viabilizar um governo de esquerda nas próximas legislativas. Mas para tanto terá que reciclar o populismo e a demagogia que nos encheu os écrans na noite das eleições. Também o BE precisa de uma substituição de rostos – deixar cair Luís Fazenda e Francisco Louçã, por exemplo. O primeiro reafirmou de novo que o BE não se dispunha a coligar-se com o PS, enquanto houve sinais de abertura a essa possibilidade por parte de Fernando Rosas.


 


O PS perdeu pesadamente. Sócrates disse o que tinha que dizer. Ou o governo tem um cunho reformista e está convencido das suas razões, o que me leva a admitir que terá que mudar na forma e não no conteúdo, ou passará a guinar para o lado donde lhe parece que virão mais votos e isso só lhe tirará credibilidade e será contraproducente. E que tal se Sócrates olhasse em volta e substituísse alguns dos seus fantásticos apoiantes por outros menos fantásticos mas mais sérios? E nada de começar a falar nas esquerdas plurais e nos companheiros e companheiras. Isso soa a oco e é oco.




O acordo assinado entre os sindicatos médicos e o ministério da saúde, em que se deixou cair a necessidade de trabalho a tempo inteiro e dedicação exclusiva aos hospitais públicos, mantendo o status quo, será um exemplo das meias tintas de que fala o Saúde SA? As mais do que previsíveis manifestações de professores farão recuar o governo? Será este o caminho do PS até às eleições?


 


Duma coisa estou certa. Vai haver grande animação. É, pelo menos, uma oportunidade de se discutir política e alternativas. Espero que o governo e o PS tenham cabeça fria e visão das necessidades do país. As falinhas mansas não me parecem boas conselheiras.

 

07 junho 2009

No resto da Europa

 


Parece que os líderes de direita se aguentaram - Sarkozy e Merkel. Rajoy, Manuela Ferreira Leite e os conservadores ingleses ganharam. A Europa vira à direita em tempos de profunda crise financeira e social.


 


Dá que pensar.


 

Continuemos, pois

 



 


Neste momento já não há quaisquer dúvidas.


 


O PSD é o ganhador da noite, principalmente de Manuela Ferreira Leite e de Paulo Rangel. Escolheram uma estratégia ganhadora, tem 3 a 4% a mais de votantes e mais deputados eleitos (1 ou 2). Rui Rio, António Borges e Pedro Passos Coelho podem ver as suas hipóteses de liderarem o PSD reduzidas após esta vitória do PSD.


 


Por outro lado, tendo sido estas uma primárias das legislativas, o PSD tem sérias hipóteses de ganhar as legislativas, facto que há 2 meses era impensável.


 


O BE é outro dos ganhadores da noite. Poderá ultrapassar o PCP e terá 2 ou 3 deputados eleitos. Beneficiou do grande desgaste do PS e da oposição a Sócrates dentro do PS.


 


O PCP perde politicamente e o CDS aguenta-se.


 


O grande perdedor é o PS. Perdeu as eleições europeias e fica com sérias dificuldades para os próximos 2 actos eleitorais.


 


Em democracia as propostas vão a votos e a governação vai a votos. O povo é soberano. O PS não tem que pedir desculpa pela sua governação nem pelas suas propostas, tem que defender aquilo em que acredita. Desde o início da legislatura o PS tentou reformar em várias frentes e prosseguiu o seu programa que foi sufragado pelos eleitores.


 


Ao contrário do que Paulo Rangel está a dizer, o PS tem um mandato para cumprir até ao fim e haverá eleições legislativas, em Outubro. Até lá o governo tem legitimidade para governar e não para congelar a governação, à espera das legislativas.


 


Paulo Rangel teve uma grande vitória e é natural que capitalize com isso. mas Sócrates tem mais alguns meses para governar. Se estivesse em causa a sua legitimidade, Paulo Rangel deveria ter pedido a sua demissão.


 


Se em Outubro ganhar o PSD, Portugal será governado à direita, apesar de ter mais votos à esquerda.


 


Continuemos, pois.


 

Noite eleitoral

 



 


Pois eu tenciono divertir-me, irritar-me, consternar-me, como se espera desta noite, como em todas as outras noites eleitorais.


 


Já temos os palpites de todos, quadros e gráficos a preceito, argumentos já testados, outros de que nos lembraremos, para justificarmos, analisarmos, dissecarmos os resultados.


 


Já nos abastecemos de petiscos, que esta é sempre uma boa desculpa para nos irmos empanturrando, de alegria ou tristeza.


 


Cada qual com as suas esperanças, amores e ódios de estimação, cá estaremos a torcer por uma noite histórica, importante, estafante, preparando as armas para a próxima refrega.

 

Why don't you do right

 


 



(Peggy Lee)


 


You had plenty money, 1922

You let other women make a fool of you

Why don't you do right, like some other men do?

Get out of here and get me some money too


 


You're sittin' there and wonderin' what it's all about

You ain't got no money, they will put you out

Why don't you do right, like some other men do?

Get out of here and get me some money too


 


If you had prepared twenty years ago

You wouldn't be a-wanderin' from door to door

Why don't you do right, like some other men do?

Get out of here and get me some money too


 


I fell for your jivin' and I took you in

Now all you got to offer me's a drink of gin

Why don't you do right, like some other men do?

Get out of here and get me some money too

 


 


Why don't you do right, like some other men do?

Like some other men do

 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...