15 maio 2009

Demissões

Tenho lido e ouvido inúmeros argumentos a favor e contra a demissão de Lopes da Mota do seu cargo no Eurojust.


 


Sem que se adiantem as conclusões de um processo disciplinar  que vai agora começar e por muito que seja verdade que não há motivos formais para que Lopes da Mota seja suspenso, é óbvio que o facto de se manter em funções afecta a imagem do governo, muito especialmente a do Primeiro-ministro.


 


Fui daquelas que não acreditou na existência de pressões. Pense-se o que se pensar da robustez psicológica dos magistrados, parece-me indesmentível que as conversas de Lopes da Mota com os seus colegas parecem ter sido mais do que meras trocas de opiniões.


 


É claro que será o processo disciplinar que deverá apurar se essas conversas e essas pressões teriam intenções ilegítimas. Mas o facto de se ter avançado para um processo significa que há fortes indícios de que há matéria para procedimento disciplinar. E mais importante e significativo, caso tenha havido pressões ilegítimas, se elas foram sugeridas por alguém do governo ou do PS. Até hoje é mesmo a mais grave suspeita que pende sobre Sócrates. Porque se se prova que as pressões foram encomendadas, podemos legitimamente perguntar porquê, por quem e porque razão.


 


Devemos deixar que a justiça funcione. Mas até para o próprio Lopes da Mota a atitude mais digna seria a demissão até que tudo se esclarecesse. Tal como Dias Loureiro arrasta com ele o Presidente da República, Lopes da Mota trás atrelado o Primeiro-ministro.


 


Esperemos que o inquérito seja rápido e credível. Doa a quem doer.

 

13 maio 2009

De graus

 



(pintura de Mary Burke: blue steps)


 


Nos degraus que vou descendo

estádios em graus ascendentes

altos e sonoros desistentes.


 


Nos degraus que vou subindo

em estádios plenos de esforço

dor em graus de silêncio.


 


Nos degraus que me imponho

os graus que me compõem

sobem e descem sem estádios

intermédios.

 

Grão de amor

 



(Tribalistas)


 


 


Me deixe sim, mas só se for

Pra ir ali e pra voltar

Me deixe sim, meu grão de amor

 


Mas nunca deixe de me amar


Agora as noites são tão longas

No escuro, eu penso em te encontrar

Me deixe só até a hora de voltar


 


Me esqueça sim. pra não sofrer

Pra não chorar, pra não sentir

Me esqueça sim, que eu quero ver

Você tentar sem conseguir


 


A cama agora está tão fria,

Ainda sinto seu calor

Me esqueça sim

Mas nunca esqueça o meu amor


 


É só você, que vem no meu cantar, meu bem

E só pensar que vem, lara ra ra


 


Me cobre mil telefonemas

Depois me cubra de paixão ..

Me pegue bem

Misture alma e coração.


 

12 maio 2009

Pressões

E o relatório que deveria chegar hoje às mãos de Pinto Monteiro já tinha chegado antes às mãos dos jornalistas da TSF, do Público, do DN e sabe-se lá a quem mais.


 


Mas pelo menos, finalmente, alguma comissão de inquérito ou de averiguações inquiriu e averiguou alguma coisa.


 


Houve pressões aos magistrados que investigam o Freeport, essas pressões foram consideradas ilegítimas e o Procurador Geral da República vai levantar um processo disciplinar ao procurador-geral adjunto José Luís Lopes da Mota.


 


Esperemos que o processo corra célere e que sejam apuradas todas as responsabilidades. Será que Lopes da Mota agiu assim com intenção ou não? Por moto próprio ou como mensageiro?


 


Isso é que é importante. Será desta que a justiça se redime?


 


Adenda: Já agora convinha que o PS não comentasse este tipo de decisões, pois deve ser a justiça a funcionar. O mesmo vale para todos os outros partidos, mas Lopes da Mota deveria pedir a demissão até tudo estar esclarecido.

 

11 maio 2009

Mapa

 



(Autor desconhecido)


 


Desenhei um mapa

usando cada momento de dor

como postes vermelhos

cada ruga como estrada

em escala real proporcional

aos desertos em que semeei

areias e ventos.


 


Desdobrei-o esticando o corpo

mas o mapa apenas indica

a direcção sem destino

que diariamente percorro.


 

Só agora

 



(pintura de Valery Koshlyakov)


 


Só agora reparo no cansaço

atroz e desumano de perder

todos os dias vontade de abrir

as janelas do carro

de ligar as vozes que esperam

dentro da minha cabeça.


 


Só agora reparo na disforme

e descarnada memória

que todos os dias me acorda

o brilho novo das ideias

da certeza de me erguer.


 


Só agora reparo que ainda

faltam muitas perdas

muitas janelas fechadas

muitos sussurros ausentes.

E a estrada que não acaba.

 

As vozes do rio Pamano

 



 


É de solidão que nos fala o livro de Jaume Cabré. Da solidão do heroísmo e da cobardia, da solidão do amor e do ódio, da solidão do segredo e da tortura, da solidão do medo, da solidão das mães e dos pais, da solidão dos filhos, da solidão da vingança e da fé, da solidão dos fortes e dos fracos.


 


É de histórias encobertas de gente que se esconde, da verdade sepultada e do teatro dos vencedores. É de gente que desesperadamente tenta sobreviver, que desesperadamente pergunta, que em segredo desdenha e luta, que do poder faz uma prisão.


 


Uma professora encontra nas ruínas de uma escola primária a história das ruínas da vida de uma aldeia catalã, imediatamente após a guerra civil, contada por um professor primário que se torna um lutador pela liberdade de quem foge da Guerra Mundial, que se revolta contra o regime franquista depois de ser abandonado pela mulher, dilacerada pela sua cobardia na altura do assassinato de uma criança.


 


A história da busca pela verdade, pelo desmascarar da farsa que transformou esse herói secreto da resistência em falangista, beato e candidato a santo, a tentativa de desatar os silêncios de quem calou a vida inteira ódios e amores, a história de um poder assassino por vingança, a história de um amor desesperado, entrelaça-se com a vida desta professora, que procura no passado o remédio para a sua própria vida. Como o fazemos todos.

 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...