24 abril 2009

24 de Abril de 1974

 



 


Este é um desafio diferente.


 


Que aconteceu nas nossas vidas a 24 de Abril de 1974? Quem se apercebeu da revolução? Quem foi comprar cigarros e viu soldados? Que precisava de companhia e ouviu a "Grândola, vila morena"? Quem ouviu zunzuns do que se ia passar? Quem dormiu o sono dos justos e acordou sem qualquer suspeita? Quem quis ir toma café e deu com ele fechado?


 


A minha noite foi tranquila e inocente, como todas as outras noites anteriores. Apenas o dia seguinte me despertou para algo de diferente e muito bom.


 


Mas, parafraseando Baptista Bastos: onde estavas no 24 de Abril? 


 


 


Lanço o desafio a quem quiser, obviamente, indigitando desde já:



Nota: Esta noite a Liberdade é o título de um livro de Dominique Lapierre e Larry Collins


 

As cidades

 



 


(Rodrigo Leão & Cinema Ensemble)

A passagem da noite

 



 


Hoje temos o Portugal de Rodrigo Leão, melancólico e romântico, em tons esbatidos, aqui e ali com ruídos e gargalhadas, cruzando estradas, em áreas de lentas e mortíferas pás eólicas.


 


Há 35 anos éramos o Portugal de Carlos Paredes e das suas baladas a preto e branco, caras fechadas e malas às costas, espingardas em mãos rudes por essas terras longínquas de um império a desfazer-se.


 


Como passámos essa noite, essa longa noite de analfabetismo de joelhos e mãos postas? Como acordámos para a luz, o ruído e a festa? Como transformámos as casas, as vidas, os campos? Como marchámos em direcção aos novos descobrimentos europeus? Como mantivemos a melancolia?


 


Amanhã já passaram 35 anos, mas continua um frémito de emoção quando se ouve Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. Ultrapassamos os verdes anos para o novo retrato musical. Mas ainda a esbater o som e as cores, continuamos de ombros curvados.


 


Mas caminhamos.


 




 

22 abril 2009

Processos e entrevistas

 


José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes vão processar José Sócrates. Não entendo o alarido. É um direito que lhes assiste, tal como ao Primeiro-ministro.


 


A entrevista de ontem foi mais uma prova da fraca capacidade jornalística na entrevista política e da vocação de rolo compressor de Sócrates.


 


Judite de Sousa não conseguiu disfarçar o azedume contra Sócrates assim como Sócrates tratou Judite de Sousa com um desprezo absoluto. Falou-se da cooperação institucional entre o Presidente da República e o governo durante metade do tempo, em que os entrevistadores, principalmente Judite de Sousa, tentaram demonstrar a Sócrates que os discursos do Presidente visavam as opções governativas. Sócrates aproveitou para enviar um recado ao Presidente e à oposição quando disse que não acreditava que o Presidente se deixava instrumentalizar pela oposição.


 


A outra metade foi passada a falar do Freeport, tendo mais uma vez Judite de Sousa instado José Sócrates a defender-se da acusação de corrupção, quando Sócrates não é acusado de nada.


 


José Alberto Carvalho esteve muito apagado. Suspeito que detesta este tipo de entrevistas.


 


José Sócrates abalroou os jornalistas e só disse o que lhe apeteceu. Ao seu estilo esteve bem, embora a escassa fase em que se falou da crise e em que procurou passar a imagem de que quando reduziu o IVA já a estava a antecipar, tenha estado a reescrever a história, como disse Nicolau Santos.


 


De Vital Moreira e do debate europeu é que se tem ouvido um silêncio ensurdecedor. Tal como defendi neste post, e após a primeira prestação televisiva do cabeça e lista do PS para as eleições europeias, o PS tem uma séria hipótese de se dar mal com esta escolha. Não só Vital Moreira está a ser empurrado para uma discussão de política interna e não de política europeia, mérito da estratégia do PSD, como está a criar anticorpos e antipatias.


 


Se as eleições europeias se transformarem nas primárias das legislativas, o PS pode estar em muito maus lençóis.


 

21 abril 2009

Camadas

 



(pintura de Yves Klein: Untitled Fire Painting)


 


Retiro camadas às letras que escrevo.

 


Descarnadas línguas de fogo e neve

desaparecem marcadas

como as memórias que queremos apagar.


 

Quase não respira

 



Poema de José Agostinho Baptista


Foto de Jack Robinson:


Two Nuns Walking on Canal Street



 


Quase não respira,


entre os lençóis azuis, imóveis,


que as irmãs da bondade estendem, sem


remorso nem fadiga,


para o seu corpo deitado.


 


Alguém fechou as cortinas.


A penumbra oculta as formas imprecisas dos


ombros nus.


O peito levanta-se e cai como se os


inesperados ventos da ira percorressem os


quatro cantos da casa.


 


Ouve-se, ao longe, um sino,


e os cães ladram.


Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,


entre os lençóis azuis,


imóveis,


que as irmãs estenderam,


ao verem os clarões no deserto,


o regresso dos exércitos vencidos.


 


Talvez pense nos atalhos da montanha que


pela noite descia, até ao vale do assombro,


rodeado de lanternas que dançavam.


Via essas mulheres de longas vestes,


em círculo,


nomeando o inominável,


e não tinha medo.


 


Quando chove,


ele fecha os olhos que perderam a cor da sua


infância de melros e roseiras bravas.


Agora,


tudo é cego,


tudo é silêncio.


 

Casta Diva

 


 



 


Maria Callas - Casta Diva


Norma - Vicenzo Bellini


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...