A liberdade de expressão é um conceito muito fluido, por estas nossas bandas. Assim como a autonomia das mulheres em relação aos homens.
Em Portugal, as mulheres só devem ter opinião se e só se não tiverem companheiros/amigos/maridos por perto, pois nesse caso deixam de o poder fazer. Ou porque se tiverem alguma atitude contrária aquela que se pensa que o companheiro/amigo/marido sanciona, o estão a comprometer, como foi o caso da ida a uma manifestação de professores da mulher de António Costa, imediato motivo de grande especulação jornalística sobre a opinião de António Costa (não da mulher) sobre a política de educação do governo; ou porque se criticam quem critica o seu companheiro/amigo/marido estão obviamente obnubiladas, compradas, cegas e a servir os objectivos desse companheiro/amigo/marido.
Cabeça para pensar, opinião, empenho profissional ou outra qualquer qualidade intrínseca à sua pessoa, independente, é algo de que as mulheres são incapazes.
Fernanda Câncio é jornalista, e pelo que atestam os que com ela trabalham ou trabalharam, de elevada competência. É uma pessoa com capacidade de expor ideias, de formas mais ou menos felizes, mais ou menos assertivas, sobre assuntos mais ou menos polémicos, com que se concorda mais ou menos, ou mesmo nada, como já me aconteceu. Se é namorada de José Sócrates ou não, como a apelidam no Expresso e noutras capas de revistas, não tem qualquer interesse na avaliação que se faz do seu trabalho ou das suas opiniões. Não me consta que a sua relação com José Sócrates, que só a ela (e a ele) diz respeito tenha algo a ver com a sua performance profissional.
Como qualquer um de nós, independentemente da sua profissão, tem todo o direito de se pronunciar sobre um caso como o Freeport, que atinge a credibilidade do sistema judicial de um estado democrático, o nosso, assim como tem todo o direito de atacar o péssimo jornalismo dito de investigação que tem sido apanágio do ataque de carácter que diariamente se faz ao cidadão José Sócrates.
Declaração de interesses? Que tal defender o seu direito à opinião livre, sem ser atacada pelas suas relações pessoais?
De facto as pressões e as tentativas de censura existem, mas não aquelas que todos os dias se anunciam. A defesa do direito à honra e ao bom nome é uma obrigação de todos os que acreditam num estado de direito. Porque qualquer um de nós pode ser atingido pela lama.
Por amor a Sócrates
A namorada do primeiro-ministro tem sido um dos rostos mais visíveis das críticas ao caso Freeport
Habituada a polémicas, do aborto ao casamento homossexual, Fernanda Câncio, jornalista do “Diário de Notícias” e namorada de José Sócrates, tem-se destacado nos últimos tempos pelas críticas que faz à investigação judicial e jornalística do Freeport.
A jornalista tem utilizado todos os meios onde escreve para atacar o processo em que o primeiro-ministro se tem visto enredado. Seja em textos de opinião no “DN”, no blogue onde escreve — o ‘jugular’ —, ou no Twitter — uma rede social que funciona como microblogue.
No entanto, foi a sua participação num programa da TVI24, que causou mais mal-estar no seu local de trabalho. No “A Torto e a Direito” (onde participa todas as semanas), Câncio criticou a investigação judicial, mas também a cobertura jornalística, que disse resumir-se a fugas de informação.
O Expresso sabe que, na sequência das declarações, Carlos Rodrigues Lima, jornalista que acompanha o caso no “DN”, enviou uma carta ao Conselho de Redacção e à direcção do jornal. No documento, Lima, que na redacção se senta a dois lugares de distância da colega, questiona se as declarações da redactora põem em causa o trabalho do jornal; e se se justifica que Fernanda Câncio continue a defender o líder do Executivo numa coluna de opinião sem que haja uma declaração de interesses.
Jornalistas contactados pelo Expresso revelam que com o caso Freeport houve uma mudança de atitude por parte da jornalista. Se até aqui Fernanda se mantinha à parte sobre tudo o que estivesse relacionado com Sócrates, agora não se coíbe de opinar sobre o tema, chegando a alertar os colegas para escreverem só após ver os documentos.
Ao Expresso, a jornalista não quis fazer comentários. No entanto, sublinhou que a investigação jornalística se reduz não só a fugas de informação, mas igualmente a “coisas parecidas com fugas de informação, já que não se sabe de onde vêm”. Filomena Martins, directora-adjunta do “DN”, não quis comentar o assunto.
Sobre a independência dos jornalistas, o ponto 10 do Código Deontológico é claro: “O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses”. A polémica já se estendeu à web. No Twitter, a jornalista defendeu as suas posições. Dirigindo-se ao jornalista Carlos Vaz Marques, que comentara o assunto, disse: “Mas se me quiseres provar por A+B onde está o jornalismo de investigação no caso Freeport, feel free. E quem diz no caso Freeport, diz no caso Maddie. Assim só para começo de conversa, mas, claro, pode apenas ser que o meu conceito de jornalismo de investigação e o teu sejam muito diferentes. (...) E aguardo serenamente que me expliques por que motivo eu não tenho uma opinião independente. Tipo, a que organização pertenço, para além do jornal onde trabalho, às ordens de quem estou, para além da direcção do “DN”.” Dias depois, Câncio bloqueou a maioria de quem a seguia no Twitter. Agora quem quiser seguir o que ela escreve, só com autorização da própria.
Desde o início do ano, com o reacender do caso Freeport, já se pronunciou várias vezes sobre o assunto. Depois das primeiras buscas a casa do tio de Sócrates, escreveu: “é sempre uma festa ver gente a ser acusada sem provas nem julgamento, vende jornais, sobe audiências, etc. Gosto desta forma de ver as coisas: seríamos todos mercenários.” Seguiu-se uma crónica na sua coluna de opinião no “DN”, a 30 de Janeiro, onde recorreu a “J’accuse”, de Émile Zola, para denunciar uma “campanha mediática abominável”. “Escrita como carta aberta ao Presidente de França, é um apelo indignado em nome de um inocente injustamente condenado, libelo contra um sistema judicial corrupto e uma opinião pública contaminada pela manipulação da verdade e pelos seus preconceitos (o condenado era judeu) através de uma campanha mediática ‘abominável’.”
Câncio não se ficou por aqui. Há uma semana, escreveu outro artigo de opinião sobre o assunto no “DN”. “Se o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público denuncia a existência de pressões sobre os procuradores do caso Freeport que implicariam nem mais nem menos que a intervenção do Presidente, de duas uma: ou as pressões existem e nesse caso só se percebe que não tenham sido directamente comunicadas, como seria normal, à hierarquia da magistratura (...) ou trata-se de mais do mesmo, ou seja, uma acção tendente a adensar o clima de suspeição e alarme que rodeia o processo.”
Carolina Reis (Expresso, primeiro caderno, polémica, pág. 16)
Declaração de interesses, de que os controleiros da moral e do politicamente correcto tanto gostam:
- não conheço a Fernanda Câncio, não sou sua familiar directa nem indirecta, nunca trabalhei com ela
- não conheço José Sócrates, não sou seu familiar directo nem indirecto
- não sou filiada em nenhum partido, nomeadamente no PS
- não conheço nem faço parte de nenhuma estrutura partidária, como independente, simpatizante ou outras formas mais ou menos distantes, mais ou menos empenhadas
- não exerço nem nunca exerci cargos políticos
- trabalho a tempo inteiro na minha profissão
- tenho cabeça para pensar e gosto de expor aquilo que penso