29 março 2009

Café da esquina

 


Irritações matutinas, cíclicas, que um dia poderão explodir, enquanto nos outros dias apenas provocam um encolher de ombros ou um pequeno tilintar distraído no fundo da memória.


 


O café onde tomo o pequeno-almoço aos fins-de-semana é sempre o mesmo, porque eu gosto deste tipo de rituais. É o único que vende alguns jornais aos sábados e domingos e é por isso que lá vou.


 


A Dona é uma mulher azeda, mal disposta e mal encarada, que muda de empregadas como quem muda de camisa, pois o perfil que se observa nelas é do mais medíocre que existe, em incapacidade de tirar cafés, besuntar torradas ou somar parcelas e descortinar um total.


 


Em vez de saquetas individuais de adoçantes, com 1 a 2 comprimidos ou com pó, a Dona do café tem 2 frascos grandes de comprimidos de adoçantes que, quando não decide ela mesma adoçar os cafés com o número de partículas que ela acha que os clientes querem, andam sempre de mão em mão, com os vapores que se evolam de todas as bebidas quentes, se esfrangalham e colam, levando os ditos clientes a uma enervação permanente.


 


Outra característica interessante é o facto de, ao fim de 18 anos, a Dona ainda não ter conseguido fixar os preços dos jornais e dos maços de tabaco que vende, tendo sempre que ser os clientes a dizer-lhos. As empregadas, ou porque não estão tempo suficiente para memorizarem preços, ou porque acham que não é das suas competências, ou porque nunca compraram um jornal, ou porque lhes é manifestamente impossível, seguem os mesmos passos.


 


Para além disso, a Dona tem um carro que, haja ou não haja lugares de estacionamento disponíveis nos 500m mais próximos, pára sempre em segunda fila, hábito que vem sendo generalizado, pelo menos ao pé da minha porta. As pessoas andam 100m da porta da sua casa até às portas dos cafés (há quatro cafés num raio de 200m), em segunda ou terceira fila. Quando alguém tem que sair e está fechado, os donos dos carros sentem como normal o facto de quem quer sair para o trabalho lhes ir pedir para retirarem os seus. E pedir com jeito e por favor, porque senão ainda se é insultado.


 


Enfim, se calhar é por ter mudado a hora, mas hoje tudo isto teve uma enorme importância, por muito que sejam ninharias e disparates. Mas penso que a falta de respeito pelo próximo é cada vez maior.

 


Tenho que encontrar outro café que venda jornais aos fins-de-semana.


 



 


 

27 março 2009

Suplementos

 


Afinal o défice de 2008 é de 2,6% e não de 2,2%. Suspeito que não tarda nada teremos um orçamento suplementar do suplemento ao orçamento feito para 2009 (défice de 4, 5, 6%?).


 

...numa loja de cristais...

 


Está a ser muito interessante acompanhar o enorme desconforto com que o artigo de Marinho e Pinto, o histriónico Bastonário da Ordem dos Advogados, está a ser recebido por todos os que elegeram o caso Freeport como a razão de ser e o objectivo último da sua luta política contra Sócrates.


 


O mais desconfortável para quem leu o artigo (infelizmente não consegui acesso ao citado despacho de Julho de 2006 da Magistrada do MP Inês Bonina) é a cada vez maior convicção que todo este caso é, de facto, uma campanha negra, é a demonstração da promiscuidade entre investigadores da polícia, políticos e jornalistas, é a certeza de que a justiça não é justa, neste Portugal democrático.


 


Mas, é claro, Marinho e Pinto deve ter sido governamentalizado.


 



 

25 março 2009

"Cat among the pigeons"

 



 


Desta vez vou responder a um desafio sobre a verdade da mentira, que me foi feito pela Donagata, agradecendo-lhe também um cristalino prémio que decidiu conceder-me.


 


Tenho que descobrir em que é que a Donagata mentiu, e por três vezes, ronronando e rindo como só ela sabe.




Adoro conduzir mas tenho imensa falta de orientação. – acho que não lhe falta orientação, Donagata.

Fui ameaçada de prisão numa viagem de avião. – conheço algumas aventuras da Donagata pelos ares, mas esta escapou-me.

Adoro chá. – eu diria que era mais café.


 


Cabe-me agora mentir bem e acertar também, para que não se distingam as três inverdades, como algumas pessoas dizem e que aqui estão misturadas, esparrelas para os próximos desafiados cairem.



  • Não gosto de me levantar cedo.

  • Adoro pezinhos de coentrada.

  • Leio vários livros ao mesmo tempo.

  • Adormeço quase sempre a ver televisão.

  • Gosto muito de ir ao ginásio.

  • Tenho a vida cheia de compromissos.

  • O cabeleireiro é um dos meus vícios.

  • Não consigo fixar alguns nomes de pessoas ou lugares.

  • Perco-me dentro do meu local de trabalho.


Quanto ao prémio de cristal, após agradecimento emocionado, passo-o reverenciando outros blogues, bem mais merecedores do que eu, e que deverão responder a este (in)verdadeiro desafio: Garfadas on line, thesoundofsilence, Hora de Almoço, Grama a Grama, bonstempos hein!?.


 



 


 

Anúncios e liberdade (2)

 


Tal como o anúncio da Antena 1, o anúncio modificado pelo Bloco de Esquerda (via Arrastão) não tem graça e é estúpido, além de apelar ao proteccionismo económico e à xenofobia.


 


Pois é, podemos ver significados ocultos e pouco próprios em tudo o que entendermos. Por isso é que é bom haver liberdade de expressão e cada um dizer o que quer e interpretar o que ouve como lhe apetece.


 


Ou também devemos censurar esta nova versão?

24 março 2009

Eutanásia

 


Não é possível confundir a existência de cuidados paliativos com a defesa ou a existência legal de eutanásia ou de suicídio assistido.


 


Em primeiro lugar é preciso distinguir entre eutanásia activa, prática em que se usam meios que aceleram a morte de um doente incurável, de uma forma controlada e assistida, de forma a abreviar o sofrimento e a preservar a sua dignidade, de eutanásia passiva, em que apenas se deixam de usar os métodos que permitem prolongar a vida a um doente nas mesmas condições.


 


O suicídio assistido é diferente pois o doente, a seu pedido e não conseguindo ele próprio praticar suicídio, conta com a ajuda de alguém para o fazer.


 


Os cuidados paliativos baseiam-se no conceito de ortotanásia, tentando que os doentes tenham uma morte o mais natural possível, permitindo a evolução da doença, com suporte médico, de enfermagem, de assistência social e psicológico.


 


As palavras do Bastonário Pedro Nunes, reduzindo o debate destes temas a uma questão de poupança de muita massa é inaceitável e não é sério. Tal como na questão da despenalização da IVG, estes temas devem ser discutidos na nossa sociedade como o foi noutros países, sem que tenha sido a poupança do orçamento do estado a razão da discussão.


 


Todos os dias nos enfrentamos com dilemas morais e éticos em que nos interrogamos se vale a pena o prolongamento da vida de alguém a todo o custo (distanásia). Muitas vezes me pergunto se eu quereria um fim de vida totalmente dependente de medicamentos, dos cuidados de outros, em sofrimento, de uma morte longa e cruel ainda em vida. A minha resposta é inequivocamente não.


 


Quem defende a possibilidade de uma pessoa decidir se, quando e como quer morrer, não faz dela uma assassina em massa. A possibilidade de abreviar o sofrimento inevitável a alguém não é condenável, podendo até revestir-se de contornos desesperados e quase heróicos.


 


Reduzir estes sentimentos e estas perplexidades à poupança de massa não tem nome.

 

23 março 2009

Jade Goody (2)

 


Jade Goody morreu. Cancro do colo do útero, fatal, numa mulher de 27 anos.


 


Ouvi hoje de manhã que Jade Goody tinha sido devorada pela televisão. Fiquei a pensar nisto. Tudo se passa na televisão. Somos levados a admitir que se não foi notícia, não aconteceu.


 


Discute-se a política da crise, a crise da economia, os segredos bancários, as polícias secretas, os erros dos árbitros. Chora-se por perdão, grita-se de indignação, ri-se de pura ironia. Expõe-se a pobreza, a miséria, a ignorância, a cupidez, a ignomínia, o oportunismo, o desespero, o corpo, a saúde, a doença. Tudo público, tudo para ser visto, vasculhado, violado pelos olhares, pelos comentários, pelos juízes.


 


Mas o que devorou Jade Goody não foi a televisão nem os media. Acho até que ela soube lidar com eles, independentemente do juízo moral, do arrepio ou da complacência que possamos ter, do significado filosófico, do asco, da pena, Jade Goody tirou partido da degradação e da fome de bisbilhotice, ganhando muito dinheiro com isso.


 


O que devorou Jade Goody foi um cancro no colo do útero, que pode ser evitado e diagnosticado com um simples exame citológico. Ainda por cima no Reino Unido, um dos primeiros países a organizarem um programa de rastreio na população feminina (entre 1998 e 2008 houve uma diminuição do número de mortes, considerando todas as idades, de 1.077 para 756 - cerca de 30% menos; 3,5 para 2,3 mortes por 100.000).


 


Que fique este alerta e esta lembrança: o rastreio é a melhor solução para que não haja mulheres de 27 anos a morrerem de cancro do colo do útero.


 


Jade Goody foi usada e usou os media em seu benefício. Digamos que foi um negócio. Estranho e triste negócio, mas negócio.

 



 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...