
Não sei se sou eu, se o tempo, se as circunstâncias, ou se tudo ao mesmo tempo.
O PSD diz-nos que estamos falidos e não temos solução; o primeiro-ministro diz que estamos com dificuldades mas que tem ânimo e determinação e que o ânimo e a determinação vencem as crises de dentro e de fora.
A fé move montanhas, sempre se ouve dizer quando não há nenhuma outra alternativa credível para as mover. Temos que ter fé no primeiro-ministro, porque ele tem ânimo e é determinado, na ministra da educação porque em dois anos conseguiu transformar a disciplina de Matemática num êxito retumbante; na ministra da saúde porque é agora que a esquerda vai salvar o SNS das garras do pérfido Correia de Campos, que ainda vamos descobrir era um agente infiltrado das forças mais reaccionárias e conservadoras da nossa sociedade civil, no ministro da economia que se dá ao trabalho de inspeccionar hipermercados, enfim, fé nos nossos governantes.
Mas também temos que ter fé no Pacheco Pereira e no Aguiar Branco, quando tão amavelmente nos explicam o pensamento e as omissões da Dra. Manuela Ferreira Leite, as certezas da Sociedade Portuguesa de Matemática e de todos os que acham que quanto mais chumbos, ou seja mais rigor e exigência, mais sabem os alunos, nos elementos do Bloco de Esquerda que são, eles próprios, ministros de fé, em Jerónimo de Sousa que acha que as FARC são um exército de libertação dos oprimidos e que Ingrid Betancourt esteve retida, quem sabe até secretamente satisfeita por tão honroso acampamento de férias de quase 7 anos, e que propõe subida de ordenados, congelamento de preços, redução de impostos, e que só falta distribuir gratuitamente alguma pílula de sorriso perpétuo para nos relaxar.
Mas eu sempre fui mulher de pouca fé. Não acredito nas parangonas dos jornais, desconfio dos relatórios dos observatórios, dos relatórios do governo e dos relatórios dos partidos, em ralação à saúde, à educação, à economia, a tudo, não aguento mais ouvir Medina Carreira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Maria Filomena Mónica, Francisco Louçã, Pacheco Pereira, e outros cavaleiros do apocalipse.
Estou portanto em fase de pairar e de tentar mudar de canal sempre que começo a ouvir algo que me desgosta, de mudar as páginas dos jornais ou mesmo de nem os comprar.
Estou em franca fase de negação. O problema é que nem sei bem do quê.