Há pessoas inspiradoras em várias áreas e nos inspiram um respeito e um carinho que nem sabemos descrever, pela força e pela alegria que têm.
Para quem puder, não perca as Tertúlias animadas por esta Gata. Estejam atentos!
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Não sei se sou eu, se o tempo, se as circunstâncias, ou se tudo ao mesmo tempo.
O PSD diz-nos que estamos falidos e não temos solução; o primeiro-ministro diz que estamos com dificuldades mas que tem ânimo e determinação e que o ânimo e a determinação vencem as crises de dentro e de fora.
A fé move montanhas, sempre se ouve dizer quando não há nenhuma outra alternativa credível para as mover. Temos que ter fé no primeiro-ministro, porque ele tem ânimo e é determinado, na ministra da educação porque em dois anos conseguiu transformar a disciplina de Matemática num êxito retumbante; na ministra da saúde porque é agora que a esquerda vai salvar o SNS das garras do pérfido Correia de Campos, que ainda vamos descobrir era um agente infiltrado das forças mais reaccionárias e conservadoras da nossa sociedade civil, no ministro da economia que se dá ao trabalho de inspeccionar hipermercados, enfim, fé nos nossos governantes.
Mas também temos que ter fé no Pacheco Pereira e no Aguiar Branco, quando tão amavelmente nos explicam o pensamento e as omissões da Dra. Manuela Ferreira Leite, as certezas da Sociedade Portuguesa de Matemática e de todos os que acham que quanto mais chumbos, ou seja mais rigor e exigência, mais sabem os alunos, nos elementos do Bloco de Esquerda que são, eles próprios, ministros de fé, em Jerónimo de Sousa que acha que as FARC são um exército de libertação dos oprimidos e que Ingrid Betancourt esteve retida, quem sabe até secretamente satisfeita por tão honroso acampamento de férias de quase 7 anos, e que propõe subida de ordenados, congelamento de preços, redução de impostos, e que só falta distribuir gratuitamente alguma pílula de sorriso perpétuo para nos relaxar.
Mas eu sempre fui mulher de pouca fé. Não acredito nas parangonas dos jornais, desconfio dos relatórios dos observatórios, dos relatórios do governo e dos relatórios dos partidos, em ralação à saúde, à educação, à economia, a tudo, não aguento mais ouvir Medina Carreira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Maria Filomena Mónica, Francisco Louçã, Pacheco Pereira, e outros cavaleiros do apocalipse.
Estou portanto em fase de pairar e de tentar mudar de canal sempre que começo a ouvir algo que me desgosta, de mudar as páginas dos jornais ou mesmo de nem os comprar.
Estou em franca fase de negação. O problema é que nem sei bem do quê.
José Sócrates safou-se bastante bem. Está em campanha eleitoral, explicou os problemas da crise internacional, soube introduzir as alterações e as benesses que vai distribuir agora. Foi contido, incisivo, pragmático e pragmático.
Respondeu bem às obras públicas, nomeadamente ao TGV, ao aeroporto (que foi um enorme imbróglio), às barragens e às auto-estradas, respondeu bem ao discurso derrotista e populista da crise e do drama. Respondeu menos bem à crise dos camionistas e à forma como tem reagido às contestações sociais.
O estudo de uma sobretaxa às mais valias das petrolíferas, o aumento das deduções das taxas de juro à habitação e a alteração do IMI, foram um enorme golpe para calar o BE e o PCP. A leitura das propostas do PCP foi mortal para este. Mas Sócrates não precisa de matar o PCP, ele próprio o faz continuamente.
Cinquenta vezes Sócrates em vez de uma só Manuela Ferreira Leite.
Ou seja, a Dra. Manuela Ferreira Leite considera que não faz ideia nenhuma dos encargos dos vários investimentos públicos que o governo vai fazer, mesmo tendo estado em governos que decidiram esses mesmos investimentos públicos, alguns em compromisso com outros países e com co-financiamento da UE, coisa a que não respondeu, o que vai fazer ao tal dinheiro de Bruxelas.
Também acha que o país, que atingiu o valor mais baixo de défice dos últimos anos, ao contrário do que aconteceu quando foi Ministra das Finanças, que o país está mais endividado do que nunca. Estaria a referir-se às famílias, ao Estado?
Quanto à redução do défice, afinal as contas públicas já não são prioritárias. Só no tempo dela é que eram, embora não o tenha conseguido fazer.
Enfim, os pobres podem ficar descansados, os velhos pobres e os novos pobres, porque a Dra. Manuela Ferreira Leite, que dá o dito por não dito em tudo, vai agora em socorro da emergência social, que ela sabe, e todos nós sabemos que existe, embora não haja estudos, o que é uma pena, e embora os relatórios sobre a pobreza não digam exactamente isso.
Todos devem ter acesso ao SNS mas quem pode deve pagar mais do que quem não pode. Como é que isso se faz? Divide-se a classe média, não sei para quê, porque não explicou. Afirma peremptória que Correia de Campos tinha razão nos seus objectivos (lembremo-nos que Correia de Campos sempre defendeu a redução do desperdício, a racionalização dos custos mas, e acima de tudo, a universalidade do SNS), mas não tinha razão na forma, porque fechou serviços onde não havia alternativas.
A Dra. Manuela Ferreira Leite quer ganhar as eleições com maioria absoluta. É contra o bloco central – concordamos numa coisa!
Quem não gostava do populismo a Santana Lopes e de Luís Filipe Menezes é capaz de gostar um pouco mais deste. Enfim, sempre é uma mulher na política, que fica tão bem nesta nossa sociedade tão machista!
(pintura de Laurie Zagon: warm changes)
Pesa-me o ar
este amarelo pardo
amolecida a vontade de mudar
pesa-me a espera
da inevitabilidade de mudar.
Erwin de Vris Aguardo. A música varre o tempo amena a brisa que consola. Aguardo a voz de quem se esconde a terra aprisionada ...