24 maio 2008

O Estado dos pobres

A proliferação dos privados na saúde apenas aumentam a liberdade de escolha para quem a pode pagar. Ao deixar de ser universal o SNS retira-se para os mínimos, deixando ao Estado o papel de caridoso protector dos pobres, a quem basta pouco e a quem pouco tem para oferecer.


 


A história recente demonstrou sem margem para dúvida que os privados são muito mais eficientes do que o Estado a gerir recursos nas mais diversas áreas de actividade, incluindo a Saúde. - (editorial do DN de hoje).


 


Não sei onde está a demonstração desta eficiência. Nem sei onde está a demonstração do contrário. O que sei é que sistemas de saúde predominantemente privados, tal como o que existe nos EU, não servem as populações, tais como os cheques ensino não melhoram as oportunidades de quem tem menos poder económico, apenas perpetuam as hierarquias sociais, pois uns têm capacidade para chegar aonde outros não podem.


 


A concorrência com o sector privado é benéfica desde que não se entenda que o Estado é o estado dos pobres. Para quem está sempre a dizer que não há diferenças entre esquerda e direita, aí estão as opiniões de Ferreira Leite e de Passos Coelho sobre o SNS para as perceber.

Enervação


 


Se há coisas que me enervam até a um limite que estou sempre a ultrapassar, é a incapacidade de compreender algumas coisas que não funcionam, embora pareça estar tudo impecavelmente bem.


 


Neste grupo estão omnipresentes os falhanços com configurações de correios electrónicos, routers, enfim, tudo o que diz respeito a computadores e internet, de que não percebo nada mas irritam-me, mas tanto, tanto…

Inevitável

Vamo-nos indispondo cada vez mais na solidão, mas nem sabemos os braços que nos vão faltando, o peso insustentável dos olhos que se vão baixando, o frio que se instala devagar e nos arrepia os lábios, numa sugestão de sorriso.


 


Vamo-nos aconchegando cada vez mais na nossa solidão, esquecendo que a lareira é alimentada pelas vozes e pelos silêncios da companhia de quem queríamos, ou de quem julgávamos querer.


 


E são tardes de chumbo, manhãs submersas em múltiplas caminhadas inúteis, noites entretidas de nada.


 


E são inevitáveis como o tempo.


 



(pintura de Alfred Wallis: Boats under Saltash Bridge)


 

21 maio 2008

Vigarices


 


Voltam a atacar os enganadores profissionais. Desta vez disseram-me que tinha respondido há 2 anos a um inquérito sobre doenças cardiovasculares e que tinha um rastreio gratuito para fazer, no Centro de Rastreio de Oeiras e que, inclusivamente, já me tinham enviado um postal (nunca por mim recebido) com certeza que se tinha extraviado.


 


Teve azar, a senhora. Depois de me perguntar o nome do meu marido, eu achei que a desfaçatez já era demasiada e fui desmontando os argumentos: onde era o centro de rastreio, centro de rastreio de quê, em que consistia, quem patrocinava, quem autorizava, quem credenciava, etc.


 


Fui passando de enganador para enganador até que me disseram que não estavam ali para enganar ninguém e que eu não era obrigada a ir.


 


No dia seguinte já era um fim-de-semana para 4 pessoas, grátis, que já tinha sido enviado pelo correio (nunca recebido obviamente), e que tinha que ser levantado naquele mesmo dia. A conversa de não estar ali para enganar ninguém foi a mesma.


 


Os tempos estão maus, é preciso imaginação para enrolar os papalvos.

A insustentável leveza do ser

Nas últimas décadas o primado da individualidade, do quero por isso posso, da liberdade de escolher a nossa vida, da necessidade de a comandar, de a decidir, retirando a deus, ao destino, ao acaso, a condução do que nos vai acontecendo, deixou-nos um vazio e uma estupefacção quando algo de totalmente inesperado faz dar uma volta de 180 graus ao planeado.


 


E no entanto, se olharmos para aquilo em que resultaram os anos já passados, desde o local onde vivemos, às pessoas que nos rodeiam, entre amigos e família, ao nosso papel com os filhos e os pais, no amor, no trabalho, em todas as facetas do nosso crescimento, poucos serão os que acenam satisfeitos pelo facto de tudo se ter passado como imaginavam, sonhavam ou até receavam.


 


Tenho assistido a muitas lutas para que tudo volte ao trilho inicial, a muitas frustrações pelo que é entendido como falhanço, mas a poucas situações de adaptação activa, calma e ponderada aos acontecimentos incontroláveis que se nos impõem.


 


Se calhar é aí que está o segredo: sem cedências nem desistências saber olhar para as reviravoltas da vida e conseguir levá-la a bom termo, nem que seja de verde em vez de vermelho, nem que seja para a esquerda em vez de para a direita, mas com todos os sentidos naquilo que queremos alcançar, naquilo a que chamamos felicidade.


 



(Milan Kundera, Phillip Kaufman)

20 maio 2008

Os puros

Nem sei bem que lado escolher, se o direito, se o esquerdo, nem sei bem se ainda há lados para escolher. Dizem-me repetidamente que não, que tudo se mistura, que há os que estão com a verdade e há os que estão perdidos em mentiras devassas.


 


Em tudo agora se vê o mal, em tudo o que está à vista e que não deveria estar, já não posso ter dentes amarelos do tabaco, os dedos achatados e arredondados, com aquele fumo definitivo, nem o copo de cerveja pendurado dos dedos da outra mão, assim ao de leve, de modo a escorrerem as gotas de água até à mesa.


 


Nem sequer almoçar fritos e refastelar-me de leite-creme, dormir a sesta, gostar de trabalhar e de estar com os amigos.


 


Agora tenho que gostar sempre e mais do que nunca dos filhos, de estar com eles, de brincar com eles, de não me importar de faltar 6 meses ao trabalho porque o mais importante são as crianças, tenho que lhes pedir perdão, ou pedir publicamente perdão pelas noites que quero passar fora, pelos cigarros que me apetece fumar, pelos doces que gosto de comer, pelas caminhadas que não me satisfazem, 1 hora de passadeira por dia, suando as estopinhas, a desperdiçar o tempo em que deveria estar a ler blogues, a ler jornais, a conversar, a beber cañas.


 


Não gosto da vida dos puros, dos bonitos, dos novos, dos virtuosos. Metem-me muito medo.

17 maio 2008

Olhar e ver

Ainda bem que parece que há capacidade dentro do SNS para tratar da saúde oftalmológica da nossa população, embora muito me espante este súbito e tão agudo interesse para um problema tão crónico e arrastado, como o é a existência de listas de espera à cirurgia das cataratas.


 


Espero é que se chegue também à conclusão que o SNS deveria estudar a forma de tratar da saúde oral da nossa população, e da saúde dos restantes órgãos e sistemas, sem alarmismos e sem ir a reboque das notícias, como foi o caso das vacinas contra o cancro do colo do útero.


 


Esperemos que haja decisões políticas que beneficiem os cidadãos, que estejam estruturadas e que não parecem ser apenas em reacção a uma qualquer agenda, política ou outra.


 



 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...