23 abril 2008

Não me importa


 


(pintura de Carole B.Perret: Tourbillon Automnal )


 


 


 


Não me importo de escrever e falar, de ouvir e perguntar 
de gostar e saborear, de rir e de chorar 
de te ver, de te beijar 
não me importo de me importar.

Mas já me importa o ter que haver, que somar
que guardar, que reter, que empacotar
que segredar, que esconder, que suspirar
pelo gosto que tenho em viver e tudo dar.


 


 


E então, depois deste desafio, a que espero ter conseguido responder, lá terei que o estender a outros lados:


 


Amigos de Peniche


Cuaoleu


Grama a Grama


o enigma e o espelho


bonstempos hein?


Astro Que Flameja


cocó na fralda


 


Pois é, e assim será.

Seriedade

Ouvi, muito de raspão, S. José Almeida, no Rádio Clube Português, defender que Sócrates não teria maioria absoluta, facto que se depreendia por existirem muitíssimos insultos ao Primeiro-Ministro, na forma de cartazes, assobios, manifestações e urros (a forma pela qual se processavam os insultos são uma adenda minha).

Gostava de saber quais foram os Primeiros-ministros , das Finanças, da Saúde, da Educação, do Trabalho, da Agricultura, de tudo o resto, que não foram insultados, apelidados de gatunos, vigaristas, incompetentes e outros mimos, por anónimos cidadãos e por digníssimos representantes da Nação, desde a alvorada da liberdade.

Também ouvi, boquiaberta, que o tema do fórum TSF de hoje era a reforma das relações laborais, documento de trabalho apresentado ontem aos parceiros sociais. É claro que todo o povo passou a noite de ontem a estudar e a digerir o dito documento e está apta a declamar opiniões avisadas numa rádio perto de si.

Seriedade, é o que é, seriedade nos debates e nas opiniões, para que todos lucremos com o espectáculo a que temos direito.


 


(Link disponibilizado aqui.)

Frei Tomás


Tem que se retirar a demagogia da discussão da área da Saúde e transformá-la num compromisso sério e solidário para que todos os portugueses tenham acesso ao sistema nacional - Pedro Nunes, Bastonário da Ordem dos Médicos


 


Bem prega Frei Tomás: faz o que ele diz, não faças o que ele faz.


 


Ratificação



Será hoje ratificado, na Assembleia da República, o Tratado de Lisboa.

Não foi referendado nem discutido. Ninguém sabe o que vai acontecer depois da ratificação. Ninguém se deu ao trabalho, muito menos o governo ou o PS, de promover a discussão pública do documento, de promover a discussão na Assembleia, de informar.

Nem os pensadores, nem os jornalistas, nem os comentadores, nem os analistas, e muito menos os partidos que nos deveriam representar, do CDS ao PCP.

Somos todos europeus, mas alguns são menos europeus que outros.



Adenda: Este tipo de afirmações são absolutamente lamentáveis.


Outra adenda: é verdade. Mas não altera nada.

22 abril 2008

Preocupações (III)

Ao organizarmos uma sociedade que confia em grupos para lhe providenciar apoio social, segurança, educação, justiça, o que é que esses grupos quererão em troca desse tipo de serviços?

Para quem não tem poder económico para os comprar, esses serviços passam a ser encarados como dádivas de alguns, sendo o preço a pagar por eles a fidelidade e a clientelização, mesmo que os que provêm às necessidades sejam movidos por algo como a noção religiosa e moral do bem e do mal.

Se a sociedade encarar esses serviços como um direito dos cidadãos, tenderá a criar organismos que os assegurem, sem ser em troca de gratidão ou de dinheiro (utilizador/pagador) com a contribuição obrigatória de todos os cidadãos. Ou seja é um dever quando chega a hora de pagar e é um direito quando chega a hora de receber. É pedida a solidariedade de todos para todos, através dos impostos, não dependendo ninguém da bondade ou da caridade cristã de qualquer dos seus concidadãos.

O Estado não é uma entidade abstracta e não serve apenas para assegurar a existência de um país. Tem outros deveres e outras obrigações. Ao querermos esvaziar as funções do Estado, retirando-lhe o dever de prover determinados serviços aos cidadãos, chamando-lhe estado regulador e não prestador, estamos a correr o risco de passarmos a depender totalmente dos detentores do poder económico e/ou religioso.

Será que não aprendemos nada?

21 abril 2008

Há um lago na infância


 


Há sempre uma casa antiga na infância


lá para cima


um passo de desarmonia


um vestígio de escadas retiradas


na primeira oportunidade


um lago, há também um lago


na infância sem barco que o possa


atravessar e uma pedreira branca


ambos sem utilidade


e algumas crianças


que pintam a vaga pocilga de pedra


e riem e apanham rãs em vez de fruta


e apanham uvas, também apanham uvas


de outra nacionalidade


e antes de se escrever durante a noite


contra o sono


havia um caminho de terra


incerto apenas nas suas pedras


na útil ambiguidade do solo


 


(poema de Filipa Leal)

de raiz


 


abraçar mesmo o mundo


o mesmo que trepar a um cedro


solto como destino a pulso


à força dos braços por dentro


 


amar a sério o centro o corpo


sério como coração e nervo


se abrirem ao tempo incerto


que passa o tempo entretanto


 


querer viver a vida no entanto


sem vivê-la instante a momento


é declarar morto o que está vivo


 


esperar pela morte como o vento


esperar que tudo passe ao lado


sem vivos nos termos sentido


 


(poema de Joaquim Castro Caldas)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...