Gostava de saber exactamente o que significa ser da esquerda moderna.
Se ser da esquerda moderna é tentar transformar os serviços públicos em serviços de qualidade, exigentes e como o objectivo principal de servir o público, eu sou muito moderna.
Quais os motivos porque há descontentamento no PS em relação às políticas governamentais, que não aceitam essa fórmula de esquerda moderna?
Fazer reformas na segurança social e no sistema de reformas e pensões de forma a torná-la sustentável, garantir que ela continue a existir e a proporcionar um rendimento a quem chega ao fim da sua vida laboral, partindo do princípio da solidariedade entre as gerações, usando os impostos que se pagam?
Fazer reformas no sistema de educação com mais exigência sobre os agentes educativos, começando pelo combate ao absentismo, pela avaliação do desempenho dos professores e educadores, pela instituição de exames nacionais que controlam as aprendizagens e colocam todos os alunos e todos os professores em situação de igualdade, deslocando o objectivo da escola para a luta contra a indisciplina, contra a formação de guetos, contra o desinvestimento nos alunos com mais dificuldades, contra os tempos não aproveitados para investir na aprendizagem, pela concentração de recursos públicos e melhoria das condições de acesso a escolas com melhores condições?
Fazer reformas no sistema de saúde tentando tornar mais eficientes os serviços que existem, reorganizando e concentrando meios técnicos e humanos que garantam melhor qualidade de assistência, controlando o cumprimento dos horários dos seus funcionários, investindo nos cuidados de saúde primários e em atendimentos de situações agudas, reduzindo e melhorando os serviços de urgência e de emergência para aquilo que deverão estar verdadeiramente vocacionados, investindo na centralização da distribuição e aconselhamento de recursos, em redes de transportes especializados?
A esquerda moderna é deixar tudo com estava? Isso é que é ser socialista?
O investimento na exigência e na igualdade de tratamento e de oportunidades, independentemente da cor, da raça, do género, da classe social, do local de nascimento e residência, ao contrário do paternalismo para com as populações que precisam de ter a ideia de um acompanhamento de proximidade para se sentirem seguras, é o contrário de quem pugna pelas ideias socialistas.
Qual o objectivo da chamada ala esquerda do PS o colocar em causa estas reformas, acusando o governo de insensibilidade social? Quais as alternativas que propõem? Manter o SNS como está? Não mexer no sistema educativo ou manter a filosofia anterior, que ninguém sabe exactamente qual é, cujos resultados estão bem à vista?
E no sistema de pensões? Quais as alternativas socialistas e esquerdistas dessa ala mais progressista? E em termos económicos e de reforma da administração pública, o que fazer, concretamente, reduzir os funcionários públicos ou não; redistribuí-los e colocá-los onde eles faltam ou não? Como podemos reduzir a despesa pública? Ou não precisamos de o fazer?
É que, para mim, e por muito que me enervem as arrogâncias de Sócrates, aquela voz autoritária e os sorrisinhos desajustados de Correia de Campos, são políticas e alternativas que eu espero conhecer dos oponentes a esta forma de governar.
Frases bonitas e boas intenções todos temos, mas é preciso que digamos como vamos conseguir essas melhorias, essa manutenção das conquistas de Abril.
Era bom que nos deixássemos de retórica e discutíssemos o que de facto está em causa. Quais as opções da ala esquerda do PS, corporizada por Manuel Alegre, Helena Roseta, Maria de Belém, Ana Benavente, Constantino Saklarides, Manuela Arcanjo, e outros? Era muito bom que se discutissem seriamente estas matérias e não se caísse em populismos, porque os há de direita, de esquerda, do centro, corporativistas, e de todos os tipos.
Há muita coisa a mudar. O PS precisa de discutir as alternativas no seu interior, mas com seriedade. Apontar todos os dias as desgraças que se passam nas urgências, nas consultas, que já se passavam há anos, mas que só agora foram descobertas, e ouvir o Bastonário da Ordem dos Médicos dizer que nos sítios onde não há articulações da rede das urgências e emergências pré-hospitalares deveriam ser reabertos os SAPs, como se ele não tivesse obrigação de saber que em nenhuma daquelas circunstâncias a existência de SAPs modificaria alguma coisa, como se ele não tivesse obrigação de saber que a descoordenação e a falta de meios já existe há muitos anos, é triste, desencorajador, e dá vontade de desaparecer.
Porque assim, nem com alas esquerdas, direitas ou centrais, iremos a lado nenhum. Estamos condenados a recomeçar de 2 em 2 anos, mais desencorajados e mais incrédulos, mais velhos e descrentes na existência de boa fé de parte de quem nos manipula e nos convoca as emoções.