05 outubro 2007

Pecados públicos

A propósito do projecto de regulamentação da assistência religiosa nas unidades públicas de saúde, documento ainda não disponível online (pelo menos que eu conseguisse encontrar), as informações sobre o seu conteúdo são, para dizer o mínimo, ligeiramente desencontradas.

Enquanto o coro de jograis constituído por diversos Bispos e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, orientados e amplificados por Marcelo Rebelo de Sousa, nos sermões dominicais, clama a heresia do governo e as malfeitorias dos não católicos, Fernanda Câncio assina dois artigos (um de opinião) no DN de hoje, em que denuncia a enorme desinformação orquestrada pela Igreja Católica a respeito do referido projecto.

Gostava de ler o documento para tirar as minhas próprias conclusões. Tomando como factos os relatados por Fernanda Câncio, continuo a desconfiar das promessas dialogantes do nosso Primeiro-Ministro. Por outro lado as certezas do Prof. Marcelo estão já a fazer parte do anedotário nacional.

A República

Senha
Mandou-me procurar?
e contra-senha
Passe cidadão!

utilizadas pelos revolucionários republicanos de 1910

04 outubro 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

(letra e música de Jorge Palma: encosta-te a mim)

Registo final

O corpo estende-se em perspectiva, maiores os pés que a cabeça. Regista mentalmente o tom marmóreo, a temperatura frigorífica, a simetria das mamas, os livores, as unhas dos pés espessas e curvas. Toma nota da distribuição pilosa, da espessura do panículo adiposo, das cicatrizes, dos edemas, da rigidez dos membros.



O som da água a correr em fio, o tabuleiro em equilíbrio instável, a triste afirmação do corpo que chegou ao fim e se expõe, na nudez e despojamento que a todos reduz ao máximo comum da morte.



Homens ou mulheres, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, cobardes ou heróis, alegres ou melancólicos, mestres ou alunos, novos ou velhos, todos somos uma mistura de órgãos, sangue e dejectos, com as mesmas cores e consistências, as mesmas pregas e espessuras, máquinas orgânicas com validade finita.



Falta o relatório completo e pormenorizado, num registo quantificado, medido e pesado do que se gastou e do que viveu.

(desenho de Leonardo Da Vinci)

Desistência espiritual

Espero que o espírito do diálogo, o acordo com a Constituição e com a Concordata não sejam uma benzedura subserviente e amarfanhante do primeiro-ministro, tão forte e convicto com quem não tem força, tão benevolente e sorridente com os porta-vozes do além.

Myanmar

Myanmar, Mianmar, Mianmá, Birmânia, Burma - tantos nomes para uma só realidade.

International Bloggers' Day for Burma on the 4th of October

03 outubro 2007

Chaves

Transportamos por dentro
fragmentos passados
com ferro tatuados
caixas vazias
esquecidas de segredos.

Perdemos as chaves
enterradas em bolsos
sem fundos
queimando teimosas
no relevo das mãos.

Em horas bravias
quebramos o vidro
de absurdas razões
e abrimos caminho
a outras paixões.


(pintura de Todd Bellanca: wardrobes, closets, doors)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...