27 setembro 2007

Critérios editoriais

Não concordo com Santana Lopes. Fez um mau serviço ao país e ao seu partido quando foi um péssimo primeiro-ministro. Não gosto da atitude, da postura, do ar blasé, do populismo, da irresponsabilidade, de quase tudo o que lhe diz respeito.

Mas ontem fez aquilo que já há muito alguém devia ter feito: afrontar o sacrossanto critério jornalístico, a omnisciência do sempre comentador Ricardo Costa.

Já na cerimónia de posse do Presidente da República a SIC notícias interrompeu o discurso de Jaime Gama para que alguns comentadores, nomeadamente o próprio Ricardo Costa, dizerem algumas inanidades, considerando-se muito interessantes.

Desta vez tiro o meu chapéu a Santana Lopes. E a SIC notícias faria melhor em reconhecer o erro e pedir desculpa a Santana Lopes e principalmente aos espectadores, diariamente desrespeitados por esses excelentíssimos critérios editoriais.

26 setembro 2007

Deste lado

Algo indistinto e profundo
impede a porta de fechar.

O peso em pesadelos
doces e cruéis perfumes
sedosos fios de chumbo
sentidos a definhar.

Algo irrelevante e obscuro
impede o olhar.

Parte o espelho
e foge.

(pintura de Stephen Barclay: Broken Window)

Roda livre

O espectáculo degradante a que todos nós assistimos pela performance dos dois candidatos a líderes do PSD é, para além do mais, muito preocupante.

José Sócrates continua em roda livre, sem ninguém que o interpele, que o incentive a fazer melhor, sem mostrar que é uma alternativa. O pensamento único de líder único e indiscutível nunca foi benéfico.

O Primeiro-Ministro não precisa de se esforçar para continuar no poder. E o país bem precisa que se esforcem por ele.

23 setembro 2007

As vidas dos outros

Depois do cartaz, a intimidade da arte na nossa casa, embrulhada em mim própria, só, eu e o filme. Uma história de pessoas e valores, de gradientes e de sofrimento, de idealismo e resistência.

Uma história brilhantemente interpretada, num tempo escuro e invernoso, num tempo perigoso, de demissão e denúncia, de solidão e companheirismo, de amargura e esperança.

Às vezes alguém redime as culpas dos outros, redimindo as suas. Às vezes os outros somos nós, que insidiosamente invadimos, que vagarosamente trituramos, que silenciosamente amamos.

"Ser ou não ser, isso É a questão"

Hamlet de William Shakespeare mostra-nos o génio do escritor.

Em cena no Teatro Maria Matos, a peça é o texto e os actores que lhe dão vida.

Um palco totalmente depurado de adereços, um som que se manifesta entre as cenas, nunca deixando transparecer tempos mortos, uma iluminação minimalista.

O teatro é o texto e os actores, com as palavras bem pronunciadas, às vezes um pouco gritadas, com solenidade e pesar, onde até os momentos mais leves prenunciam tragédia, onde os pés descalços servem a discrição dos movimentos que possam distrair das palavras.

A roupa escolhida é uma mistura intemporal, que faz lembrar histórias de fadas e príncipes, de cavaleiros e reinos, óbvia nos vestidos da rainha (Gertrudes), com excepção do rei (Cláudio) e do pai de Ofélia (Polónio), que vestem colete e gravata, para mim uma opção incompreensível.

O início e o fim da peça são fabulosos, com os espelhos e as máscaras que invocam as várias faces que nos moldam e que usamos, num drama em que todas as emoções humanas são violentamente tratadas. Duas horas e meia com ritmo e intensidade paralelas, sem deixar que se abrande a atenção de quem assiste, transformaram esta tarde de domingo num magnífico início da minha temporada de Outono.

  • HAMLET - William Shakespeare
    (tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen e adaptação de João Maria André)
  • versão cénica e encenação - João Mota
  • cenografia - José Manuel Castanheira
  • figurinos - Carlos Paulo
  • música - José Pedro Caiado
  • desenho de luz - João Mota e Zé Rui
  • interpretação - Albano Jerónimo, Alexandre Lopes, Ana Lúcia Palminha, Carlos Paulo, Diogo Infante, Frédéric Pires, Gonçalo Ruivo, Hugo Franco, João Ricardo, João Tempera, Jorge Andrade, José Pedro Caiado, Miguel Sermão, Natália Luíza e Raúl Oliveira
  • execução musical - Hugo Franco e José Pedro Caiado
    co-produção - Comuna Teatro de Pesquisa e Teatro Maria Matos

(pintura de Delacroix: Hamlet e Horácio)

22 setembro 2007

Ondas

Chegaremos às ondas
sedentos de mar de bruma
de barcos.

Que as auroras de espuma
nos guiem para além do eco
dos deuses.


(fotografia em friskyreddog: bluewave)

Incompatibilidades

Sabemos bem que o objectivo do BE é ocupar alguns minutos da atenção de uma forma populista e demagógica, usando a sua farda moralista e de superioridade moral, que está bastante encolhida desde o episódio Verde Eufémia.

Mas a questão, independentemente do erro nos protagonistas, é real e deveria ser objecto de rigor legislativo e da verve crua e certeira do nosso tão prolixo ministro Correia de Campos.

Não sei quantos médicos deixaram o SNS e suspeito que serão muito menos do que o que se apregoa, numa excepcionalmente bem montada manobra propagandística dos grupos privados de saúde. Mas o Ministro e o Estado deveriam aprender algumas lições com esses grupos.

Uma delas é a fidelização dos colaboradores, ou seja, o objectivo de ter os profissionais a trabalhar a tempo inteiro para o grupo.

Outra o elogio e o respeito (mesmo que mais explicitado do que praticado), as condições de satisfação profissional, de realização pessoal, de acarinhamento e de sentimento de pertença.

Outra a exigência, a avaliação e o rigor. Sou totalmente a favor de controlos de qualidade, relatórios de desempenho, avaliações de produtividade, melhoria de eficiência. Mas também sou a favor do espírito de corpo, de boas condições de trabalho, de remunerações dignas, de respeito de parte a parte.

Talvez não fosse má ideia o Estado perceber que (ainda) tem os melhores e pode melhorar (ainda) a qualidade dos seus recursos humanos, utilizando a inspiração de Correia de Campos no reconhecimento público e continuado do excelente serviço público que a grande maioria dos profissionais praticam, mesmo não ouvindo elogios, mesmo tendo um salário construído com base na soma de um vencimento curto e desprestigiante com vários tipos de subsídios e estratagemas.

Exigir, responsabilizar, avaliar e credibilizar, aceitar a incompatibilidade de funções exercidas na função pública e no sector privado, fidelizando os seus funcionários com um pouco mais do que palavras destemperadas e desagradáveis, criando um verdadeiro espírito de equipa, fazendo sentir que o melhores estão no melhor lugar, trabalham o melhor possível e, por isso, são os mais apoiados.

Seria muito mais difícil a Francisco Louçã atrapalhar, mesmo que por pouco tempo, o Primeiro-Ministro que demonstrou, mais uma vez, pouca flexibilidade no encaixe e, pior, nenhum argumento credível.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...