04 setembro 2007

Cadeias bloguísticas

Respondendo ao desafio do Pedro Correia de indicar 10 livros que não mudaram a minha vida, empoleirei-me no banco e retirei 10 livros das prateleiras.

É de realçar que há livros que considerei muito bons quando os li pela primeira vez, transformando-se em intragáveis após alguns anos. O contrário também se passa, e já descobri algumas preciosidades quando venço o preconceito de não ter gostado à primeira.

Quando não gosto de um livro tenho tendência a abandoná-lo, mesmo depois de algumas semanas em pousio na mesa-de-cabeceira. E cada vez me acontece mais. Estou menos paciente e mais exigente, talvez.

E são eles:
  1. A voz melodiosa – Monserrat Roig
  2. O fio do horizonte – Antonio Tabucchi
  3. Exortação aos crocodilos – António Lobo Antunes
  4. A Rainha do sul – Arturo Pérez-Reverte
  5. Correcções – Jonathan Franzen
  6. O confessor – Daniel Silva
  7. Psicopata Americano – Bret Easton Ellis
  8. O alquimista – Paulo Coelho
  9. Dança de família – David Leavitt
  10. O pêndulo de Foucault – Umberto Eco

E para não quebrar a cadeia, vou desafiar 5 blogueiros para o mesmo:

Isto é divertido!

(pintura de Robert Gaudreau: books)

02 setembro 2007

Não posso adiar o amor para outro século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepita e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


(poema de António Ramos Rosa; pintura de
Vincent Romaniello: gray gird)

Triste Festa

De novo a Festa do Avante, de novo as FARC. De novo?

A Festa do Avante, há muitos anos, teve um papel relevante na divulgação de determinado tipo de cultura e de um ideal de sociedade que, no Portugal do pós 25 de Abril, era aceite como a terra prometida da liberdade, da democracia, da igualdade, da felicidade a que todos poderíamos aceder.

Como fomos descobrindo, mais ou menos dolorosamente, essa utopia baseava-se numa realidade bem diversa, em que as perseguições políticas, a censura, o atraso no desenvolvimento tecnológico criou uma sociedade de uma imensa maioria de tolhidos, revoltados, pobres e excluídos, e uma escassíssima minoria de privilegiados, ditadores e corruptos, tal como em todos os estados ditatoriais.

Por ser um regime fundamentado na ideologia socialista, de esquerda, a mesma esquerda política ainda hoje tem alguma dificuldade em descolar da depressão que se seguiu à queda do muro, à exposição do engano e à desilusão.

Só assim se compreende a retórica de algumas pessoas bem intencionadas mas presas de um passado que não volta mais. E não me estou a referir aos dirigentes dos partidos políticos que acabam por ser cúmplices de indiscutíveis e indesculpáveis atentados à liberdade e à democracia, como é a manutenção de desculpas ridículas sobre a natureza das FARC, convidadas da Festa do Avante, ou o permanente elogio do regime cubano e seus amigos.

É muito triste que o debate ideológico esteja preso a cumplicidades que não se entendem, e que conspurcam à partida a boa fé de quem argumenta.

Entretanto, Putin soma, segue e continua. Tudo é nebuloso e escuso, jornalistas assassinados, envenenamentos de contornos pouco precisos, livros à medida da mentira e da manutenção da censura.

A Festa do Avante transformou-se numa caricatura de si mesma.

Adenda: ler também O PCP, os ditadores e o anti-comunismo, e A desonestidade política do PCP.

Serviço público

Muito já se falou sobre a invasão da plantação de milho transgénico. É interessante assistir a alguns comentários à prestação de Mário Crespo na entrevista que fez a Gualter Baptista (28 anos, engenheiro do ambiente).

Não sou particularmente apreciadora do estilo redondo e palavroso de Mário Crespo, da excelência de conteúdos ou das suas opiniões, que não deveriam ser manifestas nas entrevistas que faz.

Mas exceptuando o estilo, Mário Crespo apenas fez o que muitos jornalistas não fazem: confrontar o entrevistado com as suas posições, com as suas palavras, com os seus actos, descascando a retórica e as frases feitas de modo a assistirmos à coerência (ou falta dela) do entrevistado.

Na verdade o grande delito de Mário Crespo foi ter exposto, sem compaixão (e com gozo, convenhamos, que não lhe ficou bem), a total ausência de pensamento estruturado, de conhecimento científico e de carácter de um indivíduo que se reclama estar a restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática que tem sido constantemente deteriorada pelas políticas da União Europeia e pelo Governo português. Ainda por cima tentando demarcar-se da própria acção, querendo dar a entender que estava lá sem lá estar.

É pena que noutras entrevistas esta moda não pegue. Porque seria, de facto, uma excelência de conteúdo e um verdadeiro serviço público.

Milésimo

Este é o milésimo texto que escrevo neste blogue. Com maior ou menor regularidade, com maior ou menor inflamação, com maior ou menor reflexão, mas sempre com um gozo enorme, vou usando este espaço como uma forma de participar no mundo.

Tenho lido muitos outros blogues, muitas outras paixões, às vezes intimistas, às vezes azedas, muitas vezes divertidas, que vão enriquecendo e maturando as minhas próprias ideias.

É muitíssimo interessante fazer parte desta comunidade, que se alimenta a que serve de alimento a outros tipos de meios de informação, sendo neste momento uma extraordinária fonte de informação e de actividade da sociedade civil. É também extraordinária a capacidade de agressividade insultuosa de quem se esconde atrás de um anonimato e da possibilidade, que pensa democrática, de espalhar maledicência e fel.

A todos os que me visitam, lêem e comentam agradeço, pois é gratificante perceber se o que dizemos ou pensamos é, pelo menos, perceptível, mesmo que de orientação totalmente diferente. E assim vou continuar.

01 setembro 2007

Vamos lá

Depois do imenso espreguiçar do país em Agosto, todos afinam máquinas e competências para Setembro.

Talvez seja o tempo mais propício ao pensamento e à acção, talvez os nossos representantes se tenham cansado de tanta inanição.

Fermentou a crítica dos sindicatos, as desculpas do governo, estudaram-se números para manipular, empilharam-se razões para reportagens inflamadas, ensaiaram-se frases e escândalos à medida dos próximos meses.

Se tudo correr como previsto, conseguiremos passar mais um ano sem aflorar assuntos fundamentais, poderemos chegar ao próximo ano com os mesmos tiques governamentais, os mesmos arrufos da oposição e dos bem-pensantes, com a mesma aridez ideológica à esquerda e à direita.

Enfim, Setembro aí está, para quem quiser continuar.

Vamos lá.

31 agosto 2007

Agosto

Longo Agosto
de ventos mudos
quente pleno
maduro.

Venham as chuvas
de Setembro.


(pintura de Cory Behara: leaf #1)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...