24 agosto 2007

Artesãos

Na cidade ficaram os pombos e os carpinteiros dos corpos, com o trabalho sempre em atraso. Fazem muito pó e são pouco perfeitos.

Corpos com medidas personalizadas não cabem nas costuras de um diagnóstico. Difícil de entender, neste mundo normalizado.

É tudo artesanato: o nosso conhecimento e a nossa arrogância.

Hábitos

Externo é o hábito
de usar a pele
dos búzios
espalhar olhos
pelos dedos
raspar a tampa
do silêncio.

Interno é o hábito
de revolver
as ondas
desejar o mundo
imerecido
morrer infinitamente
só.

(Leonardo da Vinci: desenho do coração e dos seus vasos)

A estrada

Piso a estrada vagarosamente
o caminho a pedra
o sol que queima.

Piso a estrada dolorosamente
o longe o vento
a sede de névoa.

Amo a estrada silenciosamente.


(pintura de Dianne D. Baker: Passage of Fire)

Intervalozinho

Nunca tão bem me soube chegar a 6ª feira à tarde. Vou poder espreitar o mundo para lá do trabalho, encher a cabeça com outros assuntos, outras vozes, outras músicas. Tenho sede de lazer.

(pintura de Carol McCormack: Dinnabarraba dancers)

19 agosto 2007

Desocupados

Um bando de meninos que não tinham mais nada que fazer, resolveram passar um pouco das suas férias em luta ambientalista e irreverente, tão criadores e originais, tão independentes e cidadãos que são.

Não há nada melhor do que ser verde e vermelho, encenar uns batuques e uns ruídos de batuque e gritar contra os transgénicos, essa palavra que soa logo a manipulação genética e a guerra biológica, frutos do capitalismo, do consumismo e da poluição mental das mentes imperialistas e globalizantes.

É um excelente tema fracturante.

O resto foi o costume. O proprietário indignado e com um princípio de um ataque cardíaco, assustado com a flagrante ameaça da fome que iriam passar a mulher e a filha, após aquela destruição insana (1 em 50 hectares, ou seja 2% do total), a GNR a olhar para o outro lado, que isto de trabalhar cansa, e os comentadores a comentarem a idiotia de alguns e a preguiça estúpida de outros, que nem se dão ao trabalho de abrir a boca para dizer algumas evidências, como condenar o sucedido e responsabilizar quem deve ser responsabilizado.

E se os puséssemos a cavar, até pagarem com o seu próprio suor, os prejuízos?

A novíssima (confitada) cozinha

  1. Pato esturricado em molho de laranja azeda, envolto em batata esmagada e arroz engomado, com fatias de tomate verde e tiras de alface secante.
  2. Fragmentos de vitela empalada, acompanhados de cubos de pimento verde e nacos de cebola carbonizada, em cama de batatas crocantes ensopadas em óleo vegetal com salpicos de sal grosso.
  3. Bife da vazia ensanguentado, levemente escaldado, mergulhado em piscina de manteiga de mostarda e natas azedas, envolto em coroa de palitos de amido em textura estaladiça, passados por óleo antigo e cansado, com encaracolado de alface em cabelo.

Tudo isto num espaço com toques de província, serviço langoroso, em que o Chefe se mantém invisível nos bastidores. As bebidas são as únicas que se podem aceitar neste ambiente urbano e de subúrbio, com o leite de cevada bem tirado, em espuma líquida derramante.

17 agosto 2007

Famílias

Todas as famílias são disfuncionais.

Há pais ausentes e mães dragões, pais galinhas e mães tecnocráticas, pais e mães do mesmo sexo, pais e mães sem sexo, filhos únicos tímidos, filhos únicos centros de mesa, filhos múltiplos que se matam, filhos múltiplos que se amam, mães solteiras, pais viúvos, mães e pais separados dentro de casa, mães e pais separados por continentes, mães e pais sem filhos, filhos sem pais nem mães, avós que são pais, avós que são filhos, filhos que fazem tudo, pais e mães super todos, filhos malcriados, embirrentos, quezilentos, pais torturantes, manipuladores, abusadores, assassinos, filhos que sovam os pais e os avós, que fogem, que roubam, que se drogam, que se matam de fome, que se matam de fartura.

A minha família só é normal porque é minha e porque nela aprendemos a gerir o nosso quotidiano, os nossos amores e desamores, a nossa parcela necessária e suficiente de desajustamento.

Não há modelos, normas ou critérios aplicáveis, objectivos e testados, de se crescer em harmonia, com o mundo ou connosco.

Todos os dias procuramos fragmentos da felicidade, cada um à sua medida, cada forma irrepetível e teimosa. No fundo, se nos afastarmos um pouco do nosso conglomerado celular, veremos que tudo é absurdamente igual e por isso mesmo eficazmente diferente.


(pintura de van der Heide: the Good Lord is looking after you)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...