07 maio 2007

Diversão

As eleições na Madeira foram apenas uma manobra de diversão manipulada por Alberto João Jardim, no mais puro exercício de populismo, queixando-se do governo, de Sócrates, de Cavaco Silva, numa tentativa de justificar a falta de alinhamento da Região Autónoma com os esforços de contenção do resto do território.

Por isso não é sério fazer um paralelo com a situação no continente, nem querer tirar conclusões nacionais dos resultados do plebiscito madeirense. Mais uma vez, Marques Mendes deu uma triste imagem do líder da oposição.

Infelizmente o governo anda de vento em popa sem qualquer oposição credível, sem qualquer alternativa ideológica ou prática. Assistimos a previsões pouco animadoras quanto ao cumprimento da meta de 2008 para a regularização do défice, assistimos à falta de discussão e de definição da sustentabilidade do SNS, assistimos à precariedade do emprego e à falta de alternativas para os jovens desempregados.

Mas a oposição está velha, à esquerda e à direita, os sindicatos estão obsoletos, a tão falada sociedade civil está marasmática. Não se discutem os verdadeiros problemas do país ou da Europa. Perdem-se minutos infindáveis a falar de casos tristes e mediáticos, que provavelmente seriam mais bem sucedidos se em prudente investigação silenciosa, ao contrário da feira internacional em volta do eventual rapto de Madeleine. Nesses casos sim, todos temos opinião sobre tudo, nomeadamente sobre a hipotética negligência dos pais, a falta de eficiência das polícias, a falta de segurança dos apartamentos.

Deveríamos transformar o país numa gigantesca agência de detectives, ou num mercado privilegiado de treinadores de futebol. Para isso somos argutos e estamos atentos!

POR VEZES CHEGA UM RUMOR

(…)
Muito mar, pouca viagem...viajemos com estas naus.
O perigo do mar é que nos engole, nos afunda na escuridão inconsciente, nos dissolve dissolvendo toda a luz da Razão ou da Inspiração que nos podia orientar.
A redenção, pois de redenção se trata, colectiva, social, e pessoal, individual - reside na viagem.
No gosto e na convicção de que é o caminhar que fará o caminho, é a palavra esquecida e de novo recuperada que nos permitirá dizer com Manuel Alegre:

Sou o que busca a palavra onde se esconde
uma pergunta sem resposta. Sou esse navegar.
Sou o que procura mesmo se ninguém responde
e sou o que pergunta pelo mar
(in MAR ABSOLUTO, Set.2002-Maio 2005)
(…)

Yvette Centeno, apresentação do livro “Doze Naus”, 02/05/2007


Manuel Alegre exaltou a minha sofreguidão de melodia, o meu desejo de lonjura e de melancolia, o meu amor pelas palavras, a indizível sensação de se querer participar, partilhar, de ser livre, da luta para consegui-lo.

Os poemas vivem na voz e na alma de quem os lê, de quem se apodera deles como da luz do sol ou do vento que nos interroga.

“Doze Naus” é um livro que rompe e embala, provoca marés vivas e calmarias, navega pelo tempo, pela esperança, pela renovação e pela contemplação do inexorável.

Mais uma vez, agora com a calma amorosa de quem sabe o que é indispensável, lerei os seus poemas, até que eles se me avolumem na voz.


POR VEZES CHEGA UM RUMOR

Por vezes chega um rumor
um surdo rumor do tempo.
As pontes se desmoronam
as pétalas as palavras
de repente sem sentido
as árvores onde o vento
deixava um frio assobio.
Por vezes chega um cinzento
um surdo absurdo vazio.

(poema de Manuel Alegre; pintura de Alberto Cutileiro: armada de Vasco da Gama)

A ignorância é muito atrevida

Hoje já ouvi várias vezes, na rádio, um anúncio da Avis em que se compara a equação E=mc² com um disparate qualquer ao cubo (elevado à potência de 3).

Tudo bem com a imaginação, mesmo que seja pouca, mas depois confundir-se o cubo com o triplo é que brada aos céus pela ignorância! Bem sei que uma manobra publicitária não pretende ser didáctica, mas ser objectivamente ignorante, induzindo o vasto auditório em erro, é tristíssimo e inaceitável.

Pois não sei se, por acaso, algum dos criativos do anúncio alguma vez lerá este post, mas aqui está uma explicação sobre a diferença entre o dobro, o triplo e o elevar a uma determinada potência:
  • dois ao quadrado (2²) significa 2x2, ou seja 4, assim como 3² significa 3x3=9 e 4² é o mesmo que 4x4=16
  • da mesma forma dois ao cubo (2³) significa 2x2x2=8, 3³ significa 3x3x3=27
  • o que é totalmente diferente de o dobro de dois (2x2), que é o mesmo que 2+2=4, assim como o triplo de três (3x3) é o mesmo que 3+3+3=9, ou o quádruplo de dois (4x2) que significa 2+2+2+2=8
  • portanto o triplo não é igual ao cubo, ou seja NxA=A+A+A+…+A (N vezes), mas Nª=NxNxNx…xN (a vezes)!!!

06 maio 2007

No fundo dos relógios

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.


(poema de Filipa Leal; pintura de Frank Ettenberg: Cities of the Mind)

Vida eterna

O politicamente correcto ganhou mais uma batalha: a aprovação da lei antitabágica, por UNANIMIDADE, na Assembleia da República.

Ninguém contesta o direito dos não fumadores. Mas porque não se deixa ao critério dos donos dos restaurantes, bares, hotéis, etc, o facto dos seus estabelecimentos serem para fumadores ou para não fumadores?

Acho bem que comecem a pensar nas multas que farão pagar aos gordos. Quem comer mais que uma bifana, multa. Quem se recusar a comer sopa… multa! Quem preferir um gelado a uma saudável laranja… multa! Podem até encontrar-se formas de punição inovadoras: 3 voltas ao quarteirão em passo de corrida; 20 flexões; andar de bicicleta durante 1 hora; fazer três piscinas em 20 minutos.

Seremos todos mais saudáveis, mais belos, mais fortes, mais brancos, mais deuses, não sei se mais felizes, mas isso, como diria a outra, também não interessa nada.

Eleições

Sarkozy ganhou as eleições presidenciais, em França. Tenho pena, mas já se esperava.

De notar a extraordinária afluência às urnas, o que faz transparecer a preocupação dos franceses com o seu futuro, o que demonstra que a democracia ainda está viva e de boa saúde.

Vem aí o liberalismo e a força do mercado. Qual será a dimensão e a importância do estado francês nos próximos anos? Qual a política da imigração, com este filho de imigrantes?

Quanto ao futuro da União Europeia, vamos ver o que acontece. Sarkozy quer um mini tratado sem referendo. Ou seja cozinhar o que lhe interessa, com alguns dos grandes países, e fazer valer o seu peso político, económico e demográfico.

A França assim quis. Ainda não chegou a hora da esquerda, pelo menos desta esquerda francesa.

No nosso arquipélago da Madeira, Alberto João Jardim ganhou mais uns anos para insultar tudo e todos, principalmente os do contnente. Precipitou eleições por causa das finanças regionais. Será que pensa que assim vai ter mais dinheiro do contnente? Seguramente que ele não pensa isso, mas foi isso que ele levou os madeirenses a pensar. Temos mais uns anos de Carnaval assegurados.

05 maio 2007

Lisboa

A cidade está suspensa porque os vereadores, aqueles que se elegeram como seus representantes, se agarram a fios invisíveis, de teias já rasgadas, que se estendem a outras cidades.

A cidade está parada, pelos Carmonas, independentes ou dependentes, pelos Soares que foram e pelas Paulas que hão-de ser, pelas Marias Josés e pelos partidos, todos, de esquerda, de direita e sem partido.

Até quando?

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...