21 abril 2007

Percursos erráticos

Tenho-me abstido de tecer considerações sobre o que se vai passando na área da saúde. Não porque me tenha desinteressado mas porque, quando me sinto a ficar obcecada por um determinado assunto, gosto de parar, ouvir e ler o que outros pensam. Há alguns excelentes blogues sobre este tema, com opiniões com que eu concordo, outras de que discordo, mas que me dão sempre novas perspectivas e abordagens diferentes das diversas polémicas que vão surgindo.

Uma das razões do meu silêncio é o facto de, cada vez com mais estupefacção e maior preocupação, estar a tentar descortinar qual a política de saúde que este ministro e este governo querem seguir.

Em geral tenho estado de acordo com a tentativa de reorganização do SNS, com a reestruturação dos serviços de urgência, a concentração de recursos, a tentativa de melhorar a eficácia dos serviços.

No entanto não percebo algumas situações que parecem recuos, depois deixam de parecer, depois mudam, enfim, manobras de distracção versus percurso errático do ministro.

O recuo na definição das incompatibilidades entre o público e o privado é, quanto a mim, um erro clamoroso e que o ministro vai pagar muito caro. Pelo contrário deveria, de uma vez por todas, assumir a total separação entre o público e o privado, fomentando uma verdadeira complementaridade e competição saudáveis. Querer agradar a gregos e a troianos, ensaiando entradas de leão para depois ter saídas de sendeiro, é o que parece ser a sua estratégia.

Relativamente aos acordos com os diversos municípios, no que diz respeito à reorganização dos serviços de urgência, após a publicação de alguns desses acordos em Fevereiro, só no passado dia 13 (que me tenha dado conta) foram publicados outros protocolos entre o ministério e vários municípios (ainda não tive tempo de os analisar cuidadosamente). Mas o que se está a passar com o Hospital de Curry Cabral?

Outro assunto muito interessante, e objecto de um artigo publicado já há uns meses (Setembro de 2006) no Portal da Saúde, é o do alargamento dos horários de funcionamento dos hospitais, para aumentar o número de consultas externas devido à enorme lista de espera das mesmas.

O alargamento dos horários nos hospitais, agora a ser implementados, mais do que um instrumento de redução das listas de espera para consultas (aliás é muito questionável se essas consultas deveriam ser feitas em hospitais ou se deveriam ser feitas em centros de saúde com consultas de especialidade, ou nas modernas USF), deveria ser um meio para aumentar a produtividade de todos os serviços e rentabilizar espaços, equipamentos e meios humanos.

Para que haja blocos operatórios, consultas externas, laboratórios de patologia, anatomia patológica e imagem, enfim, todo um hospital a funcionar das 8:00 às 20:00h, são necessários médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, secretários de unidade e auxiliares de acção médica em horários desfasados, por turnos, e de tal forma que haja algumas horas em que todos os elementos dos serviços estejam presentes, para se manter uma coesão dentro dos serviços e dentro do próprio hospital e para se mater a formação pré e pós graduada.

Parece que, afinal, o objectivo não é propriamente esse, até porque o aumento de cirurgias aumenta a despesa hospitalar, o que está proibido. Por outro lado, para manter um hospital a funcionar a tempo inteiro, são necessários mais profissionais, o que também está proibido.

Ou seja, o objectivo final é garantir a presença de médicos até às 20:00, para deixar de pagar horas extra a quem assegura atendimento urgente nas enfermarias (para além dos serviços de urgências gerais, abertos ao exterior).

Estas medidas de poupança pura e simples, mascaradas de medidas importantes e de fundo, entristecem e desmotivam os profissionais, e descredibilizam o governo. Se não é essa a intenção do ministério da saúde, então talvez não fosse má ideia o ministro precisar as suas orientações e verificar a forma como estão a ser entendidas e cumpridas.

Falta de vegonha

Joaquim Pina Moura, membro do PS e deputado na Assembleia da República, vai assumir o lugar de presidente do Conselho de Administração na empresa Media Capital (proprietária da TVI, Rádio Comercial, Rádio Clube Português, entre outros) substituindo Miguel Paes do Amaral.

Pelo que julgo saber, esta empresa privada é constituída por um grupo de accionistas privados, o maior deles o grupo Prisa (espanhol, liderado por Jesús de Polanko Gutiérrez – 73,70%). Ou seja, a soma do grupo de accionistas estrangeiros é de 91,24%, restando 8,76% que, depreendo, serão outros pequenos investidores bolsistas, não tendo qualquer participação de capitais referentes a empresas públicas portuguesas. Portanto o governo, este ou qualquer outro, para além de fazer cumprir as leis portuguesas que regulam os meios de comunicação e o funcionamento das empresas, não tem qualquer outro controlo sobre esta empresa.

O presidente do Conselho de Administração é, obviamente, uma pessoa importante na definição de muita coisa dentro do grupo. Tal como o anterior presidente, também português, Miguel Paes do Amaral, cujo alinhamento ideológico era diferente do de Pina Moura, assim como o de Luís Nobre Guedes, Presidente da Assembleia Geral.

Joaquim Pina Moura já declarou que vai deixar o seu cargo de deputado, que não sei se seria compatível com as funções de presidente de uma empresa de comunicação, assim como os cargos que exerce no PS.

O grupo Impresa, pelo que sei uma empresa privada portuguesa que integra empresas proprietárias de canais de televisão (SIC), jornais e revistas (Controljornal), rádios, etc, tem como presidente do Conselho de Administração Francisco Pinto Balsemão, membro fundador do PPD/PSD.

Não sei se Francisco Pinto Balsemão tem ou não cargos no PSD, e se os deixou ou não. Mas também não vi ninguém preocupar-se com esse eventual problema, ao contrário da onda de indignação perante o assumir do cargo de Pina Moura.

Marques Mendes chama a isto falta de vergonha do PS, na sua ânsia de controlar a informação. Bem, mas então não se pode ter a mesma opinião sobre o controlo informativo da parte da Impresa? Ou da anterior presidência do grupo Media Capital? Ou só é permitido aos membros/simpatizantes de partidos que estão na oposição terem presidências em grupos comunicacionais privados?

Ou é porque o grupo Media Capital tem como accionista principal uma empresa espanhola? Onde estão a concorrência e o mercado e a globalização e o estreitamento ibérico em termos empresariais? Não há qualquer problema em grupos económicos poderosos adquirirem e controlarem jornais, televisões, rádios, utilizando-os para tentar condicionar/manipular o poder político, mas não é admissível que haja pessoas engajadas politicamente à frente de empresas privadas de comunicação?

Qual é a lógica de tudo isto? A falta de independência e de coluna vertebral não está na filiação política ou na falta dela.

Informação é poder, e todos tentam obtê-lo. Nalguns países os jornais declaram abertamente a sua simpatia ideológica. Não é isso que lhes tira credibilidade, mas sim a falsa imparcialidade e demagogia de quem só entende a democracia enviesadamente.

A falta de vergonha existe bem patente no editorial que José Manuel Fernandes escreveu no Público de ontem. E Marques Mendes, mais uma vez, mostrou total incapacidade na liderança de uma oposição credível, dizendo inanidades, que fazem encolher os ombros e/ou suspirar de tristeza.

20 abril 2007

Sem forma

Não me apetece estar comigo
neste lugar entranhado
de fibras células ar
no raciocínio viciado
de ser eu.

Preferia ser vapor
desta água fervente
nuvem alta transparente
sem forma.
Evanescente.


(pintura de Jane Faella: clouds)

Meritocracia

Ontem terá sido aprovada, em Conselho de Ministros, a proposta de lei que institui o sistema integrado de gestão e avaliação do desempenho na Administração Pública.

Pelo que noticia o JN online, há quotas para avaliação dos desempenhos, pretendendo-se assim acabar com o sistema totalmente iníquo de não premiar o esforço e o trabalho de quem, efectivamente, o faz.

Sou totalmente a favor de um sistema de remuneração e progressão nas carreiras que dependa do valor individual e do esforço integrado para a valorização do colectivo, que cada trabalhador desenvolva, adaptado às funções que desempenha.

Para que isso seja possível, terá que haver transparência nos critérios de avaliação e, mais importante, tem que haver confiança no avaliador, por parte de quem é avaliado.

Infelizmente, temo que a uma iniquidade se sigam outras. A forma como a maioria das chefias são nomeadas e, mais importante, a forma como se mantém a confiança dos nomeados, está, na maioria dos casos, inquinada por compadrios, troca de favores e abuso de poder.

Qual o sistema de avaliação das próprias chefias? Que garantia de equidade e imparcialidade têm os trabalhadores na hora da sua avaliação? A quem se poderão dirigir se sentirem que estão a ser marginalizados por causas distantes das estritamente profissionais?

É essencial que a avaliação das chefias tenha um componente não negligenciável de uma avaliação a 360 graus, ou seja, os dirigentes serem avaliados pelos trabalhadores. Caso essa possibilidade não seja acautelada, com a cada vez menor segurança de emprego, assistiremos a prepotências crescentes, corrupção de pacotilha e abuso da parte dos empregadores.

Estamos quase a comemorar 33 anos da revolução de Abril. Nunca haverá vivência plena dos ideais de Abril sem que se cumpra o D de Desenvolvimento. E a liberdade não pode ser manietada pelos pequenos ditadores que se sentem reis nos seus pequenos quintais públicos, com a impunidade a que hoje se assiste.

Avaliemos sim, com critério, com rigor, com competência, a começar por quem dirige.

19 abril 2007

A música das palavras

A música das palavras,
o sabor das letras na língua
quando se enrolam e deleitam
nos lábios, o estremecer dos ditongos,
o espanto das combinações,
a espera das razões que se criam.

O desenho das palavras,
as ondas que reflectem
nos olhos, entre os braços,
que correm pelo sangue
e embriagam as emoções.

Enquanto gritamos,
lambemos, seduzimos,
amamos e vivemos
de palavras,
não desfazemos

desmerecemos,
enfraquecemos,
nem explodimos
o mundo.


[pintura de Jacob King (palavras de Wiliam Faulkner, lidas de baixo para cima, espelhando a esperança apesar da adversidade): we will prevail]

"Explicação dos pássaros" (corrigido)

(…) estes pássaros merecem uma atenção especial: são considerados os mais bonitos da Europa, como se pode constatar pela foto junta. Com o nome latino de merops apiaster só têm um defeito: é quase impossível chegar perto deles! (…)
Pedro

(…) O voo é único porque as asas são triangulares e parecem papagaios de papel a planar. Fazem os ninhos em buracos escavados em "paredes" de areia dura (há muitos em antigas saibreiras). Uma vez, num documentário, vimos toda a colónia a atacar uma cobra que queria aproximar-se dos ninhos: faziam verdadeiras picadas em cima dela até que a dissuadiram! (…)
São

(abelharucos)

17 abril 2007

Pássaros

Os pássaros de asas longas
pousados no fio do tempo,
abrem gritos mudos
e sobem no horizonte
que nos espera.
Guardam eternidades
de vazio.


(pintura de: Tamryn Pöhl)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...