13 abril 2007

Minha Alegria

minha alegria permanece eternidades soterrada
e só sobe para a superfície
através dos tubos alquímicos
e não da causalidade natural.
ela é filha bastarda do desvio e da graça,
minha alegria:
um diamante gerado pela combustão,
como rescaldo final do incêndio.


(poema de Waly Salomão; pintura de Jill Auckenthaler: fire escape)

11 abril 2007

Esquizofrenia

Ontem assisti a parte do programa de António Barreto, depois a um episódio do ER (serviço de urgência) e depois liguei para a SIC notícias onde AINDA se estava a discutir O silêncio de Sócrates (excelente título, por sinal!).

À volta de uma mesa estavam cinco jornalistas (Ricardo Costa, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Francisco Sarsfield Cabral e João Garcia) que opinavam acaloradamente, doutamente, seriamente e com evidente sentido da sua enorme importância, os timings errados da não intervenção de Sócrates, a excelência da assessoria de imprensa do gabinete do primeiro-ministro, as enormes pressões a que os media estão sujeitos por esses mesmos assessores, o facto de estarem MUITO habituados a atenderem telefonemas de ministros furiosos, desligando-lhes o telefone, o inacreditável falhanço do controlo da agenda mediática nos casos da OTA e da licenciatura de Sócrates, e outras pérolas.

A certa altura José Manuel Fernandes confessa que o tinha incomodado o facto da RTP não ter pegado neste último assunto, que o Público, na sua clarividência e no papel de que se reclama de jornalismo de referência, considera primordial ao bem-estar da nação, não lhe tendo sequer passado pela cabeça, algo que lhe foi apontado por João Garcia, que talvez a RTP não tivesse considerado a notícia importante, e que estava no seu pleno direito de escolher os alinhamentos, a oportunidade e a relevância das notícias que emitia.

Tive ainda tempo para ouvir que Sócrates não deveria ir falar à RTP, mas sim à TVI (à SIC até parecia mal sugeri-lo), ao Parlamento, ou convocar uma conferência de imprensa para se explicar.

Fiquei portanto a saber que:


  1. José Manuel Fernandes é quem decide o que é e o que não é importante ser tratado pelos outros órgãos de comunicação social. Se não o seguem é indício mais do que seguro de que estão a ser pressionados por alguém (neste caso pelo primeiro-ministro).


  2. São os jornalistas que decidem o que é ou não importante discutir, quando, onde e como, não os políticos, que são eleitos e que têm liberdade para o fazer. Ou seja discutir 2 anos de governo, neste momento, é irrelevante para Portugal, sendo no entanto imprescindível conhecer o percurso académico do primeiro-ministro.


  3. A RTP está sob suspeita, apenas por ser a RTP, não pela qualidade ou falta dela dos seus jornalistas (José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso são muitíssimo melhores que Judite de Sousa).


  4. Os jornalistas/analistas políticos repudiam, e ainda bem, serem condicionados ou pressionados pelo poder político, mas sentem-se no direito de serem eles próprios a condicionar e a pressionar os políticos, ditando a agenda mediática e promovendo autênticos assassinatos pessoais, mascarando-os de escrutínio dos servidores públicos.

Estamos perante uma autêntica esquizofrenia social, em que o mais importante são as falhas pessoais, que se procuram apenas e só quando é preciso, e não por uma questão de interesse público.

E tudo isto é, obviamente, a bem da democracia, da pluralidade informativa, do esclarecimento dos cidadãos, do contra poder, do contraditório, de todas aquelas bondades que os jornalistas nos estão sempre a recordar.

Para as próximas eleições sugiro que haja, dentre eles, alguém que se sujeite a eleições para, do alto da sua irrepreensível moralidade, competência e ambição, guie os destinos de todos nós, substituindo estes seres menores que nos representam. Até porque o que verdadeiramente interessa ao país não são os problemas económicos e sociais, mas sim os vícios privados de políticos decadentes.

Pelo menos alguns jornalistas têm públicas virtudes!


(escultura de Paco Puyuelo: esquizofrenia)

10 abril 2007

A falta da Justiça

Este é o resultado do simulacro de justiça que existe em Portugal. Neste momento, aquela que deveria ter sido preservada da disputa parental, já tem opinião própria, colocando um dos litigantes entre os maus e o outro entre os bons.

Este é o resultado de processos que se arrastam durante anos, quando deveriam resolver-se em poucos dias, e de histórias que se martelam durante semanas, em altos brados, quando deveriam ser preservadas do intenso ruído de fundo a que são sujeitas.

Providenciemos

Todo este assunto da licenciatura de Sócrates, do título e a profissão de engenheiro que devia ou não usar, já não se aguenta.

O melhor é interpormos já uma providência cautelar que impeça o primeiro-ministro de ministrar, seja lá o que for, enquanto se não passam a pente fino todas os curricula dos nossos vários ministros, secretários de estado e deputados, presentes e passados, a que cadeiras assistiram às aulas, se estudaram pelas sebentas ou pelos tratados, se tiravam apontamentos ou estudavam pelos dos colegas, devidamente fotocopiados, se copiavam nos exames ou se denunciavam as cábulas escondidas a preceito.

Parece-me haver aí imensa matéria para investigação jornalística e, quem sabe, para a Procuradoria-Geral da República…

08 abril 2007

Des-humanidade

Com as mãos que afagam
que amparam
que apagam medos,
com as mesmas mãos
que semeiam
que vestem almas,
com os mesmos dedos
armados de espadas
agudos em punhais,
empalamos asas
decepamos risos
desfazemos casas.

Estes olhos que choram
ao florir do sangue
são os mesmos que olham
o esgar exangue
dos braços na cruz.
São o brilho da luz
do metal que fere,
do portal aberto
que o mal confere,
um sinal incerto
para lamber a morte
e beber da vida.


[Abril de 1994, Ruanda; filme realizado (2005) por Raoul Peck: Sometimes in April)

O Romeiro, D. João de Portugal

Regresso enfim, de barba branca,
mirrado de piça e veleidades,
olho pisco, pêlo ralo, perna manca,
em busca de que sal, de que saudades

que se manduquem em aberta mesa.
Vejo contudo que em má altura
cheguei à vela que esperava acesa
e não encontro, inexistente e escura.

Afinal onde estou, já que sem nome
o vento me levou a condição?
Não terei terra branda que me tome

e me leve aos infernos pela mão,
pois uma só pergunta me consome:
se não nasci porquê morrer então?


(poema de Pedro Tamen)

07 abril 2007

Humor de intervenção

O humor é das melhores armas políticas que existem. Ao contrário de outros activistas políticos, que não têm graça nenhuma, e de outros cómicos, que decidiram não intervir politicamente, os Gato Fedorento usam a sátira para intervir na sociedade, com significado político.

Na campanha para a despenalização da IVG fez mais o vídeo dos Gato Fedorento a parodiar Marcelo Rebelo de Sousa que muitos debates e discursos bem intencionados. Quanto à corrupção, Valentim Loureiro foi estraçalhado pelo sketch que lhe dedicaram.

O cartaz xenófobo do PNR, agrupamento de indivíduos pouco recomendáveis que se leva muito a sério, dizendo e escrevendo alarvidades, foi reduzido ao mais puro ridículo pelo cartaz dos Gato Fedorento.

Aplaudo e agradeço!

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...