Ontem assisti a parte do programa de António Barreto, depois a um episódio do ER (serviço de urgência) e depois liguei para a SIC notícias onde AINDA se estava a discutir O silêncio de Sócrates (excelente título, por sinal!).
À volta de uma mesa estavam cinco jornalistas (Ricardo Costa, José Manuel Fernandes, João Marcelino, Francisco Sarsfield Cabral e João Garcia) que opinavam acaloradamente, doutamente, seriamente e com evidente sentido da sua enorme importância, os timings errados da não intervenção de Sócrates, a excelência da assessoria de imprensa do gabinete do primeiro-ministro, as enormes pressões a que os media estão sujeitos por esses mesmos assessores, o facto de estarem MUITO habituados a atenderem telefonemas de ministros furiosos, desligando-lhes o telefone, o inacreditável falhanço do controlo da agenda mediática nos casos da OTA e da licenciatura de Sócrates, e outras pérolas.
A certa altura José Manuel Fernandes confessa que o tinha incomodado o facto da RTP não ter pegado neste último assunto, que o Público, na sua clarividência e no papel de que se reclama de jornalismo de referência, considera primordial ao bem-estar da nação, não lhe tendo sequer passado pela cabeça, algo que lhe foi apontado por João Garcia, que talvez a RTP não tivesse considerado a notícia importante, e que estava no seu pleno direito de escolher os alinhamentos, a oportunidade e a relevância das notícias que emitia.
Tive ainda tempo para ouvir que Sócrates não deveria ir falar à RTP, mas sim à TVI (à SIC até parecia mal sugeri-lo), ao Parlamento, ou convocar uma conferência de imprensa para se explicar.
Fiquei portanto a saber que:José Manuel Fernandes é quem decide o que é e o que não é importante ser tratado pelos outros órgãos de comunicação social. Se não o seguem é indício mais do que seguro de que estão a ser pressionados por alguém (neste caso pelo primeiro-ministro).
São os jornalistas que decidem o que é ou não importante discutir, quando, onde e como, não os políticos, que são eleitos e que têm liberdade para o fazer. Ou seja discutir 2 anos de governo, neste momento, é irrelevante para Portugal, sendo no entanto imprescindível conhecer o percurso académico do primeiro-ministro.
A RTP está sob suspeita, apenas por ser a RTP, não pela qualidade ou falta dela dos seus jornalistas (José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso são muitíssimo melhores que Judite de Sousa).
Os jornalistas/analistas políticos repudiam, e ainda bem, serem condicionados ou pressionados pelo poder político, mas sentem-se no direito de serem eles próprios a condicionar e a pressionar os políticos, ditando a agenda mediática e promovendo autênticos assassinatos pessoais, mascarando-os de escrutínio dos servidores públicos.
Estamos perante uma autêntica esquizofrenia social, em que o mais importante são as falhas pessoais, que se procuram apenas e só quando é preciso, e não por uma questão de interesse público.
E tudo isto é, obviamente, a bem da democracia, da pluralidade informativa, do esclarecimento dos cidadãos, do contra poder, do contraditório, de todas aquelas bondades que os jornalistas nos estão sempre a recordar.
Para as próximas eleições sugiro que haja, dentre eles, alguém que se sujeite a eleições para, do alto da sua irrepreensível moralidade, competência e ambição, guie os destinos de todos nós, substituindo estes seres menores que nos representam. Até porque o que verdadeiramente interessa ao país não são os problemas económicos e sociais, mas sim os vícios privados de políticos decadentes.
Pelo menos alguns jornalistas têm públicas virtudes!
(escultura de Paco Puyuelo: esquizofrenia)