19 dezembro 2006

Jornada

Ao ouvir o cd de Fernando Lopes Graça, no meu escritório de paredes brancas, sinto-me numa catedral, com o mesmo fervor que sentem os verdadeiros crentes. Há uma religiosidade, um ascetismo, uma simplicidade, um rigor monástico, uma pureza de visionários, um sentido missionário naqueles versos, naquele piano incisivo, naquelas vozes heróicas, que me faz estremecer, socialista, republicana, anti clerical que sou.

A liturgia da solidariedade, do hino à esperança, da apologia a uma sociedade de homens novos, mais livres, mais fraternos, mais justos, a certeza da verdade, da vitória no combate, os versículos que comandam, os coros que seguem com entusiasmo crescente, um autêntico ritual de fé, absolutamente arrebatador e comovedor.

JORNADA

Solo

Não fiques para trás, ó companheiro,
é de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
segues os nossos corações na treva.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

Solo

Aqueles que se percam no caminho,
que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até mortos vão a nosso lado.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

(poema de José Gomes Ferreira; música de Fernando Lopes Graça - Canções Heróicas, Canções Regionais Portuguesas - Coro da Acadmia de Música Fernando Gomes e Olga Prats - EMI-Valentim de Carvalho, Música, Lda, 1995)

17 dezembro 2006

Acordai

Acordai

Acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raiz



Acordai

Acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações



Acordai

Acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!





Poema de José Gomes Ferreira

Música de Fernando Lopes Graça






Fernando Lopes Graça nasceu a 17 de Dezembro de 1906. As suas canções heróicas ainda hoje me deixam toda arrepiada.

Passamos pelas coisas sem as ver


PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
Vamos caindo ao chão apodrecidos.

(poema de Eugénio de Andrade; pintura de Arpad Szenes)

Boicote


Mais uma vez se observa o desrespeito que algumas pessoas têm pela lei, seja ela qual for.

Entre estas, e segundo o Público de hoje, os conselhos de administração de algumas unidades de saúde privadas (Hospitais da Cuf, Clínica de Santo António, Clínica de Todos-os-Santos, em Lisboa, Casa de Saúde da Boavista, no Porto, Clínica de São Lázaro, em Braga), têm a audácia de proclamar que não executarão IVG, mesmo que o “sim” ganhe no referendo, por questões de ordem ética e deontológica, ou seja, não cumprirão a lei.

O facto de serem unidades privadas não as coloca acima da lei. O facto de permitirem aos seus profissionais recusarem-se a executar esse tipo de procedimento, por terem objecção de consciência, é totalmente diferente de a instituição, ela própria, ser objectora de consciência.

Não há dúvida que o boicote está na ordem do dia. É pena é ser exercido por quem tem responsabilidades acrescidas, pelos médicos e pelas instituições de saúde, as primeiras que deveriam pugnar pelo cumprimento da lei. Isso sim, seria ético.

La Féria, pois claro


Na altura em que se desenvolveu todo o protesto rocambolesco de algumas pessoas contra a gestão privatizada do Rivoli, a minha posição era de abertura total a uma hipótese de rentabilização de um elemento do património cultural da cidade do Porto.

Tenho alguns, mas não muitos, preconceitos relativamente ao que se entende por cultura. Não me parece que o estado deva subsidiar todas as propostas, mas deve pugnar por que seja oferecido um leque alargado de escolhas, apoiando as que, embora para públicos minoritários, são boas, diferentes e inovadoras.

Essa avaliação é subjectiva e quem é nomeado para assumir essa responsabilidade deve exercer os seus direito e dever de escolha, exigindo resultados.

O Rivoli é património da cidade do Porto e de todos os seus habitantes. A Câmara do Porto deveria assegurar que quem fosse escolhido para o gerir fornecesse uma programação variada, desde as grandes produções à experimentação e à pesquisa, teatral ou qualquer outra.

A escolha de Filipe La Féria, mais do que previsível, por uma comissão não se sabe exactamente formada por quem, cujas "Linhas de Orientação" não se sabe exactamente quais são (fiz uma pesquisa no site da Câmara Municipal do Porto e não fui minimamente esclarecida), dá razão às mais negras expectativas.

Vamos ter Carmens Mirandas, Madalenas Iglésias, Músicas nos Corações, grandiosas e tonitruantes sem que haja espaço para outras produções menos glamorosas e esplendorosas.

Quem não gosta de espectáculos revisteiros deverá deslocar-se a outras cidades. Rui Rio, pelos vistos, está feliz.


Câmara Municipal do Porto

  • Presidente - Rui Rio

  • Direcção Municipal de Cultura - Raúl Manuel Pacheco Matos Fernandes

  • Divisão Municipal de Património Cultural - Maria Isabel de Noronha e Azeredo Pinto Osório

16 dezembro 2006

Lisboa


Lisboa é uma cidade surpreendente. Como muitos moradores de Lisboa e arredores, conheço melhor algumas cidades europeias. Quando viajamos temos tempo e estamos predispostos a caminhar horas pelas ruas, descobrir miradouros e becos, atravessar pontes, conhecer parques, museus e cafés.

Lisboa está degradada, barulhenta, despovoada, poluída. Vêem-se prédios lindíssimos em ruínas, árvores decrépitas, passeios esburacados e cheios de automóveis.

Mas simultaneamente, quando menos se espera, encontram-se bairros absolutamente encantados, que parecem existir numa outra dimensão. A Praça das Amoreiras, onde visitei a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, para ver a exposição de Sonia Delaunay (Atelier simultané 1923-1934) é um desses locais.

Com um pequeno jardim ladeado por pilares do Aqueduto das Águas Livres, pelo Reservatório da Mãe d’Água e por prédios com cerca de três andares, está bem arranjado e habitado, o que cada vez é mais raro. Não se ouvem os ruídos de uma grande cidade e os carros que passam são poucos e lentos. Há, pelo menos, um restaurante e uma tasca (a tasca do Papagaio).

Tem-se falado muito na Câmara Municipal de Lisboa, no défice e na falta de liderança e de ideias para a cidade. Miraculosamente, ela parece resistir a tudo. Não sabemos é até quando.

Sem rede

Problemas de rede (ou falta dela) estão a dificultar a minha actividade bloguística. Esperam-se rápidos e eficientes desenvolvimentos internáuticos, de forma a corrigir este lapso (pareço mesmo um treinador / dirigente futebolístico / político a perorar!).

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...