08 novembro 2006

A banca

Não há dúvida que há sectores da nossa sociedade e da nossa economia que se consideram intocáveis.

Quando surgiram as primeiras notícias sobre um eventual aumento de carga fiscal para o sector bancário, previsto no Orçamento de Estado (OE) de 2007, João Salgueiro fez ver ao governo e ao país, não por estas palavras mas com este aviso, que a banca sabe bem como contornar a lei para que os impostos lhe sejam mais leves, o que lhe ficou bastante mal, para não dizer que foram umas declarações arrogantes e de “chico-espertice” que não se esperavam de alguém com a responsabilidade de João Salgueiro.

Nestes últimos anos, com o advento da tão conhecida e estafada crise, a vida não tem sido fácil para uma grande parte da população, principalmente da conhecida classe média, onde se engloba o tão pesado, ineficaz e gastador funcionalismo público.

Nunca ouvi João Salgueiro acusar Sócrates de arrogância e de peronismo, quando este afirma que é necessário reduzir, redimensionar e reorganizar o estado, quando se preparam medidas que vão facilitar os despedimentos na função pública, quando houve congelamento dos salários e da progressão automática nas carreiras, quando afronta professores, sindicatos, médicos, farmacêuticos, juízes e outras corporações, independentemente da justeza ou da injustiça da afronta.

Mas quando se pretende uma aproximação mais que justificada entre os encargos fiscais da banca e os dos outros contribuintes, mais uma vez João Salgueiro vem a público, denunciar as manobras estratégicas e pouco aceitáveis (para ele) deste governo.

Mesmo que seja um gesto simbólico, a justiça fiscal é um dos elementos mais importantes na credibilidade de qualquer governo que tenha necessidade de impor restrições às populações. Ainda por cima em sectores que estão tudo menos deficitários, não é aceitável que não se exija exactamente o mesmo esforço que se exige a todos os outros cidadãos.

07 novembro 2006

No fundo


No fundo,
queremos um ser divino
que não existe,
neste ser finito
que resiste
ao sangue e ao lodo,
à imensidão do todo
que persiste
no mundo.


(Pintura de Maryannick Cornou: Méditation)

Ciclos viciosos

Outra das ideias que me ficou da conversa entre Mário Crespo e Maria José Nogueira Pinto foi a necessidade de cortar nos pontos chaves dos ciclos viciosos.

De facto, este nosso país é, ele próprio, um ciclo vicioso. A crise, o défice, o descontentamento, a falta de dinheiro, o endividamento, o desemprego, a miséria, a pobreza, a tristeza, a crise. O problema é que só temos pensamentos e comportamentos ritualizados e repetitivos em tudo o que nos conduz a sentimentos de inferioridade. Raros são os exemplos de ciclos viciosos de alegria, de valorização pessoal, de persecução e concretização de objectivos.

Enredamos os pensamentos à volta da noção de dificuldade, de obstáculos intransponíveis, de fracasso. Se por um momento ousarmos planear, orientar, organizar, construir, inaugurar, usufruir e mostrar felicidade, podemos quebrar esse ciclo.

Recentrar

Estive a ver, na SIC notícias, uma conversa entre Mário Crespo e Maria José Nogueira Pinto, sobre uma proposta apresentada por ela para a requalificação da Baixa-Chiado.

Gostei de ter ouvido a necessidade de requalificação do centro histórico de Lisboa, no que diz respeito às áreas comercial e habitacional, à devolução da cidade às pessoas. Lisboa está a cair, deserta e perigosa, com escassos redutos escondidos, quase num limbo como a ilha de Avalon, em condomínios luxuosos. Depois há algumas zonas buliçosas, como a do Bairro Alto, que está linda e animada.

Na estrada marginal, de Lisboa a Cascais, multiplicam-se as casas praticamente arruinadas, antigos palácios quase acastelados, dignos de príncipes e princesas encantados quando, em criança, me dirigia à praia de Carcavelos. Uns a seguir aos outros, terrenos onde cresce a tristeza e o abandono, vidros partidos, telhas caídas e cores desbotadas, com manchas velhas e descuidadas.

No interior, as terras foram rejeitadas, as aldeias estão despovoadas, restando as pedras das paredes nas casas e as portas meio fechadas, rangendo com saudades de moradores. Nas cidades satélites proliferam gigantes gaiolas de cimento, com cores impossíveis de descrever, arquitecturas com esquinas criadoras e originais, roupas estendidas nas janelas e automóveis em cima de passeios estreitos e enganosos. Pizzarias, lavandarias e pequenos centros comerciais, eles próprios já meio abandonados, por outros maiores, com mais viço e grandeza, com um ciclo de vida curto e miserável.

Não sei como é possível repovoar os centros históricos das cidades, os centros históricos das aldeias, os centros, enfim. Deve ser tão difícil e complicado como recentrar as nossas próprias prioridades. Dentro de nós, também temos uma certa tendência centrífuga, refugiando-nos nos arredores da vida.

05 novembro 2006

Pena de morte

A pena de morte é das mais cruéis contradições que existem nas nossas sociedades. A punição é exactamente a mesma acção que causou a punição. É um triste ciclo vicioso.

Seja o que for que seja quem for tenha feito, a sociedade organizada não pode cometer o mesmo crime do acusado.

Acho inaceitável a condenação à morte por enforcamento de Saddam Hussein, Awad Hamed Al-Bander e Barzan Ibrahim al-Tikriti.

Música


Gosto de dias de chuva, em que a música nos embala, as notas dedilhadas nas guitarras, ou as teclas marteladas no piano, nos devolvem alguma esperança, alguma segurança, alguma certeza de que a chuva limpa o ar, empapa a terra, é indispensável à vida.



Gosto de dias de névoa, em que a música nos guia como um farol longínquo, silvando, que ritmadamente nos devolve a luz, o rumo.



Nestes dias de desalento, as janelas meio abertas são a fronteira entre a essência e o descartável. O silêncio adocicado pela música fortalece-me. Sinto o manto acolhedor da casa, grande e calorosa pela tua presença, pelo ritmo dos teus gestos, pela solidez do teu amor.

 






[Michel Camilo (piano), Tomatito (guitarra flamenca), Juan Luís Guerra (artista convidado) – Spain again (2006)]

Publicidade


Ainda não percebi muito bem se a indignação pela publicidade positiva paga, presumivelmente pelo governo, se deve a esse facto, ao panegírico à figura de Manuel Pinho, ou à redução do papel de Cavaco Silva a um mero observador silencioso

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...