20 setembro 2006

Modere-se, Sr. Ministro!

Pois é, começam a ensaiar-se medidas de aumento dos impostos, mesmo indirectos, para a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Só que não se percebe, mais uma vez, a estratégia, caso ela exista, deste ministro e deste governo.

Como o próprio nome indica, moderar significa conter, regular. O objectivo primário da existência de taxas moderadoras para urgências, consultas e exames complementares, era reduzir ao estritamente necessário as mesmas urgências, consultas e exames complementares. Não sei se resultou.

A criação de taxas moderadoras para os internamentos hospitalares e para as cirurgias de ambulatório não pode moderar nada porque os decisores não são os doentes e porque não me parece lícito pensar que se internam e operam doentes sem necessidade.

Qual é a ideia de Correia de Campos? Não seria mais aconselhável explicar o problema ao país e decidir o que fazer, sem estes subterfúgios infantis e disparatados?

Modere-se, Sr. Ministro!

18 setembro 2006

El Dolor

El dolor no humaniza, no ennoblece,
no nos hace mejores ni nos salva,
nada lo justifica ni lo anula.
El dolor no perdona ni inmuniza,
no fortalece o dulcifica el alma,
no crea nada y nada lo destruye.
El dolor siempre existe y siempre vuelve,
ninguno de sus actos es el último
y todos pueden ser definitivos.
El dolor más horrible siempre puede
ser más intenso aún y ser eterno.
Siempre va acompañado por el miedo
y los dos se alimentan uno a otro.

(poema de Amalia Bautista; escultura de Baca Rossi: dolor)

Espero


Espero como se desenhasse
neste papel virtual
o tempo irreal
do desencontro.

Espero como se lembrasse
os teus olhos
no reflexo dos poemas
por escrever.

Espero como se apagasse
a tua ausência
nos sinais
do desespero.


(Pintura de Janice Edelman: waiting)

17 setembro 2006

História da Religião

Há algumas ideias que comungo com o Padre Anselmo Borges.

Uma escola laica não significa uma escola desligada do fenómeno religioso. Da matriz cultural de qualquer civilização faz parte o seu caldo religioso, o seu pensamento ético e filosófico, as suas lutas fratricidas, os seus momentos de horror, as vergonhas, os heróis, as grandes conquistas, tudo o que contribui para a formação de uma sociedade mais ou menos coesa, na partilha de valores e de regras de convivência.

É absolutamente notável a falta de conhecimento sobre História, Filosofia, Matemática, Ciências, e Religião.

Para a educação na tolerância talvez fizesse mais sentido ensinar que há várias formas de encarar o mundo e a vida, que aquilo em que se acredita depende em grande parte de toda essa matriz fabricada durante séculos, que a vivência do sagrado e do profano não são exclusivas de nenhum povo, e que não há verdades universais.

A laicidade da escola pública é um valor em si mesmo e apenas numa escola que não professa nenhum credo é possível conviver e ensinar TODOS os credos.

16 setembro 2006

Referendo

Tudo indica que, finalmente, temos uma conjuntura favorável para se realizar de novo um referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG) até às 10 semanas de gestação: Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?.

Gostaria que se clarificasse bem qual a interpretação que vai ser dada a uma afluência inferior a 50%, como aconteceu no primeiro referendo.

Se isso se verificar significa que a população não quer um referendo para decidir essa questão. Ou porque lhe atribui pouca importância, ou porque pensa que não é um assunto a resolver por referendo e sim pela Assembleia da República.

Ao aceitar, mais uma vez, que qualquer afluência é válida para se manter ou mudar uma lei, o país ficará refém, mais uma vez, de uma minoria activa que consegue impor a solução referendária.

É bom que Parlamento e Presidente da República sejam claros. E seria excelente que, ao contrário do que aconteceu nos dois primeiros referendos realizados em Portugal, a população se mobilizasse, não deixando a outros uma decisão que cabe a todos e a cada um de nós.

Liberdade

Tal como me indignei aquando da onda de violência que se seguiu à contestação da publicação das caricaturas sobre Maomé, não posso deixar de me indignar com a nova onda de violência que se está a levantar a propósito do discurso do Papa Bento XVI.

O que está em causa não é concordar ou discordar do que o Papa disse, de considerar que é radical ou não. O que está em causa é a liberdade de seja quem for poder dizer o que lhe apetecer, sem que com isso haja o perigo de desencadear ódios e violências.

Quando se ouvem ou lêem discursos dos líderes religiosos islâmicos, por muito indignados que alguns fiquem, não se vêem manifestações violentas, queimas de bandeiras e de fotografias de Maomé ou outros líderes políticos e religiosos, assaltos a embaixadas e ameaças de fim do mundo.

O valor da liberdade de expressão é tanto mais sagrado quanto menos concordamos com o que se diz.

Solidariedade social

Tal como São José Almeida diz, no seu artigo “Convicções” do Público de hoje (sem link disponível), o debate sobre o modelo do sistema de segurança social não é um debate sobre ninharias técnicas mas sobre conceitos de sociedade e individualismo, sobre solidariedade e redistribuição de riqueza, sobre risco individual e colectivo, sobre o papel do estado na vida dos cidadãos.

Por isso é um debate ideológico, em que o governo tem o direito e o dever de pôr em prática o seu programa, porque para tal foi eleito. Por isso também acho que o Presidente da República, ao tentar forçar um acordo de regime sobre esta matéria, está a interferir na esfera governativa, tentando orientar e condicionar a acção do primeiro-ministro.

Está-lhe no sangue!

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...