21 julho 2006

Viagem



O frio especial das manhãs de viagem,
a angústia da partida, carnal no arrepanhar
que vai do coração à pele,
que chora virtualmente embora alegre.

(poema de Álvaro de Campos; fotografia de Amy Kumler: early morning)

Jornalismo


Quem tenha visto ontem, na RTP1, a peça sobre o debate parlamentar com a Ministra da Educação teria ficado exactamente na mesma no que diz respeito às razões pelas quais tinha decidido repetir duas provas. Teria visto que a justificação seria a existência de péssimos resultados e teria ouvido excertos das intervenções dos deputados da oposição que lhe chamaram incompetente e arrogante.

Não tive oportunidade de ver as reportagens dos outros canais generalistas, mas deduzo que devem ter sido semelhantes, pois na maioria dos casos assim é. Há uma espécie de cartelização dos telejornais.

Quem, como eu, viu as duas coisas, não pode deixar de ficar perplexa e muito preocupada com a forma como a informação é manipulada.

A omissão de informação é tanto ou mais grave que a sua deturpação pura e simples. Os jornalistas têm a função de servir informação para que quem a lê possa cruzar dados e pensar com e sobre eles. O poder dos media é enorme e exige uma enorme responsabilidade assim como um enorme profissionalismo.

Neste momento o que interessa ao jornalismo televisivo é o aproveitamento de alguns momentos histriónicos, cómicos ou trágicos que prendam a atenção dos espectadores, sem qualquer preocupação de rigor, explicação ou esclarecimento. O tempo disponível para debitar frases ou imagens é curto, e de uma notícia salta-se para outra, mais espectacular que a primeira.

O que mais me impressiona é que esta manipulação de informação não é ditada por qualquer ideologia. É apenas ditada pelo imediatismo, pelo controlo de audiências e pela tentativa de cativar novos espectadores.

Os partidos políticos e os governantes já se habituaram a esta ditadura comunicacional e tendem a governar, não com programas e objectivos, mas com aquilo que fica bem no telejornal das 20:00, para quem os julga de imediato, ou seja, os vários jornalistas / comentadores que se passeiam de um para outro canal, explicando a quem ouve o que deve pensar.

Isto é menos verdade no jornalismo escrito, em que a escolha é maior. No entanto, conforme alerta Fernanda Câncio no seu
artigo de hoje, a imprensa escrita está a cair no mesmo erro, reduzindo as notícias a alguns títulos, servindo-as sem peles nem caroço para melhor serem deglutidas.

A informação livre é um dos pilares da democracia. Que liberdade de informação é esta se temos um filtro ditado pelas leis das audiências e do espectáculo? Como se pode assegurar que o que vemos e ouvimos corresponde, de facto, ao que se passa? Quais são os deveres profissionais e éticos dos jornalistas, quem os regula e controla?

Como em todas as profissões há bons e maus profissionais. Como todas as corporações, esta assume a defesa de atitudes e situações indefensáveis, considerando-se acima de qualquer crítica. Como noutras profissões, a auto regulação não funciona, sindicatos, ordens e outros organismos perpetuam e amplificam o autismo corporativo.

20 julho 2006

Explicações


Finalmente ouvi as explicações da Sra. Ministra da Educação.

Ouvi e percebi muitas coisas:

  • que, ao contrário da generalidade da população que genuinamente queria perceber esta insólita e polémica decisão, os nossos representantes na Assembleia da República, nomeadamente os pertencentes aos partidos que tinham pedido os esclarecimentos urgentes (PSD e PCP), estavam apenas interessados em destruir politicamente a ministra (nada que me espante);
  • que, ao contrário dos deputados do PS, nomeadamente de Manuela de Melo, os deputados do PSD e do CDS não percebiam nada do assunto que tinham pedido para discutir;
  • que, ao contrário da Ministra, os deputados têm uma forma de falar muito pouco civilizada, ou seja mal educada, com especial ênfase para a deputada do PCP, Luísa Mesquita, que sabe do que está a falar mas tem uma atitude histérica e descabelada;
  • que, ao contrário do seu colega Augusto Santos Silva, a Sra. Ministra não percebe nada de chicana parlamentar e está mal preparada para enfrentar este tipo de debates;
  • que as coisas no ensino estão muito mais embrulhadas do que qualquer um de nós poderia imaginar;
  • que o PSD é um dos principais responsáveis por toda esta trapalhada.
  • as razões que levaram à decisão de repetir os exames de Química e Física e porque foram escolhidas apenas essas duas disciplinas (embora não concorde com a decisão);
  • que os nossos deputados ou são burros ou fingem que o são, visto não terem percebido as explicações;
  • que convém perguntar aos jovens, que estão no 11º e 12º anos se o que a ministra disse é verdade, pois qualquer deles está mais bem informado que os Srs. Deputados; eu perguntei e foi-me respondido afirmativamente;
  • que a actuação teatral de indignação de Paulo Portas estava muito exagerada. Convém controlar os ímpetos pois nenhuma companhia de teatro lhe daria emprego.
  • que aos ministros competem as decisões políticas, as fáceis e as difíceis, as certas e as erradas, e que por isso, pelas decisões políticas, são julgados nas urnas;
  • que, apesar de continuar a pensar que a possibilidade de repetição dos exames apenas a alguns alunos, embora compreenda a situação excepcional dos mesmos, seja uma decisão errada e que abre um precedente perigoso, agradeço o facto de haver uma ministra que decida;
  • que o maior erro político da ministra foi o não ter acompanhado o despacho em que propunha a repetição das provas das explicações que deu, só hoje, na Assembleia;
  • que não consigo descortinar as razões da demora das explicações;
  • que espero que a ministra se aguente e continue.

Declaração de interesses (está na moda!) - tenho um filho que fez exames do 11º ano, mas NÃO fez exame a Química nem a Física. Para além disso tenho uma enorme simpatia e respeito pela Ministra.

Nanotecnologia

Vale a pena ler devagar, com atenção: "O futuro chega mais depressa do que pensamos".

"Algoritmo Portalegre"


Eis um bom argumento para um filme da moda: números e relações cabalísticas, códigos políticos encriptados, tudo misturado com organizações mais ou menos extremistas, que gostam de passar uma imagem de purismo quase religioso, em que o grande sacerdote dá pelo nome de Francisco Louça.

Mas o mais divertido é o investigador contratado ser Ruben de Carvalho, o velho e irredutível detective, ex-polícia, que ainda acredita nas virtudes da máquina de escrever e, à noite, fuma cigarros de fumo negro com o chapéu enterrado na cabeça.

Crónica brilhante.

19 julho 2006

Alerta!


Já não se aguentam mais os alertas vermelhos e amarelos (nunca há alertas verdes! Também se fossem verdes não eram alertas…) às ondas de calor, às ondas de frio, às verdadeiras ondas, às tempestades, aos vendavais, às cheias, aos incêndios, aos raios ultravioletas, aos pólenes, à desidratação, à congestão, à água do mar, à água do rio, à velocidade, ao álcool, ao tabaco, ao pé de atleta, ao melanoma, à sífilis, à obesidade, à anorexia, ao sentir-se-bem-consigo-próprio, ao tenho-que-gostar-de-mim-em-primeiro-lugar-senão-não-posso-gostar-dos-outros, à SIDA, ao RESPIRAR!!!!!!!!

Deixem-nos viver em paz!

Carolices

Causa-me grande espanto a polémica à volta das férias judiciais.

Em primeiro lugar estranho o próprio conceito de férias em determinados serviços públicos. As pessoas adoecem todos os dias assim como há assaltos, homicídios, cheques "carecas" e burlas todos os dias, porque nem as doenças nem os malfeitores fazem férias.

Assim, existem determinados serviços que não devem fechar para férias. É claro que quem presta esses serviços deve ter férias. Só que o próprio serviço não pode ser afectado. Portanto não percebo porque é que os juízes, magistrados, etc, não podem marcar férias, como o comum dos mortais, ao longo do ano, e de acordo com o interesse do próprio serviço.

Porque o direito a fazer 22 dias seguidos de férias não se pode sobrepor ao dever que os funcionários têm de assegurar a manutenção em funções de um determinado serviço. Por isso é que os mapas de férias dos funcionários são primeiro combinados entre eles e posteriormente têm que ser aprovados pelas chefias.

Quanto à carolice dos magistrados, ela é igual à carolice de todos os profissionais que gostam de trabalhar bem e que têm gosto na sua profissão. Mas se não podemos esperar isso dos magistrados, esperemos, pelo menos, que cumpram as funções pelas quais são pagos. E essas são, tal como em todas as profissões, trabalhar o melhor que sabem e podem, em todas as circunstâncias.

É isso que os Srs. Magistrados exigem das equipas de saúde que, durante as suas (dos Magistrados) férias, estão nos hospitais para os atenderem, ou às suas famílias, com profissionalismo, boa vontade e, quem sabe, até carolice

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...