08 julho 2006

Discriminações


Muito se fala da discriminação a que são sujeitas certas minorias, pelo facto de o serem. Apela-se ao direito à diferença, ao direito de ser diferente, de se afirmar livremente a diferença, de viver plenamente sem preconceitos.

Não podia estar mais de acordo. Todos temos direito a sermos quem somos, sem por isso sermos discriminados.

Mas o que me parece é que, em muitas circunstâncias, são as próprias minorias que se marginalizam, pela agressiva afirmação e ostentação da suposta diferença.

Falemos da discriminação de que se queixam os homossexuais. A opção sexual é um assunto individual e do foro privado. Não entendo a necessidade de se afirmar o orgulho em ser homossexual, heterossexual, bissexual, assexual, ou outras variações que, eventualmente, possa desconhecer. Tanto me faz que se seja gay, lésbica ou hetero, é com cada um (a) e com os seus (uas) parceiros (as). Ninguém mais tem a ver com isso!

Mesmo quando se fala dos filhos de casais que se assumiram homossexuais. As crianças, filhos de casais homo, hetero, nsexuais não gostam de ser diferentes, pelo contrário, gostam de ser iguais às outras todas. Se as mães vestem calças de ganga e sapatões, elas querem é que se vistam de saia-casaco e saltos altos, que se pintem e usem cabelos compridos. Se os pais usam barba e têm barriga, elas sonham com distintos senhores de óculos e gravatas. Não gostam de nomes originais, pois são um excelente motivo para serem gozadas pelas outras crianças. Portanto, se os casais são formados por pessoas do mesmo sexo, de sexos diferentes ou se só há um progenitor, as mães (ou pais) não precisam de o esconder, mas também não percebo porque é que têm de o proclamar!

Do mesmo se queixam os doentes com SIDA, havendo inclusivamente grandes preocupações com a informatização de processos clínicos, pela hipótese de quebra da confidencialidade.

Assim é, o acesso à informação deve ser restrito, mas não só para os doentes com SIDA. Esse acesso deve ser restrito para TODOS os doentes, quer tenham cancro, sarna, sífilis, hepatite, SIDA, hemofilia ou unhas encravadas.

A confidencialidade é um direito que abrange todos os cidadãos. No entanto há cidadãos (ou cidadãs) que prescindem do seu direito à privacidade e proclamam as suas opções políticas, éticas, estéticas, sexuais, religiosas, etc. Desde esse momento essas opções passam a ser do domínio público e logo sujeitas aos comentários, apreciações e opiniões de todos os outros cidadãos. Não podem por isso, se forem criticados, queixar-se de discriminação. Os que criticam (palavra usada em sentido lato) estão a exercer um direito exactamente igual e tão respeitável como os que são criticados.

A auto-marginalização e a vitimização são dois excelentes ingredientes para o sucesso da discriminação.

07 julho 2006

Londres, 7 de Julho de 2005


A um deus menor.

Recomeço


Acordo para o dia, tropeço nos despojos
da noite intermitente,
olho demoradamente o contorno
da boca, o desgaste na face, a textura da pele,
memorizo minuciosamente
o espírito contemporâneo.

Depois de compor a figura
guardo-me no côncavo da tua mão,
ajusto a máscara que pendurei no espelho
e recomeço.


(pintura de Pascale Maguerez: masks)

06 julho 2006

Que se referende!


Esclareço desde já que sou a favor da despenalização do aborto, que acho bárbaro e selvagem haver julgamentos e condenações pela prática do mesmo.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa propôs o referendo para mudar a lei, o PS, chefiado por António Guterres (católico) apoiou a ideia, retirando à Assembleia da República capacidade política para legislar.

Quanto a mim tratou-se de uma manobra para evitar que as facções mais conservadoras, mesmo dentro do PS, criticassem uma mudança da lei, sempre defendida pelo PCP e pela ala esquerda do PS. António Guterres comprometeu-se a aceitar o resultado do referendo, qualquer que fosse a afluência às urnas, talvez porque também estava convencido, como toda a esquerda, de que a vitória seria do “sim”.

Como todos sabemos, a afluência às urnas foi inferior a 50% o que, legalmente, não tornava o resultado vinculativo, e a vitória foi do “não”. Mas o PS estava amarrado à promessa prévia à consulta referendária, obrigando-se a mudar a lei apenas após novo referendo, pelo que o problema ficou adiado mais uns anos.

Veio Sócrates que, em manobras muito pouco dignas, fingindo que queria resolver o problema rapidamente, tentou obrigar o presidente a aprovar o agendamento de um referendo a correr e à pressa, solução que Jorge Sampaio, e muito bem, não aprovou. Penso que era mesmo essa a ideia: culpar o presidente por não haver referendo.

Quando o Bloco de Esquerda anda com falta de visibilidade, regressa à ribalta com temas “fracturantes”. Neste caso, e ajudado pelas condenações em Aveiro, volta a insistir com o aborto, depois do caso do “barco do aborto” ter ficado esquecido.

Por outro lado, quando se começa a ponderar a hipótese de despenalização do aborto, saltam de vários buracos múltiplas associações cristãs, de famílias numerosas, dos amigos das prostitutas e das fadas do lar, que adoram a educação sexual e ajudam imenso as pobres mulheres que tiveram a (in)felicidade de engravidar mas não têm apoios. Ficamos todos inundados por tão boas ideias e intenções, tantas almas generosas, que se escondem rapidamente logo que se acaba o zelo "fracturante" dos bloquistas.

Que se faça o referendo, depressa, que se motivem e esclareçam as pessoas, todas, que se mobilizem os dois campos opostos, que se vote maciçamente para que, sinceramente espero, se avance para uma sociedade mais justa e tolerante, mas sobretudo menos hipócrita!


(escultura de Colleen Madamombe: mother)

Inacreditex


Bem sei que D. Afonso Henriques já não pode protestar. Mas francamente, decidam-se: desenterram-no ou não?

Já pediram autorização ao D. Duarte Pio? Sim, na realidade ele deve ter uma palavra a dizer sobre este melindroso assunto, sempre é da família… afastada, é certo, mas da família! Se calhar também devia dar a sua autorização!

Tinha ouvido falar de um inovador programa governamental que se chamava simplex. Também ouvi dizer que estava muito complicado implementar esse programa nalguns ministérios.

Já sabemos que o ministério da cultura foi um deles, e que a Sra. Ministra é um bocado molenguex, burocratex e gosta de não ser desrespeitadex.

Que tristex!

Manhã de praia


Quando a sesta bate à porta insistentemente, lembrando tardes longas e solarengas, mar quieto e bem azul, livros saborosamente lidos, quando a languidez se apodera da vontade, todos os dias estão demasiado longínquos e nunca mais é manhã de praia!



(pintura de John Bonner: beach)

Portugal vs França



Tudo já foi dito. Perdemos o jogo, mas não é por isso que devemos estar menos orgulhosos da selecção. Ao contrário do que alguns comentam, até acho que Portugal jogou bem. Dispensava-se o penalti, que Ricardo Carvalho assumiu ter provocado. Enfim, paciência. É bastante irritante perder com a França (mais uma vez) e, ainda por cima, por causa de uma grande penalidade (que Ricardo quaaaassssseeeeee defendeu…).

Por um lado ainda bem. Já não se aguenta tanto futebol! Na televisão proliferam os intelectuais da bola, com ar circunspecto e palavreado florido, tecendo considerações cabalísticas e destilando veneno clubístico. É patético!

Parabéns aos jogadores e a Scolari.

Já só falta um jogo que, é claro, vamos ganhar! E depois, voltemos à nossa vida, por favor!

  Erwin de Vris Aguardo. A música varre o tempo amena a brisa que consola. Aguardo a voz de quem se esconde a terra aprisionada ...