14 fevereiro 2006

Untitled

Não sou particularmente fã de comemorações e efemérides: Padre Manuel Antunes, Prof. Agostinho da Silva, pessoas de quem pouco se sabe ou fala e que, depois de morrerem, ocupam, em datas determinadas, as primeiras páginas dos diários e as aberturas dos telejornais. Durante três ou quatro dias todos os conheceram e admiraram, recordam-se as vidas daqueles quase santos, ou definitivamente santos, para se esquecerem imediatamente a seguir, sem ficarem no imaginário colectivo, nos livros da escola, na memória de quem não foi seu contemporâneo.

Portugal não reconhece os seus valores, enquanto vivem, e não sabe enaltecê-los, depois de mortos. Mastiga-os em efemérides grandiloquentes e bacocas, o contrário do que os personagens homenageados representavam, arrasando a sua modéstia, transformando-os em “gente da moda”, tão perecíveis como a própria moda.

Mereciam mais dos seus concidadãos.

13 fevereiro 2006

À beira do abismo (2)


Começo a cultivar o espaço,
de livros, de flores,
de mim.

Nem pássaros, nem rimas,
letras que se posicionam,
como lhes apetece.

A janela vê mais
do que mostra,
de mim.

(pintura de Ndambo)

O mundo está inquieto, ansioso, perigoso. O clima está afectado, a poluição aumenta, os pobres são muitos, cada vez mais, cada vez mais pobres, multiplicam-se doenças potencialmente catastróficas, a fome mantém-se a mais catastrófica. Quando se descrê da vida, passa a crer-se na morte e os moderados tornam-se fanáticos.

O mundo que nós conhecemos, nós, os privilegiados, está à beira do abismo. O resto do mundo continua no abismo, mesmo que o defenda.

Saberá alguém como evitá-lo? Ou transformá-lo?

À beira do abismo

Temos um Primeiro-Ministro muito silencioso, mesmo quando os segundos ou terceiros fazem um ruído aterrador.

Temos um Presidente que, qual triste menino bem comportado, vai dizendo, quase a medo, algumas verdades a que ninguém dá importância.

Temos uma Assembleia da República, onde estão os representantes da nação, que fazem birras e apontam dedos acusadores a quem diz o que pensa.

Sempre é verdade que os números do desemprego estão a ser manipulados? E que se passa com o urgentíssimo e rigorosíssimo inquérito às listas de telefones de altas entidades, que estavam sob investigação? Souto Moura ainda existe? E não pintou a cara de preto? Ou seja, ainda tem cara?

E o MIT, José Tavares, Mariano Gago e outros? Em que ficamos?

Enfim, por vezes é difícil acreditar que o país já existe há 800 anos. Parece que está sempre à beira do desmoronamento!

12 fevereiro 2006

Risus


Sobremesa

Quando a melancolia enche o sol, o esvazia do
seu brilho, faz baço o amarelo do rebordo, apaga
os fios de fogo que da sua esfera fulgem, pego
nele e ponho-o na travessa do bolo. Com a faca,
corto-o; e ofereço-te
uma fatia de sol, que levas à boca; e ele volta a brilhar,
iluminando-te os lábios, os olhos,
o rosto. Então, beijo-te; e é como se
tocasse o sol; como se a sua chama me queimasse,
sem doer, ou como se a sua luz entrasse por dentro
de mim, quando a sobremesa
chega ao fim.

(poema de Nuno Júdice; pintura de Steve Falkenberg)

Se existe, esse ser inominado e eterno, criador e destruidor, de coisas e sentimentos, de matéria e almas, se existe, nalguma molécula do seu imaterial corpo, há-de encontrar-se uma centelha, um átomo, um conjunto proteico, um gene, que codifique o riso.

Apesar de tudo

Apesar de tudo
temos o céu azul
e as árvores a chover folhas
castanhas e verdes.
Ouvimos os sons da vida
e, de manhã,
continuamos a respirar.

O Pacheco Pereira é madrugador e optimista. Levanta-se e olha lá para fora, e continua. A vida, apesar dos pesares, é bela.

António Barreto, mais uma vez, no seu melhor (jornal “Público” de hoje).

Bom domingo.

11 fevereiro 2006

Livros


Entro na livraria. A porta é pesada, com vidros e madeira velha. O cheiro do papel ligeiramente poeirento invade-me. Olho a mesa central, com pilhas mais ou menos arrumadas, capas dispostas numa estética irreconhecível mas apetecida.

Amorosamente, pego nos livros, procuro o nome do autor, espreito a sua biografia, folheio, sinto a aspereza das letras impressas.

Fascínio e necessidade absoluta, mais do que de café ou cigarros, entro na livraria como numa catedral, num culto reverencial e absoluto, com a cadência dos fins de tarde e a inevitabilidade do caminhante.

(pintura de Van Gogh)

10 fevereiro 2006

Untitled


Notas dissonantes
Os teus cabelos brancos
O gole do amor

Ardem rugas insubmissas
Deito-me na tua pele
Desenho mãos

Entrelaço na cama
as tuas pernas
Respiro o teu sono

(pintura de Martin Bulinya)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...