18 setembro 2016

O que deve (ou não) ser lido

evangelho segundo jesus crsito.jpg


 


Confesso que tenho um problema: de cada vez que vejo ou ouço uma unanimidade laudatória ou condenatória perante um livro, um autor, um filme, uma exposição, enfim, qualquer que seja a pessoa ou a área a que se dedica, de imediato cresce em mim um sentimento de contradição que me leva a ter vontade de fazer o exacto contrário do que todos recomendam que se faça. O circo mediático que se cria à volta de factos fabricados com intenções que por vezes são claras, outras imperscrutáveis, mas que são sempre intencionais, repete-se agora com o livro de José António Saraiva.


 


Não aprecio José António Saraiva nem as suas crónicas. Sempre me pareceu um factotum alimentado pelo seu nome, pelos contactos que tinha e tem e pelo sentimento auto-congratulatório e auto-admirativo. A saída deste livro e a publicidade que lhe foi associada - a coscuvilhice pura com a devassa das conversas privadas com figuras públicas - têm o óbvio objectivo de promover as vendas e de acicatar a maledicência e a criação de factos pseudo políticos. E tal como a José António Saraiva e à editora interessa que se fale muito e se venda muito, interessaria a Pedro Passos Coelho associar-se a um fenómeno mediático que abre os telejornais e cria casos nas redes sociais, numa tentativa de se mostrar e de colher dividendos dessa publicidade.


 


A veemente condenação prévia do livro e, principalmente, a confissão de Passos Coelho que não o tinha lido antes de aceitar o convite para o apresentar, mantendo mesmo assim a intenção de o fazer, apenas demonstra a armadilha em que caiu ou, em alternativa menos benéfica, que não teria possibilidade de lho negar (por eventuais favores que lhe devia?).


 


Não tenho vontade de ler o livro. Não me interessa o tema nem o autor. Mas também não percebo a iniciada sanha persecutória a quem o ler, como se fosse cúmplice de um crime, nem as repetidas declarações de repúdio e nojo de quem ainda o não conhece. Faz-me alguma confusão que as pessoas se pronunciem sobre algo que não conhecem, por muito que confiem na opinião de outros. Cada vez mais me apercebo de que é melhor formarmos as nossas opiniões de uma forma directa e objectiva, sempre que possível . O que se publica nos jornais, o que se diz que se disse e que se pensou e que se escreveu, na maior parte das vezes não corresponde à realidade.


 


Há já muitos anos, quando José Saramago publicou o seu excelentíssimo livro O Evangelho segundo Jesus Cristo, em conversa com alguém que é católica, apostólica e romana, fiquei muda de espanto perante a sua veemente condenação do livro, afirmando que nunca o leria pois o livro era uma provocação. Concluí que se a sua fé era fraca, tal o medo de ser posta em causa pela leitura de um livro.


 


Escrever o que se quer e ler o que ser quer, tudo faz parte da vivência em liberdade.

3 comentários:

  1. Jose Antonio da Conceição Neto17:22

    Sofia

    Onde escreveu António José queria escrever José António; que, aliás, é o nome do pai dele

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  2. Obrigada. Passo a vida a trocar nomes. Já está corrigido.

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  3. Jaime Santos23:08

    Lamento discordar, mas penso que Câncio tem razão. Se o próprio Saraiva admite que pode existir violação de privacidade, a única atitude digna é o boicote. Não creio que Câncio apele à censura, que, note-se, pode ser eventualmente requerida por algum dos visados aos tribunais (o direito à liberdade criativa e de imprensa não é absoluto e pode colidir com o direito à não-devassa da vida privada e o direito à integridade moral e ao bom nome e reputação). A única maneira de 'punir' Saraiva e, já agora, a Gradiva, seria se o livro fosse um flop, porque não me parece que o opróbrio público o preocupe muito... Mas conhecendo eu a avidez que o Povo Português parece ter pela coscuvilhice, suspeito que irá ser um grande sucesso...

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