29 janeiro 2016

Do acosso

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Não é com surpresa que assistimos ao coro mediático de um jornalismo acrítico sobre os cortes de rating a Portugal. É conhecida esta prática.


 


O que é mais extraordinário é a replicação sem qualquer análise dos títulos mais ou menos alarmistas, esquecendo-se de todas as considerações sobre o resultado do ajustamento português feitas por várias Instituições internacionais, já para não falar da observação do que se passou ao fim dos 4 anos da política que tanto agradou às agências de rating, e à falta de credibilidade das mesmas.


 


Mais extraordinária é a desfaçatez de uma maioria que não acertou em nenhuma das suas previsões estar tão espantada e céptica com as deste governo. Mas ninguém aprendeu nada. Ou a barragem propagandística da direita continua a hegemonizar os media portugueses.


 


O que se espera é que o governo de Portugal, País soberano e membro da Europa, negoceie com os seus parceiros sem se dobrar a todas as exigências de Bruxelas, independentemente da vontade expressa dos seus cidadãos. Tudo isto é normal e desejável, ao contrário do que os protagonistas da direita (políticos assumidos e não assumidos) que nos tentam convencer de que é radicalismo a vontade de cumprir a democracia.


 


Quanto aos mercados e às agências de rating, esperemos calmamente pelo fim das negociações.

Iberia live

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IBERIA LIVE


 


Ontem assisti a um espectáculo de excepção. Fiquei surpreendida, não pelo brilhantismo de Manuel de Oliveira, que admiro desde há muito, mas pela inesperada variabilidade e diversidade do que ouvi, uma mistura de guitarra portuguesa, flamenco, jazz, fado e cante alentejano, num crescendo de virtuosismo, com excelentes solos de guitarra Manuel Oliveira), baixo (Carles Benavent), acordeão (João Frade), piano (Paulo Barros), flauta (Jorge Pardo) e bateria (Marito Marques).


 


Paulo de Carvalho foi portentoso e a cantora de flamenco, da qual não retive o nome, acompanhou-o bastante bem. O momento do cante foi extraordinário, apenas com o ligeiro senão de ter sido difícil entender as letras, o que foi uma pena.


 


Muitos e muitos parabéns ao Manuel de Oliveira e ao seu grupo, e espero que tenha aproveitado para gravar todo o espectáculo, pois bem merecemos um CD.


 


Não percam, no Porto e em Guimarães. É mesmo extraordinário.

24 janeiro 2016

Sampaio da Nóvoa

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A partir de hoje Marcelo Rebelo de Sousa é o meu presidente e de todos os portugueses.


 


Discurso digno, curto e emotivo. Sampaio da Nóvoa despediu-se muito bem.

E o novo Presidente...

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... será Marcelo Rebelo de Sousa. Sem surpresa, pois todas as sondagens o previam.


 


Tenho pena que não tenha havido uma segunda volta. Marcelo não foi o meu candidato mas será o meu Presidente. Depois de Cavaco Silva terá a ciclópica tarefa de restituir ao cargo e à função a dignidade e a importância que ele tem.


 


É triste, mas espectável, a colagem que já se vê o PSD e o CDS a fazerem à vitória de Marcelo, tirando conclusões de reduções de maiorias sociológicas de esquerda. Sem qualquer adesão à realidade. Marcelo Rebelo de Sousa não foi o candidato do PSD e do CDS, com aliás deixou bem claro durante a campanha. O PS desistiu destas eleições, quanto a mim muito mal, e desde há muito considero. Mas a maioria parlamentar que suporta o governo nada tem a ver com a soma das votações dos candidatos de esquerda. Muitos eleitores desse espectro político não terão sequer votado por não se reverem em nenhuma das candidaturas.


 


Uma coisa é certa: mudámos para melhor, sem qualquer dúvida.


 


Esperemos que o novo Presidente nos surpreenda pela positiva. Aguardo grande turbulência mas, ao mesmo tempo, algum divertimento.


 


Mais uma vez se prova o meu inconseguimento absoluto nestas matérias, eu que sempre defendi que Marcelo nunca se candidataria.

Ainda vai a tempo...

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... VOTE 


 


Não vá em cantigas de adormecer, não se dobre ao desânimo nem à descrença. O seu voto conta, tanto quanto o de cada um de nós, e todos juntos mudaremos o que quisermos.


 


Ainda vai a tempo. Não se divorcie do seu País.


 


VOTE

E agora, ao voto

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Para quem tem dúvidas


 


É mesmo muito importante. Como sempre.


Hoje é a nossa vez. A nossa voz.


 


Hoje, sem demora, após o cafezinho da manhã.


Numa mesa de voto. Somos nós a democracia.


 

23 janeiro 2016

Sementes

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Gowri Savoor


 


1.


Crescemos em poemas trilhados de plenitude


os nossos olhos virados para dentro


nas mãos traçadas de infinito


escolhos do quotidiano embaraços de existir


secretas armas de arremesso


geminadas de contrários tórridos e celestes.


 


Crescemos plenos de incertezas e agruras


na terra as sementes do fortuito desempenho


no amor que espalhamos no amor que trituramos


debulhadas as arestas na suavidade das manhãs


protegidos pela dolência dos poemas


alimento e mortalha da vida que lavramos.


 


2.


Já me atirei contra o tempo


desfeita de névoa e espuma.


Agora encolho e definho


para que o tempo se resuma


e me consuma


no caminho.


 

22 janeiro 2016

Buraco negro

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Orestes Grediaga


 


Reduzo o espaço que ocupo


num tempo que se dilata


concentro o corpo e a alma


num mundo que desidrata


recolho membros e voz


afundo em forma de esfera


marco infinitas distâncias


grão de pó numa cratera.


 

17 janeiro 2016

Suspender

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Masao Yamamoto


 


 


1.


Entre beijos e palavras o dia começa morno.


Nem o gelo do mundo nem a vergonha do dia


que ainda se demora suspende estes instantes


nem surpreendem


a nossa vida.


 


2.


Entreabrimos a porta ao perfume


dos pequenos gestos com que construímos


uma segurança dúbia e débil uma conhecida


e certificada geografia de afectos


de vez em quando riscada


por um grito de susto


ou de êxtase.


 


3.


Naquela esquina em que a estrada


se acinzenta já não há banco de jardim


nem sombra de incertezas inaugurais.


Apenas o que seremos


no destino mortal que diariamente


enfrentamos adiamos


e desconhecemos.


 

16 janeiro 2016

Parte incerta

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Pablo Picasso, 1915


Violin


 


Misturo três dedos sete olhos


Adubo a terra dos lamentos


Arrebanho santos e escolhos


Vomito sonhos lamacentos


 


Ai de mim que me enxovalho


E viro o mundo do avesso


Ai de mim que me atrapalho


Pelas pontes que atravesso


 


Lambo a nudez das avenidas


Escancaradas as vergonhas


Sobram carnes intumescidas


Lavrando rios de peçonhas


 


Ai de mim que me emporcalho


Na vertigem descoberta


Ai de mim que assim me espalho


E me encontro em parte incerta


 

10 janeiro 2016

Da natureza das coisas

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Pillowman Trilogy


Paula Rego


 


Tenho alguma relutância em falar de certos assuntos. Cada vez me custa mais ver determinado tipo de filmes, violentos e deprimentes, com o que considero ser violência gratuita. Penso que necessitamos de beleza, de esperança e de acreditar que nem tudo é mau, perecível, mesquinho, cruel, inevitável.


 


Ao mesmo tempo sinto que estamos a ser invadidos por uma cultura que transforma tudo em acontecimentos amorosos, melosos e ternurentos, mascarando a verdadeira natureza das coisas, lançando véus de açúcar e nuvens de algodão que nos impedem de perceber a vida tal como ela é e nos mantêm numa espécie de bolha etérea que mais tarde ou mais cedo rebentará, deixando-nos órfãos e sem armas para a enfrentarmos.


 


No mundo que me rodeia há pessoas feias, cansadas, gordas, desmazeladas, com varizes e joanetes, que chegam ao cimo das escadas arfantes, que têm dificuldade em encontrar roupa nas lojas normais, que se olham pouco ao espelho para não se deprimirem. Homens e mulheres cujas doenças e sofrimentos não se acompanham de melopeias mas de vómitos, de diarreia, de camas desarrumadas e cheiro fétido nos quartos, de cabelos desgrenhados e casas de banho sem aquecimento nem pétalas de rosa, de uivos de cães e irritações várias com os vizinhos. Homens e mulheres que vivem, amam, odeiam e morrem todos os dias, com sol e com chuva, com uma vida feita de rotinas, obrigações e compromissos e que aprenderam a aceitar e a ultrapassar os seus defeitos, as suas deformações, o seu inevitável depauperamento com um sorriso raro, com o aconchego do silêncio partilhado, com o conforto da intimidade conhecida, com o fogo dos corpos que reacendem e apagam.


 


Não é mau nem é bom. Apenas é.

09 janeiro 2016

Nicolinas


Manuel de Oliveira

Não percam

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Sou sua admiradora desde o seu primeiro disco. Posso testemunhar a qualidade da sua música e da sua pessoa. Tive o privilégio de poder contar com ele na apresentação de um dos meus livros. Não percam esta oportunidade de o ouvir.  A ele a aos seus companheiros.

Das decisões que se impõem

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Estive a reler tudo o que já escrevi sobre as eleições presidenciais. Lembro-me que foi nas vésperas de umas eleições presidenciais, as de 2006, que iniciei este blogue, em apoio à candidatura de Manuel Alegre. Dez anos já passaram. Eu estou muito diferente e o País também.


 


Tenho-me distanciado deste processo eleitoral porque não me sinto motivada a intervir publicamente. Por motivos que se prendem com a minha vida pessoal e profissional, mas também com o desinteresse e a frustração com o processo e com os candidatos. E também porque já percebi que as minhas reflexões e as minhas opiniões são, na maior parte das vezes, ultrapassadas pela realidade.


 


Surpreendi-me e continuo a surpreender-me com as evoluções políticas desde as últimas eleições legislativas. Considero esta solução governativa inédita com enormes riscos, mas que até agora tem funcionado (bem). Mantenho as minhas reservas e preocupações, nomeadamente em relação à Educação. Não tenho nada contra os exames nem avaliações, muito pelo contrário, há estudos e relatórios internacionais e nacionais que apontam para reforços dos mesmos, e as alterações a meio de anos lectivos não me parecem boas decisões. Noutras áreas, entre as quais a da Saúde, estou expectante e os sinais têm sido (muito) encorajadores e promissores. Ou seja, António Costa e os seus ministros estão a levar a sua avante, de forma diplomática, cumprindo o que prometeram. Mantenho as reservas e as expectativas. Torço para que corra muito bem.


 


Voltando às presidenciais, por muito que tente não consigo alhear-me totalmente. A proliferação de candidatos é sintomática da sensação de irrelevância que esta função atingiu, muito resultado da presidência de Cavaco Silva, mas também do próprio esvaziamento dos poderes presidenciais. Considero um erro porque por muito escasso que sejam os poderes eles podem ser decisivos em alturas decisivas.


 


Ouvi os debates entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa com Marcelo Rebelo de Sousa. Com Sampaio da Nóvoa, Marcelo Rebelo de Sousa foi agressivo, deselegante e desagradável; com Maria de Belém foi desagradável, agressivo e deselegante. O palanque do qual perorou durante décadas ao povo, criticando, gozando e dando notas a todos os protagonistas políticos, culturais, desportivos, etc., etc., porque de tudo ele falava, obliterou o facto que Daniel Oliveira realçou – nós não sabemos o que Marcelo Rebelo de Sousa pensa, apenas sabemos a classificação que deu à forma como os outros se comportaram. Neste momento Marcelo Rebelo de Sousa está a ser avaliado, gozado e criticado, estando as suas notas a descer vertiginosamente.


 


Por outro lado, ao tentar expor como handicap a ausência de passado político de Sampaio da Nóvoa esvaziou totalmente a hipótese constitucional de qualquer cidadão sem um pesado currículo político se poder candidatar a alcançar a Presidência da República. Da parte de Marcelo o profissionalismo dos agentes da política é algo que se critica em abstracto mas que se defende em concreto. Já para não falar da incrível defesa da contenção de despesas na campanha eleitoral, o que é a negação da igualdade de oportunidades a todos os cidadãos para poderem ser eleitos, o que é uma atitude antidemocrática. Além disso o descaramento é demasiado, visto que Marcelo Rebelo de Sousa teve uma campanha subsidiada pela comunicação social que durou décadas.


 


A prestação de Maria de Belém foi irrelevante, para não dizer triste. Aquela ideia de explorar as características pantomineiras de Marcelo é de uma menoridade atroz.


 


Resta Sampaio da Nóvoa. A contenção com que enfrentou o despautério de Marcelo foi de uma estoicidade assinalável. Nenhum dos candidatos é o meu candidato. Mas não me absterei de votar e penso que é mesmo muito importante que se vote. A 2ª volta é alcançável. Ter na Presidência uma pessoa como Marcelo Rebelo de Sousa, por muito inteligente, culto e brilhante que seja, é um perigo institucional porque ele é sinónimo de instabilidade. Sampaio da Nóvoa é uma incógnita, não tem carisma, é pouco mobilizador, não disse ainda nada de relevante, tem um discurso intelectualizado e redondo. Mas demitirmo-nos de escolher é ajudar a eleger quem nós não queremos de todo.


 


Sendo assim, na convicção de que é preferível alguém que me diz pouco a alguém que considero um perigo, votarei em Sampaio da Nóvoa.

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