
(...) É interessante abordar o problema pelo avesso, começando não pela crise do Mediterrâneo mas pelas contradições dos europeus sobre os imigrantes. “Se fecharem as portas à imigração, pagarão um preço económico”, adverte Jean-Christophe Dumont, especialista de migrações na (Organização para a Coooperação e Desenvolvimento Económico) OCDE. A Europa envelhece a ritmo vertiginoso. Um exemplo: sem mudança dos fluxos migratórios, a Alemanha, primeira potência económica da região e com a mais baixa taxa de natalidade, poderá ver a sua população cair de 82 milhões para 74,7 milhões até 2050, previne o Eurostat. Veria, consequentemente, diminuir o seu potencial de crescimento.
Com a entrada na reforma da geração do baby boom a população europeia com mais de 65 anos vai rapidamente aumentar, enquanto o número dos menores de 15 anos diminuirá cerca de 15% até 2060, prevê o Eurostat. O que está em jogo é o nível de vida dos europeus, o seu bem-estar e a sustentabilidade das prestações sociais.
Um estudo do International Longevity Centre (Londres) avisava em 2013 que a Europa precisará de “pelo menos mais 11 milhões de imigrantes até 2020” para garantir o pagamento das pensões aos seus reformados. Não basta subir a idade da reforma. Passar-se-á rapidamente da proporção de quatro activos por pensionista para dois por um. São dados que todos conhecem. Mas um dos mais banais argumentos contra o incremento da imigração é a concorrência que os imigrantes fariam aos nacionais no campo das prestações sociais.
“A velha Europa tem necessidade de cérebros e de braços”, titula o Libre Belgique. Mas que contam os números da demografia perante os discursos anti-imigração de Marine Le Pen, do holandês Geert Wilders, do britânico Nigel Farage, do partido Democratas da Suécia ou do movimento alemão Pegida — que protesta contra a “islamização da Europa” e a chegada de refugiados sírios que, por acaso, são em grande número cristãos?
“O medo da imigração espalha-se na Europa” foi o título de um programa de uma televisão francesa em Janeiro passado. Resumia: “Barcos em perdição, vindos da Turquia, da Síria ou da Líbia, manifestações na Suécia ou na Alemanha, polémicas em França e na Grã-Bretanha, a imigração apresenta-se na Europa como o sujeito político do ano 2015.” Faltavam os naufrágios de Abril.
Qual é a consequência política? Os dirigentes europeus estão reféns do medo criado pela extrema-direita e dos sentimentos xenófobos que se enraízam nas suas populações e a que, até agora, não têm sabido dar resposta. (...)
(...) Há outra dimensão, um problema da Europa consigo mesma: aproveitar ou desperdiçar a tragédia de Abril para refazer a política de imigração, defender a sua imagem, confirmar o seu estatuto internacional, dominar os seus demónios.
Preveniu, em Janeiro, a analista italiana Marta Dassù: “Enquanto a sociedade europeia se abre ao mundo, ganham terreno movimentos xenófobos e de ‘campanário’ que sopram sobre o fogo do medo e do ódio. (...) Se perdermos o grande desafio do Mediterrâneo os populismos vencerão na Europa. O futuro [europeu] depende em grande medida da nossa capacidade de resolver a questão do Mediterrâneo.”
Jorge Almeida Fernandes