30 abril 2012

Fim do SNS

 



 


Não tenho qualquer dúvida de que é necessário reorganizar e reformular o SNS. Mas o começo destas deveria ser a definição da política de saúde. Em que apostar, em que investir, o que é que se deve assegurar.


 


Para isso e constitucionalmente, não poderá haver dúvidas quanto à manutenção da universalidade da prestação de cuidados de saúde, à gratuitidade, mesmo que tendencial, e à garantia de acesso em igualdade para todos os cidadãos. No entanto essa regra constitucional deixou de ser cumprida quando se introduziram as recentes taxas moderadoras, que não têm como objectivo moderar o consumo mas criar pagamentos adicionais àqueles que já são efectuados através dos impostos. O SNS não pode ser uma espécie de seguro de saúde, cujos mínimos assegurados estão constantemente a mudar e sem que os cidadãos possam rever o pagamento à seguradora, neste caso o Estado.


 


O aumento do número de isenções do pagamento das taxas não ilude a questão nem melhora ou garante a acessibilidade ao sistema. Mascara aquilo em que se tornou o direito à saúde – uma esmola do Estado para quem é pobre, essa palavra com que se apelida e se marginaliza uma faixa cada vez maior da população.


 


Taxar actos médicos que não dependem da decisão dos doentes, não dando aos mesmos a possibilidade de os negarem, é uma prepotência inaceitável, já para não falar dos problemas éticos que se colocam aos profissionais de saúde. Foi assim com Correia de Campos quando resolveu introduzir taxas moderadoras nas cirurgias, é assim com o pagamento de taxas moderadoras por tudo e por cada uma/um das consultas, cirurgias, meios complementares de diagnóstico, técnicas adicionais, tratamentos, etc.


 


O que neste momento está em causa não á a racionalização e optimização dos recursos do país, mas o acabar de uma conquista civilizacional que o estado social conseguiu e que, entre nós, foi possível após o 25 de Abril. Em tempo de grandes dificuldades económicas para a grande maioria da população, a assistência na saúde deixou de estar assegurada. Foi reposta a situação existente antes do advento da democracia – a saúde é só para quem a pode pagar.


 

29 abril 2012

Despedida

 



Josiah McElheny


 


Arrumo as malas no interior da cabeça.


Estou de partida e ainda não me despedi.


 

Triste Vida Vivyre

 




 

Desavisada

 



Josiah McElheny


 


Naufrago nas ondas que faço, desavisada ou simplesmente por acaso.


Piores os tsunamis de terra firme que se esboroa sem fragor.


 

Deslocar

 



Josiah McElheny


 


Entre o som da voz e o deslocar da vontade rios de tempo


em que me entorno de razões.


 

Aquarela do Brasil

Vi, por acaso, no Mezzo.


 



Ary Barroso


canta Mônica Salmaso


Banda Mantiqueira, Osesp


maestro Yan Pascal Tortelier


Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado
Tira a Mãe Preta,do serrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a Sa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim!


 

28 abril 2012

Distração

 



Josiah McElheny


 


Observo os passos arrastados da multidão entre os livros. Perdem-se as palavras dissolvidas entre olhares distraídos e mãos ritualizadas. Os sorrisos são hábitos que se aprendem.


 

Distância

 



Josiah McElheny 


 


Forro-me de distância.


Para que os sentidos arrefecidos sejam a fronteira entre mim e o mundo.


 

27 abril 2012

Direito à saúde

 



A Autópsia


Paul Cezanne


 


Neste momento, para quem não está abrangido pelas isenções ao pagamento das taxas moderadoras, a realidade pode ser a que se segue:


 


Imaginemos um doente que vai ao seu médico de família porque se sente cansado, está a emagrecer e tem tosse há mais de 15 dias. Paga a consulta e o médico decide enviá-lo a um pneumologista, no hospital da área. Paga a consulta hospitalar e o especialista, depois de o observar, decide que ele tem que fazer análises e umas radiografias ao tórax. O doente vai marcar os exames e quando os faz, paga por cada um deles – cada análise e cada radiografia.


 


A seguir terá que ir outra vez à consulta, que torna a pagar. O especialista analisa os resultados das análises, observa com muita atenção a radiografia e, para esclarecer uma imagem que vê no pulmão, decide que é necessária a realização de uma broncoscopia – exame que consiste em introduzir um tubinho pelas vias respiratórias para observar bem os brônquios. Como precisou de ser anestesiado, o doente pagou a broncoscopia e a anestesia.


 


Durante a broncoscopia o médico faz uma biopsia (fragmento da lesão) e retirou células para serem observadas – análise citológica. Tanto a biopsia como o material citológico são enviadas para o serviço de anatomia patológica. O patologista, depois de observar os tecidos e as células, decide que necessita de alguns testes adicionais para perceber se o que está a ver é um tumor ou uma situação inflamatória e pede cinco testes adicionais. Após observação dos testes adicionais é feito o diagnóstico de tumor. É enviada ao doente a conta da biopsia, em que se debita a biopsia, cada um dos testes adicionais e a citologia.


 


Mais uma consulta – a pagar - onde o pneumologista lhe irá dizer que precisa de se tratar porque tem um tumor. Mas para decidir qual a terapêutica é obrigatório saber se o tumor já se espalhou – fazer o estadiamento. Para isso o pneumologista pede uma TAC – que o doente também paga. Faz-se depois uma consulta multidisciplinar de decisão terapêutica, que o doente paga, para propor um plano de ataque ao tumor. Continuemos a imaginar que há um fármaco que é óptimo se o tumor tiver uma determinada caraterística, só percetível após um teste de biologia molecular, que será pedido e o doente pagará.


 


Antes de começar o tratamento, o doente já pagou umas 25 taxas moderadoras.


 


Um dos exames mais caros em anatomia patológica é a autópsia - não está previsto o pagamento de taxa moderadora.


 


 


Artigo 64.º
Saúde

1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.


2. O direito à protecção da saúde é realizado:



a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.



3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:



a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;
c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;
d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;
e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;
f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.



4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.


 


Constituição da República Portuguesa


Teimosia

 



The ship of hope


Hans Grootswagers


 


Olho o país pela janela portas bem fechadas


aos ruídos. Decido ouvir o silêncio das vozes


que dolorosamente se manifestam. Estou sem pressa


de me imolar pelo frio desta Primavera em que os cravos


vermelhos ardem nas mãos da chuva. Olho o país


que se esvai numa hemorragia desesperada


pela fé que não tem pelos destroços da calçada


onde ecoam os passos da nossa teimosia.


 

Avenida da Liberdade


 


Não sei quantos foram mas foram muitos os que passaram uma tarde de chuva, vento e frio ao relento, pela Avenida da Liberdade abaixo. Aqui fica um foto da Ana Vidigal com uma pequena amostra do longo desfile.


 

Apagamento

 



 


Não deixa de ser interessante e digno de estudos posteriores a capacidade de algumas pessoas, como Lobo Xavier, na Quadratura do Círculo, fazerem piruetas verdadeiramente acrobáticas. De repente até a pobreza se reduziu, neste país que agora é um paraíso e há u ano um lodaçal socrático. As energias renováveis passaram a ser uma vitória, a aposta na educação uma verdadeira revolução.


 


Do nosso Presidente não vale a pena falar. A apologia do optimismo que dantes era uma quimera hipócrita é agora um desígnio nacional.


 


No entretanto vamo-nos apagando, enrugando e enrolando. Este mês de Abril é mesmo a metáfora atmosférica do que somos.


 

25 abril 2012

Mudar

 



 


Há 38 anos mudámos. Em revolta e pela revolta de uns quantos, pela alegria e descompressão de todos os outros, pudemos encher as ruas e clamar por liberdade, celebrar a democracia, terminar a desgastante, longa e anacrónica guerra colonial, iniciar o desenvolvimento no contexto de uma sociedade aberta, solidária e europeia.


 


Nestes 38 anos assistimos à credibilização do trabalho parlamentar, pois tivemos e temos eleições livres, à normalização do debate de ideias, depois das tentativas totalitárias do primeiro ano da revolução, ao revolucionário hábito de podermos exprimir livremente a nossa opinião, ao inalienável direito de sairmos à rua com cartazes ou com as nossa vozes, gritando e cantando o que nos vai na alma.


 


Saímos da nossa realidade aprisionada entre fronteiras, colhemos e desenvolvemos a nossa identidade além geografia de quase ilhéu. Somos o que somos, fadistas e aventureiros, tímidos e corajosos, ordeiros e tumultuosos, preguiçosos e cumpridores. Sofremos com as nossas dores e pelas nossas mãos, mas também pelas dores desta Europa que se desfaz e pelas mãos dos donos do mundo, que não têm rosto nem endereço postal, físico ou electrónico.


 


Fizemos muito e temos muito para fazer. Não temos que temer a mudança nem as ideias. Mas as montanhas a mover são infinitas e a felicidade absoluta é utópica. Este é um dia de festa e de ritualização quase sagrada, em que as graças que damos e os votos renovados são os da liberdade, os do empenhamento no viver democrático, na justiça, na paz social, no bem-estar, na solidariedade. Em casa, no Parlamento, nas ruas, por onde quisermos e for preciso, cantar Abril é afirmar a nossa inalterável presença enquanto cidadãos de Portugal.


 

24 abril 2012

Da pesporrência

 


Passos Coelho, mais uma vez, perdeu uma excelente ocasião de estar calado. A falta de respeito que demonstra pelos fundadores da democracia é patética., parafraseando Irene Pimentel, com quem não estou de acordo quanto à avaliação das ausências já comentadas.


 


Filho do 25 de Abril, sim, com a pesporrência e a arrogância dos incrivelmente ignorantes.


 

Miguel Portas

 



 


Miguel Portas foi um homem que sempre lutou por aquilo em que acreditava. Tinha uma força que lhe vinha das suas profundas convições. Serviu o País em vários momentos e em várias circunstâncias. Devemos-lhe uma merecida homenagem.


 

23 abril 2012

Um dia como os outros (111)

 



Passo a passo, percebe-se que as promessas prometidas pelo Passos se processam apenas a passo. Porém, apesar dessa posposição, a passo e passo, há outros passos que, não sendo promessas passadas, são-nos passadas pacientemente pelo Vítor Gaspar e aceites penosamente perante a passividade e a permissividade da nossa sociedade. Parece um péssimo prenúncio. Por isso, a espaços, ainda há quem se expresse possesso, pese o peso desse protesto (ideológico), já ter passado do prazo. Prosseguindo-se este processo, ampliam-se as possibilidades para o desaparecimento da paz social presente. Perceberá o Passos o que se prepara?


 


A. Teixeira


 

Democracia à medida

 



 


O 25 de Abril devolveu a liberdade e instaurou um regime democrático em Portugal. A Assembleia da República é o órgão onde, diariamente, se pratica a democracia. É uma vergonha que personalidades como Mário Soares e Manuel Alegre caiam na tentação populista de confundir discordância política e luta partidária com a celebração oficial, no Parlamento, dessa data simbólica.


 


Os deputados são os representantes do povo e foram eleitos democraticamente. Considero o gesto da Associação 25 de Abril, de Mário Soares e de Manuel Alegre um péssimo serviço à democracia, que eles próprios ajudaram a criar.


 

21 abril 2012

Manifestação

 



 


25 de Abril de 2012 - Maior Manifestação desde 1975


 


Lá estarei.

A direita no poder

 


A agenda ideológica do governo revela-se todos os dias. Com a justificação da crise, da troika e do défice, o governo todos os dias rasga mais uma página do contrato eleitoral com quem o elegeu. Até aqueles que estavam dispostos a cooperar, em nome da paz social e do pragmatismo, como é o caso da UGT, são sobranceiramente enganados pelas medidas que desmentem os acordos e a própria noção de negociação.


 


Não só aumenta a possibilidade e a flexibilidade dos despedimentos, como reduzem imenso as indemnizações, para quase desaparecerem, como desaparecem os subsídios de desemprego e os fundos da segurança social. A dignidade do trabalho e dos trabalhadores deixou de ser um valor em si mesmo. Entretanto, a execução orçamental segue as pisadas que se esperavam. e a Ministra da Justiça mostra um total desrespeito pelo Tribunal Constitucional.


 


Os impostos não têm retorno em serviços prestados aos cidadãos. Diariamente o País deprime-se, encolhe, definha. Talvez valha a pena lembrar a Vítor Gaspar que a paciência tem limites.


 

14 abril 2012

Anjos com fome

 



Anjos com fome 


 


Vários andares, níveis de consciência, capacidade em estar atento. Vários espelhos onde se vê e revê a memória, o passado, o corpo, onde se encontra o próprio ou a imagem que se projecta para fora do próprio.


 


Vários sons, aflitos, suaves, assustadores, arrepiantes, calmos, ondulantes. Poucas vozes as dos poemas, poucos os poemas nesse poema inteiro. Poucas as palavras ouvidas em tom de confidência. Vários os tons de branco e castanho velado, de dourados secos e velhos, de vermelho e ocre. Várias as texturas dos tecidos, das pedras, das madeiras, da água, da poeira.


 


Várias as portas e as chaves que se abrem e fecham, que escondem e mostram, que começam e acabam, por onde se entra e se sai. Vários os movimentos de dança e desespero, de poder e submissão, de amor e de ódio, de recolha, de manipulação, de despojamento. Vários os momentos de partilha e solidão, de crueldade e sedução.


 


Caóticos e loucos, calados e gritantes, desconexos e pueris, inacabados e em fragmentos, de risos e viagens, sonhos de mulheres que são, que fizeram, que tiveram, que deram, que quiseram, que desejaram, que fugiram, que romperam. Tantos os sapatos que podemos calçar, que nos ensinam a calçar e que nos fazem meninas e velhas, monstros e anjos. Impossíveis as palavras para este espectáculo, defini-lo ou contá-lo, explicá-lo ou senti-lo. Surpreendente, impensável, lindíssimo e provocador.


 


Mais uma vez parabéns ao Teatro Meridional e a todos os colaboradores, que fazem de cada trabalho uma experiência imperdível. Destaque para as extraordinárias actuações das actrizes Ana Lúcia Palminha, Carla Galvão e Susana Madeira.


 

11 abril 2012

Escola pública

 


É realmente constrangedor assistir a debates como o que ontem vi a propósito da audição parlamentar a Maria de Lurdes Rodrigues, sobre a polémica à volta da Parque Escolar. A forma como se tenta destruir e criminalizar tudo o que foi feito pelos anteriores governos, o que se entende deverem ser os equipamentos escolares em termos de condições, conforto, materiais de construção, arquitectura, etc., expressam bem os preconceitos que há em relação à escola pública.


 


Nos últimos dias alguns jornais têm feito eco das recomendações da OCDE a propósito da elevada percentagem de reprovações, da desmesurada importância que se dá aos exames, e da falta de priorização do investimento na recuperação das aprendizagens para os alunos que as não atingiram. É a mentalidade existente, na qual também me incluo, que tende a associar exames a rigor e aprendizgem.´


 


Também por isso o exemplo do que foi a tentativa do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues foi exemplar ao recentrar o verdadeiro problema do ensino no aproveitamento dos melhores e mais experientes professores na recuperação dos alunos com mais dificuldades, na formação e qualificação dos professores, na requalificação e recuperação das escolas, ou seja, no sucesso escolar.


 

Deslealdade institucional

 


É penoso constatar permanentemente a falta de lealdade institucional que o Presidente da República demonstra para com o governo. A forma como Cavaco Silva se demarcou da suspensão das reformas antecipadas, insinuando mas não assumindo o seu desacordo, é mais uma atitude que pouco o dignifica, desprestigiando ainda mais a função presidencial.


 

Imobilismo

 



 


Mais uma vez se estão a unir as forças mais conservadoras da sociedade com o populismo e a demagogia de alguns atores políticos, a propósito do anunciado fecho da Maternidade Alfredo da Costa.


 


Com a redução acentuada da natalidade, como é possível continuar a defender a manutenção de 7 maternidades na área da Grande Lisboa - Maternidade Alfredo da Costa, Hospitais de Santa Maria, São Francisco Xavier, Fernando Fonseca, de Cascais, Beatriz Ângelo e Garcia de Orta? Não será mais importante assegurar que as parturientes e os recém-nascidos tenham equipas suficientes, competentes e com experiência, transportes rápidos e confortáveis, serviços de bem equipados para uma assistência de qualidade?


 


Aquilo a que se assiste é exactamente ao mesmo a que se assistiu aquando da reorganização das urgências no tempo de Correia de Campos. O facto da Maternidade Alfredo da Costa ter sido o local de nascimento de milhares ou milhões de Lisboetas não pode ser a única razão para a manter aberta. A optimização dos recursos e a defesa de partos em segurança deve ser o objectivo de qualquer política de saúde e de qualquer governo.


 


O fantasma do desmantelamento do SNS surge de imediato, sempre que se começa a tentar mexer nalguma coisa. O imobilismno e a manutenção do status quo são a pior forma de o defender.

08 abril 2012

Almoço pascal

 



 


Tenho uma queda acentuada para o disparate, mesmo quando pretendo seguir à risca as pisadas dos rituais domésticos, familiares, de enraizamento social e místico-urbano-cético-religioso. Cabrito assado não é coisa para principiantes. Matrona cinquentona não se amedronta por tão pouco. Meio cabrito (cerca de 3 Kg) esquartejado, um rim, a cabeça pela metade (o que bastante me atormenta, com miolos à mostra), de marinada em vinho branco e tinto, um pouco de vinagre, muito alho, tomilho, alecrim, pimenta moída, pasta de pimentão (marca pingo-doce), sal e azeite, de um dia (ontem à tarde) para o outro (hoje até às 11.30h).


 


Mas a minha ambição culinária, que só cresceu desmesuradamente após horas de MasterChef Austrália, não se ficou pelo prato principal. Na calha estava torta com recheio de ovos, pedido especial cá de casa (penso que acharam que era melhor jogar pelo seguro).


 


O despacho é a chave da boa cozinheira. Forno a aquecer a meio-gás; calda de açúcar (200g de açúcar para 100ml de água) a adquirir ponto ao lume, com um pau de canela; 6 gemas e 2 claras misturadas com uma colher de pau – tudo a andar e bem controlado. Subitamente apercebo-me que o ponto pérola se transformou em pedregulho espesso e borbulhante. Retiro o tacho do lume e, muito cuidadosamente, começo a verter a pasta de ovos. De imediato cozeram, não em fios mas em meadas. Suspendo a função e resolvo que é necessário juntar água. Mal coloquei um bocadinho…. deu-se a solidificação repentina e irreversível do preparado, que se transformou num cimento esbranquiçado.


 


Na natureza nada se perde, tudo se transforma – ao lume outra vez, com mais um bocadinho de água. Lá ferveu em ponto de pérola. Retirei do lume e deixei arrefecer, enquanto pincelava a forma da torta com manteiga e polvilhava de farinha. Só que havia um ligeiríssimo contratempo: a farinha era pouca para a torta. Nada que me fizesse desistir desta empreitada. Escorripichei os bocados de farinha de trigo, de milho e maisena, conseguindo angariar os 75g para os 150g de açúcar e os 3 ovos que bati até tudo ficar cremoso.


 


Massa para a forma, no forno durante 10 minutos. O tempo à justa para tentar, de novo, misturar os ovos com a calda já mais no ponto que lhe competia. Desta vez correu bem. Mas tive que passar tudo por um passador, depois de ter engrossado ao lume. Depois da massa cozida, deitei-a para um pano com açúcar, pintei-a com o recheio de ovos e enrolei-a. Mas a massa não cooperou e partiu-se por 2 vezes. O aspeto, portanto, não era dos melhores.


 


O cabrito foi assar no tabuleiro do forno, com a marinada, 4 bocados de banha e regado com xarope de ácer, onde permaneceu por 1:30h,voltado sobre si mesmo por 2 vezes (de 30 em 30 minutos). As batatinhas com casca, meio cozidas já antes de se lhe juntarem, assaram por 15 minutos. Acompanhei ainda com brócolos, porque não encontrei couves de Bruxelas. Do dia anterior tinha sobrado meia travessa de tigelada (6 ovos batidos com 250g de açúcar e 2 colheres chá de canela em pó, aos quais se junta 500ml de leite aquecido com casca de 1 limão e 1 pau de canela, a cozer no forno alto – máximo - durante 45 min numa tigela grande, de barro vidrado, de preferência, já aquecida e sem retirar do forno).


 


Custou mas valeu a pena – iguarias dignas das mais seletas e sofisticadas casas de família, com décadas, para não dizer séculos, de tradição, regadas a vinho - do tinto (Châteauneuf-du-Pape) - a preceito. Enfim, um almoço bem burguês, nada a ver com a síntese revolucionária de uma mente revoltada e em crise, a fazer jus à época das trevas que atravessamos.


 

07 abril 2012

Instabilidade política

 



 


É muito importante que o PS, como partido de esquerda e garante de uma forma humanista de olhar para a sociedade, dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, obreiro da tolerância e do respeito democráticos, defensor da modernidade e do bem-estar social, se prepare para ser chamado a governar, de novo, em circunstâncias de grande revolta social e penúria económica.


 


A subida desta maioria ao poder foi resultado, para além de vários erros do governo anterior, como é óbvio, de campanhas de manipulação informativa, de coligações de interesses que se vai mostrando, à medida que se percebem as falsidades de que o governo se serve para impor o seu modelo económico e social. À medida que o tempo passa vão-se desvendando as consequências da política seguida. Se, tal como tantos tinham avisado e como, parece que já o Primeiro-ministro reconhece, o além do memorando não resultar, será muito provável que a agitação e a instabilidade, frutos do desemprego, pobreza e falta de perspectivas de futuro, provoquem a rotura da coligação governamental e a necessidade de novas eleições.


 


É indispensável que o PS se defina como alternativa, explique o que faria diferente, mesmo respeitando os acordos com os credores, o que reivindicariam e qual a capacidade para conseguir mudar, nacional e internacionalmente, esta Europa imperial.


 

Da poesia (edição) doméstica (pela metade)

 



 


Talvez porque só editoras quase domésticas se arriscaram a publicar o que escrevo, penso que o motivo da grande dificuldade dos novos (desconhecidos) autores passarem da clandestinidade não se prende apenas com a dificuldade de distribuição e exposição. Na verdade o mundo dos livros e da literatura é hermético e avesso às novidades. Aos autores que vão aparecendo é-lhes praticamente vedado o acesso à crítica e à discussão da sua escrita.


 


Sejam eles a autores consagrados, a estudiosos, académicos ou jornalistas, em blogues individuais, colectivos, dedicados à literatura ou generalistas, os pedidos à apreciação de obras a editar ou a solicitação para participar em tertúlias, colóquios, entrevistas ou outras formas de divulgação crítica das obras, autores ou projectos editoriais, são, na quase totalidade das vezes, pura e simplesmente ignorados.


 


É claro que há críticas incompreensíveis e livros que fariam melhor em reservar-se à intimidade dos pequenos núcleos sociais onde cada um de nós se insere. Por outro lado também há opiniões que será melhor ignorar, de tão descabidas, pela crueldade ou pelo exagero da lisonja. Mas os vários grupos de autores, editores, jornalistas e críticos vivem em círculos fechados, entrecruzando-se e falando para dentro, uns com os outros e uns para os outros, sem tolerância ou vontade de integrar quem não é do meio, seja pela qualidade ou pelos contactos estratégicos.


 


Serão as minhas ideias e palavras movidas pelo azedume, inveja ou despeito? Quem ler decidirá.


 

Dos limites

 



Motanka


Yulia Podolska


 


É uma questão de traçar uma linha limite. Há quem não a sinta necessária, quem nunca a tenha imaginado, quem a tenha presente em traço grosso e em relevo e quem a vá apagando, lentamente, dia a dia, até já não ser possível detetá-la. Hoje encontra-se justificação para uma mentira piedosa, amanhã defende-se uma história lendária, depois de amanhã não se distingue a realidade da ficção. A ética não é moralismo nem se exigem qualidades angelicais e férreas a quem é inteiro e vive a vida com as qualidades e os defeitos, os enganos e as vitórias, a dolorosa aprendizagem de errar e tentar acertar. Mas não se pode olhar permanentemente para o lado, transigindo naquilo que tem consequências, mesmo que mínimas ou apenas prováveis, não para o próprio mas para a comunidade.


 


A corrente populista que tentou fazer passar uma lei inconstitucional, que volta do avesso uma conquista civilizacional invertendo o ónus da prova, julgando culpado quem não é capaz de se provar como inocente, é o corolário da hipocrisia de uma classe política em que, cada vez mais, menos nos revemos. No Parlamento apena o PS votou contra a dita lei. Os nossos representantes fizeram eco da onda pseudo deontológica que varre a os valores da verdadeira justiça num retrocesso inquisitorial.


 


E no entanto todos temos conhecimento de situações pouco claras, de comportamentos reprováveis, de pequenas e grandes fraudes que, por interesse, compadrio ou corporativismo impedem os responsáveis de atuar, sendo cúmplices de situações que desmotivam, desmoralizam e impossibilitam a defesa das instituições, dos dinheiros públicos, da segurança, da tão propagandeada mas tão pouco servida causa pública.


 


A primeira e mais importante medida contra a corrupção não é perseguir pecadilhos de juventude mas sim, em cada pequena decisão que se toma, ter a obrigação e o cuidado de distinguir se o seu resultado serve ou prejudica os cidadãos. Exigir de cada um de nós, em todas as funções desempenhadas, em cada dia de trabalho, aquilo que queremos dos nossos representantes: rigor, competência, verdade e equidade. É ter presente o limite, essa linha imaginária que separa a tolerância da negligência, o erro da fraude. É saber que por muitos matizes que tenha o cinzento, há extremos de branco e de negro.


 

06 abril 2012

Stabat Mater Dolorosa


Margaret Walker & Jessica Dandy


 


Stabat mater dolorosa
juxta Crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.


 


Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem
pertransivit gladius.


 


O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta,
mater Unigeniti!


 


Quae moerebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat
nati poenas inclyti.


 


Quis est homo qui non fleret,
matrem Christi si videret
in tanto supplicio?


 


Quis non posset contristari
Christi Matrem contemplari
dolentem cum Filio?


 


Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis,
et flagellis subditum.


 


Vidit suum dulcem Natum
moriendo desolatum,
dum emisit spiritum.


 


Eia, Mater, fons amoris
me sentire vim doloris
fac, ut tecum lugeam.


 


Fac, ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum
ut sibi complaceam.


 


Sancta Mater, istud agas,
crucifixi fige plagas
cordi meo valide.


 


Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati,
poenas mecum divide.


 


Fac me tecum pie flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.


 


Juxta Crucem tecum stare,
et me tibi sociare
in planctu desidero.


 


Virgo virginum praeclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.


 


Fac, ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem,
et plagas recolere.


 


Fac me plagis vulnerari,
fac me Cruce inebriari,
et cruore Filii.


 


Flammis ne urar succensus,
per te, Virgo, sim defensus
in die iudicii.


 


Christe, cum sit hinc exire,
da per Matrem me venire
ad palmam victoriae.


 


Quando corpus morietur,
fac, ut animae donetur
paradisi gloria. Amen.


 


Jacopone da Todi - Stabat Mater Dolorosa


Calvário

 



Salvador Dali 


 


Temos uma Páscoa mais virada para sexta-feira que para domingo. Pouca a santidade e nenhuma ressurreição.


 


Esperam-nos longos meses de penúria, entristecimento e regresso à triste sina. O PS contorce-se em penitência de perdedor. Faltam ideias, faltam soluções, faltam alternativas. Esperam-nos longos meses de calvário.


 


Esta é a direita a governar. Esta é a direita que a esquerda deixa governar.


 

Paixão

 



Salvador Dali


 


Fria manhã de Primavera


no canto em que me encosto


no canto em que afundo


breves e secas sílabas partem cristais de gelo


derreto a espera em que me encontro


nesta fria paz de manto negro.


 

05 abril 2012

Avenida da Liberdade

 



 


Apetece-me muito ir desfilar para a Avenida da Liberdade este ano, no dia 25 de Abril. Não para me manifestar contra mas para me manifestar a favor da liberdade e da democracia. Apetece-me muito mostrar que não me conformo com a captura do simbolismo do dia pelos saudosos de uma noção de liberdade ditatorial que partidos como o PCP defenderam e defendem.


 


Apetece-me muito lembrar que temos o direito de nos manifestar contra ou a favor do que quer que seja, dentro dos limites da lei, repudiando os arruaceiros e provocadores que transformam manifestações em guerras campais, que temos o direito de nos manifestar em segurança e sem receio das forças policiais.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...