(…) Apesar de ser necessário dar o desconto das tradições anarquistas espanholas, julgo que a natureza profunda do 15-M esconde uma perigosa tendência, cada vez mais visível nas democracias ocidentais: a fragmentação populista. (…) A demagogia e o populismo compensam no discurso político, assim como os argumentos anti-capitalistas e a recusa da solidariedade entre países ou entre regiões ou entre classes sociais ou entre gerações. (…)
(…) Num mundo onde se glorifica a juventude, um certo tipo de beleza, onde se combate a cultura e se despreza a inteligência, onde se procura a fama e a riqueza a qualquer preço, as pessoas parecem precisar de novas causas, que estimulem o orgulho de pertencer a algo distinto e vencedor. (…)
(…) Para mais, a comunicação social (e agora as redes sociais) amplificam estes movimentos de protesto difuso. As redes sociais podem ser úteis para uma democracia, mas também facilitam o populismo. (…)
(…) Por tudo isto, acho que os movimentos populistas ao estilo do 15-M estão condenados a crescer e multiplicar-se. A democracia que conhecemos será combatida sobretudo desta forma, a partir do incómodo geral que os povos sentem, uma espécie de comichão superficial que alimenta a sua ansiedade. É ao mesmo tempo contestação das elites e aceitação de uma ordem mais inflexível e menos liberal. As minorias vão impor as suas visões estreitas em referendos, cujas discussões favorecem os que gritam mais alto. Haverá mais proporcionalidade nos votos e, por isso, maior fragmentação de partidos, com instabilidade governativa, liberdade para os grupos de pressão ganharem influência, divisões mais óbvias e profundas entre as pessoas. Os sinais da radicalização do nosso tempo e da doença democrática estão em Madrid.
Completamente de acordo, Sofia.
ResponderEliminarO populismo é uma das mais sérias ameaças à Democracia.