10 outubro 2010

A divisão do país

 


Uma pequena parte do país entretém-se a predizer horrores caso o OE para 2011 não passe na Assembleia da República. De tal forma que há quem peça encarecidamente ao PSD para se abster, mesmo que odeie o OE, mas por imperativo patriótico, nacional, responsabilidade política e, último e indispensável argumento, para acalmar Os Mercados.


 


A outra grande parte do país não percebe o que são Os Mercados, a razão de continuarem nervosos, apesar de todos os prometidos cortes salariais, do incontornável aumento de impostos, da propagandeada redução da despesa pública à custa dos parasitas do país - os funcionários públicos. Suspeito mesmo que essa grande parte do país pense que nada acalmará os irascíveis Mercados, visto que têm um humor mais negro que os ferozes deuses do Olimpo.


 


Essa grande parte do país também não entende muito bem porque é que, no início da crise de 2008 e durante o ano de 2009, a Europa se penalizou e penitenciou pela falta de regulação dos ditos Mercados, pela selvajaria do capitalismo, pelo esquecimento do estado social, sugerindo uma intervenção do Estado na banca, no investimento, nas empresas, no incentivo ao emprego e no apoio aos desempregados, para depois, num volte-face mais ou menos abrupto para o que existia antes da crise, se encarnice agora contra os défices públicos, que aumentaram astronomicamente nos anos anteriores.


 


Essa grande parte do país apenas se interroga: quando vamos receber menos - neste ou no próximo ano? Quando aumenta o IVA para 23% - neste ou no próximo ano? Vamos manter o 13º mês? E no próximo ano, ainda existirá? Quando vou conseguir emprego? E se perco o emprego? E se adoeço? E se não consigo pagar a renda? Essa grande parte do país olha para os dias que passam com aflição e medo. O medo que está a ser uma constante nestes tempos modernos: a criminalidade, o terrorismo, o desemprego, a crise, a bancarrota, o FMI.


 


Essa grande parte do país que votou maioritariamente à esquerda não entende porque é que a esquerda não apoia o governo, como também não entende que o governo não se apoie na esquerda. Não entende que o PSD queira acalmar Os Mercados mas tudo faça para que, fora de Portugal, olhem para nós com a sensação de que a elite política gosta de brincar com o fogo.


 


Se o PSD quer derrubar o governo que o faça e assuma as suas responsabilidades. Se o governa acha assim tão indispensável que o OE seja aprovado, que faça as negociações necessárias, no Parlamento, para encontrar um compromisso com que seja possível não desvirtuar a sua política. Mesmo que, como essa grande parte do país desconfia, não haja grandes diferenças nas práticas dos partidos políticos, tendo em vista as orientações a que nos obrigámos a obedecer.


 


Entretanto a grande parte do país assustada, assiste impotente e incrédula, aguarda que a democracia cumpra o seu papel e que os representantes que elegeu façam o seu trabalho sem se queixarem.


 


Nota: É bom que esclareça que, quando me refiro à pouca diferença nas práticas dos partidos políticos, refiro-me ao PS e ao PSD. O BE e o PCP não apresentam alternativas credíveis. Aliás, penso que a governação é demasiado para os seus horizontes de partidos da contestação, barricando-se continuamente no passado, mais próximo ou mais afastado, sem qualquer respeito pelas escolhas e decisões eleitorais.


 

7 comentários:

  1. Caríssima,
    Aproveito este dia, com data irrpetível, 10.10.10, para aqui deixar a marca do meu respeito, consideração e admiração pelo o que aqui se escreve,
    José Albergaria

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    1. José Albergaria, muito obrigada.
      10/10/10 - data misteriosa e irrepetível... até ao próximo século.

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  2. Manuel13:03

    Chumbe-se o orçamento, quem governou que assuma as responsabilidades
    É isto governar?
    http://dn.sapo.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1681555

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  3. Dona Sofia :"Essa grande parte do país que votou maioritariamente à esquerda não entende porque é que a esquerda não apoia o governo, como também não entende que o governo não se apoie na esquerda."
    Peço que me esclareça, se nessa grande parte do país que votou maioritariamente à esquerda está a englobar os votos do PCP e do Bloco?
    Nota:" É bom que esclareça que, quando me refiro à pouca diferença nas práticas dos partidos políticos, refiro-me ao PS e ao PSD. O BE e o PCP não apresentam alternativas credíveis. Aliás, penso que a governação é demasiado para os seus horizontes de partidos da contestação, barricando-se continuamente no passado, mais próximo ou mais afastado, sem qualquer respeito pelas escolhas e decisões eleitorais."
    Como a Sr. diz o PCP e o Bloco não apresentam alternativas credíveis, acho que é abusivo juntar os seus votos aos votos do PS.
    E como a Sr. diz e bem a pouca diferença entre as práticas politicas do PS e do PSD leva-me a perguntar-lhe os votos no PS são de esquerda?
    Ou será que os votos nos PSD são de esquerda?
    E já agora para acabar já alguma vez o PS no governo praticou politicas de esquerda?
    Ao longo destes 30 anos qual a diferença entre as práticas politicas do PS e do PSD?
    Não é de esquerda quem quer mas sim quem faz uma politica de esquerda.
    Já agora politicamente a Sr. sente ser de esquerda?


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  4. Manuel16:13

    É esta a imagem que temos também nos mercados internacionais não nos iludamos, que a imagem do País é espelhada pelo PM infelizmente
    http://www.youtube.com/watch?v=MND0XT0WVJ4&feature=player_embedded
    Custava muito ter umas aulas extras de inglês ou pedir um intérprete

    Isto para não falar do castelhano, faça como o Mourinho que antes de se deslocar para um País que não é o seu tem aulas...pobre País

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  5. Manuel20:37

    Parabéns Sr Sócrates pela redução de comparticipação nos medicamentos

    Que votou Sócrates que pague os custos da má governação

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  6. Manuel11:36

    Mais uma
    Silva Lopes
    http://www.edprenovaveis.com/CorporateGovernance/Directors

    Onde vamos parar

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