Acaba hoje um excelente congresso, de alto nível científico, em que especialistas de várias áreas apresentaram os seus trabalhos sobre os mais recentes avanços no conhecimento do Papilomavirus humano: a sua classificação, as várias estirpes, a capacidade de algumas delas infectarem várias mucosas, não só as genitais, algumas de uma forma persistente e destas, numa percentagem de casos felizmente pequena, de induzirem a transformação neoplásica dos tecidos, causando verrugas, condilomas e carcinomas. Discutiram-se estratégias de rastreio de cancro do colo do útero, estratégias de vacinação, avaliação dos vários tipos de rastreio e de vacinação, previram-se cenários vários, fizeram-se análises de custo/benefício para cada tipo de rastreio, etc.
Venho sempre destes encontros científicos com sentimentos muito contraditórios. Por um lado, satisfeita e maravilhada com as novas possibilidades que o avanço da tecnologia, as capacidades de trabalho e inventivas de tantas pessoas por todo o mundo, a comunicação que atravessa fronteiras, a acelerada evolução do conhecimento que nos permite saber cada vez mais, prevenindo a doença e tratando-a, quando ela já existe.
Por outro lado, a sensação de que a quantidade de trabalho que é feita, pelo menos nalgumas especialidades médicas como a minha, pela escassez aflitiva de médicos, nos impede de estarmos disponíveis para analisar os dados que temos, pensar sobre eles, trocar ideias com outros colegas, estudar, investigar. Já para não falar da dificuldade de financiamento dos trabalhos de investigação.
O conceito de SNS, para além de assegurar a igualdade de acesso aos mesmos cuidados de saúde, abrange também, pelo menos para mim, a aposta na investigação, nas terapêuticas mais arrojadas, em manter o estado da arte em todas as áreas do conhecimento médico. Neste congresso, por exemplo, todos os investigadores começavam as suas palestras com uma declaração de interesses porque, ou trabalhavam para as empresas que comercializam medicamentos e tecnologias, ou tinham os trabalhos financiados por elas.
As políticas restritivas da entrada de médicos nos cursos de medicina, com os serviços reduzidos ao mínimo para prestar cuidados de saúde e o desinvestimento nos recursos humanos terá consequências a todos os níveis, e este não me parece menos importante. É menos visível, mas com impacto a mais longo prazo.
COMENTÁRIO AO POST "TRABALHO E INVESTIGAÇÃO" DE SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS, NO BLOG "DEFENDER O QUADRADO"
ResponderEliminar00- Este nosso País atravessa um período de paranóia generalizada, e vou recebendo mensagens sobre mensagens, pejadas de miserabilismo, no estafado “viver acima das possibilidades”, pondo logo em causa o esforço para acrescer as “Qualificações”.
Até um Político de nomeada veio dizer que a “Qualificação” não é um “Valor” da Esquerda!!!
01- Nesta onda, a ida a “Congressos” não é tida como uma Valorização Pessoal e Colectiva, mas sim lida, como uma “escapadela” ao Trabalho do Quotidiano.
Enfim, até os Dirigentes actuais da Frenprof- CGTP- criticam o acréscimo de Qualificações a exigir para se entrar na Docência, como são “alérgicos” à Formação Contínua, para progredir na Carreira.
O desprezo pela "Qualificação".
Tudo ao invés de um Projecto de Desenvolvimento Sustentado e da Dignificação do Homem.
02- Esta nota sobre a ida ao “Congresso”, e o que tal significa, vem contra a corrente, e, é, assim, bem vinda.
03- A Nota Final do post, refere, explicitamente, o actual critério de entrada para cursar Medicina, um seja a questão do “número clausus”, mas não só.
Do meu ponto de vista, eu não teria hesitado, em aludir, que o actual e antigo critério do “número clausus” faz parte de um pensamento corporativista, faz parte da “Tralha Corporativa” que nos tolhe os movimentos, bem presente em vários Bastonários da Ordem dos Médicos, com destaque para o actual.
Bastonários eleitos, logo exprimindo um ponto de vista alargado.
04- O Governo do Partido Socialista tem contratado profissionais estrangeiros, Médicos e Enfermeiros, para prover minimamente à escassez de profissionais nacionais.
Os Resultados não têm sido catastróficos. Mas são insuficientes.
Como alás, não foi catastrófica a contratação de Docentes Estrangeiros e Nacionais Estrangeirados, que teve lugar nas Universidades, no pós “25 de Abril”.
Mas sejamos claros, essa contratação de Profissionais Estrangeiros, é, de facto, uma medida, que “quebra” o Corporativismo latente.
Há, assim, pelo menos duas boas razões, (servir as populações e “amainar”o corporativismo), para as apoiar.
Se o Partido Socialista tem estado aquem do necessário, o PPD ilude o problema, e propõe alivir as necessidades em profissionais do SNS- Serviço Nacional de Saúde, esvaziando as suas Prestações.
A questão está assim balizada, e o Governo do Partido Socialista terá de rapidamente “cortar a corda” do Corporativismo existente no “número clausus”.
Cordiais, Amistosas e Afáveis Saudações Democráticas, Republicanas e Socialistas do
ACÁCIO LIMA
O racio nao nos e' desfavoravel,comparados com paises desenvolvidos.Mas estou de acordo que se deveria dar oportunidade a mais jovens,ate para aumentar a concorrencia e , consequentemente a qualidade dos serviços prestados.
ResponderEliminarNo contexto actual ha' sobretudo muito desperdicio.
Podia dar o meu exemplo de utente,com uma doença grave.Consultas e exames sao repetidos ,em intervalos de uma ou duas semanas,requisitados por medicos diferentes, mas da mesma especialidade.
Ouvi queixas identicas de outros utentes, o que me leva a concluir que e' frequente.
Se existisse mais e melhor organizaçao, provavelmente os medicos teriam melhores condiçoes de trabalho, mais tempo,e o doente mais confiança.
Nao excluo a urgencia de mudanças, mas os interesses
sao muitos e o estatuto dos medicos num portugal inculto, elitista e medroso emperra as medidas adequadas.
Aplausos para os que trabalham incansavelmente e tratam com competencia e humanidade os que deles precisam emtas vzs dependem totalmente, sem contabilizaçao dos lucros para si directamente ou empresas-hospitais para que trabalham.
Concha, obrigada pelo seu comentário. Concordo consigo que poderemos melhorar muito com a reorganização do SNS, o aproveitamento criterioso dos seus recursos, humanos e outros, e a redução do desperdício. Mas há uma escassez real de recursos humanos, principalmente de médicos, e há uma política de restrição de contratações que, por muito que se entendam a necessidade de reduzir a despesa pública, terá consequências a curto e a longo prazo, em várias esferas de actividade e, temo bem, na qualidade dos serviços a prestar.
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