Não conheci Saldanha Sanches pessoalmente. Mas os testemunhos que fui lendo ao longo do dia de quem o conheceu fortaleceram a minha opinião de que era uma homem corajoso, frontal, honesto, inteiro.
Para quem não leu, fica a ligação para uma entrevista que deu em conjunto com Maria José Morgado, onde recordaram os tempos de fundamentalismo e quase ascese na luta revolucionária, com um distanciamento saudável e crítico, de quem não cristalizou na arrogância dos donos do mundo.
COMENTÁRIO AO POST DE SOFIA LOUREIRO DOS SANTOS, "JOSÉ LUÍS SALDANHA SANCHES"
ResponderEliminarEmbora nos últimos anos, desde 2003, as nossas relações fossem débeis, doi-me muito este passamento do José Luís, mais novo que eu, cerca de quatro anos.
O José Luís foi um excelente companheiro de prisão, solidário e muito vertical.
De 1966 a 1970, vivemos perto um do outro, nos Fortes de Caxias e de Peniche.
- “encontrámo-nos” numa Sala do Reduto Norte de Caxias, sem visitas e sem jornais, salvo “A Bola”, sem livros, e tivemos a sorte de descobrir um coto de lápis, num canto da sala, o que nos permetia, usando folhas de papel higiénico, conceber problemas de palavras cruzadas, que depois trocávamos e resolviamos.
- depois fomos transferidos para uma mesma sala, mas no Reduto Sul de Caxias, onde a Mãe dele, a D. Alda o visitava, e presenteava com queijo flamengo holandês e latas de chá inglêsas, que compartilhava.
- de seguida fomos levados para o Forte de Peniche e “alojados”, em Celas contíguas, no Pavilhão C- 3 º Piso. Comunicávamos por toques na parede, cifrados.
- um belo dia fomos transferidos, ambos, para o 3º Piso do Pavilão B do Forte de Peniche, tendo eu sido remetido para a Cela 2 e ele para a Cela 3. Ambos dados a “excessos”, acordamos, às escondidas dos guardas, usar o único lençol de cama distribuido por semana aos presos, alternadamente, para termos o “regalo” quinzenal, de dormir numa cama lavada, completa; como dizia, dados ambos a “excessos”, a garrafa de vinho, semanal, que nos era permitido comprar em Peniche, nós a bebiamos numa só refeição, à quarta-feira, contra o hábito do Blanqui Teixeira que a repartia pelas catorze refeições da semana, estando o Álvaro Augusto Veiga de Oliveira, na posição intermédia , mas próxima da nossa, de usar o 7,5 dl, em duas partidas
O seu interese pela Fiscalidade, data dessa época, dedicando ele várias horas por dia, na sua Cela, ao estudo de abundante bibliografia sobre a matéria.
A Comunicação Social insere uma Biografia escassa do José Luís Saldanha Sanches.
Ferido a tiro pela PIDE, numa manifestação de protesto pelo assassinato pela PIDE do estudante Ribeiro dos Santos, é levado para o Hospital para ser tratado do ferimento causado pela bala, e imediatamente saído da operação, sujeito a interrogatório.
Depois é preso e condenado pelo Tribunal Plenário por alegadas actividades ligadas ao PCP.
Para depois ser preso e condenado por alegadas actividades ligadas ao MRPP.
Depois do “25 de Abril” é preso pelo COPCON, numa medidade insensata, e encarcerado no Forte de Elvas, onde o fui visitar.
Como compreende, este meu Depoimento, está carregado de detalhes, provavelmente tidos por “coisas menores”, mas fiz questão de os referir, para que a “MEMÓRIA NÃO SE PERCA”, e Sua cremação não seja o fim de uma Vida Generosa, Vertical e de Coragem.
Fica, para, mim a Referência e o Companheirismo de anos.
Cordiais Saudações Democrárticas, Republicanas e Socialistas
de
Acácio Lima
Obrigada pelo seu testemunho.
Eliminar01- Registo a Sua anotação, e recordo- Lhe que tenho boa memória.
Eliminar02- É claro que poderia caracterizar o pensamento de José Luís Saldanha Sanches, as Suas concepções e as Suas leituras da realidade. Mas, tal não faria sentido sentido, neste exacto momento, em que nos deixou,perdido o exercício do contraditrório. Mais que uma deselegância minha, seria esbater a Imagem rica de um Homem Tenaz, Corajoso e Vertical, e isso repugna-me.
03- Mais tarde, outros mais capazes que eu, farão um Estudo Crítico e Aprofundaddo da Obra e Vida Dele, numa então Homenagem, a que tem direito por justa.
Saudações Amistosas e Afáveis de
ACÁCIO LIMA
EliminarUMA NO CRAVO,OUTRA NA FERRADURA, OU INTERPRETEI MAL?
GOSTARIA DE MAIOR CLAREZA,JA' QUE EXIGIR NAO POSSO NEM DEVO.
EliminarO SEU COMENTARIO E' CAMPO FERTIL PARA ESPECULAÇOES .OU INTERPRETO MAL AS SUAS AFIRMAÇOES, QUANDO ME SOAM MAIS A INSINUAÇOES?
"o cravo e a ferradura" devem ser para a Tia do "Encapuzado", parafraseando o actual Secretário-Geral do Partido Socialista, respodendo Ele , também, a insinuações.
EliminarVer meus dois comentários anteriores, nomeadamente o segundo, último parágrafo.
Acácio Lima
B.I. Nr. 1468705.4
Arq. Porto
2007/08/13
Apenas uma rectificação: Saldanha Sanches enfrentou os esbirros da PIDE nessa tarde de 12 Ouutubro de 1972. Quem ficou ferido numa perna foi José Lamego, que corajosamente saltou para as costas dum PIDE , agarrou-lhe a mão, levou um tiro numa perna e impediu que houvesse mais mortos ou feridos.Fui eu quem transportei José Lamego ao Hospital de Santa Maria e presenciei os minutos de vida finais de Ribeiro Santos, entretanto também transportado por um Assistente de Económicas.
EliminarJúlio Pêgo
A RECTIFICAÇÃO SUPRA É DEVIDA, E JUDICIOSA.
EliminarUM LAPSO MEU DE DATAS.
AS MINHAS DESCULPAS PELA IMPRECISÃO.
ACÁCIO LIMA
PS- TAMBÉM HÁ OUTRO LAPSO NO MEU TEXTO. NA ÚLTIMA PRISÃO, ANTES DO "25 DE ABRIL", NÃO HOUVE JULGAMENTO, POIS ELE FOI LIBERTADO COM A ECLOSÃO DO "25 DE ABRIL"