10 abril 2010

A inevitabilidade

A crise. A maior crise desde a grande depressão. A crise dos mercados desregulados. A crise do capitalismo selvagem. A crise dos lucros rápidos e efémeros. A crise bolsista dos especuladores e dos gestores com remunerações milionárias, prémios de produtividade e prémios de despedimento.


 


O mundo tremeu, como é hábito uns mais do que os outros. Principalmente se falarmos dos mundos individuais. Cada vez mais mundo a tremer muito, cada vez menos a não tremer de todo. Os anos de 2008 e de 2009 foram anos de grandes declarações de rotura com o estabelecido, do renascimento do estado como ideia de apoio aos cidadãos, como garante da dignidade e da redistribuição justa. O desemprego alastrou mais do que as boas intenções e as boas palavras.


 


Mas já estamos em 2010. A banca está de boa saúde. Os mercados recuperaram, robusteceram e, mais uma vez, são a razão e a explicação, a causa e a consequência de todas as decisões políticas, dentro do país, na Europa, no mundo. A globalização.


 


Aprendemos todos os dias que não há alternativa. Que a discussão das escolhas do Estado, dos contratos milionários para gestores públicos e de empresas públicas, caucionados pelos representantes do estado, são inevitáveis e até desejáveis, pelo risco de perdermos tão qualificados gestores. Claro que a demonstração da fuga desses gestores para outros paraísos nunca é necessária.


 


Como nunca é necessária a demonstração do que se apregoa. A proliferação de maternidades e clínicas privadas nas localidades onde o estado as fechou, por segurança e boa prática, está por encontrar. Mas o que importa é falar dessa possibilidade para indignar a população.


 


Aprendemos todos os dias como é inevitável o desemprego, a falta de competência e a negligência, a falta de assiduidade, os queixumes constantes, o abismo sempre à espera do passo fatal. Aprendemos todos os dias que a obscenidade e a imoralidade das destinadas fortunas de poucos e a pobreza irreversível de muitos é um desígnio divino.


 


Pois a felicidade só será alcançada no outro mundo. Alegremo-nos pois, na esperança da redenção.

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