31 março 2010

Na morte da avó

 



poema de Miguel-Manso


pintura de Francisco Oller: el velorio


 


não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se


 


a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem


 


no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de


 


Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
─ é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida ─


 


depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante


 


o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia


 


como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia


 


a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez


da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota


 


(a partir daqui)


 

2 comentários:

  1. porque excede o nº de caracteres permitido pela caixa de comentários, fica o título e o autor 1º
    "A MORTE, O ESPAÇO, A ETERNIDADE" de Jorge de Sena

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    Respostas
    1. margarete10:15

      De morte natural nunca ninguém morreu.
      Não foi para morrer que nós nascemos,
      não foi só para a morte que dos tempos
      chega até nós esse murmúrio cavo,
      inconsolado, uivante, estertorado,
      desde que anfíbios viemos a uma praia
      e quadrúmanos nos erguemos. Não.
      Não foi para morrermos que falámos,
      que descobrimos a ternura e o fogo,
      e a pintura, a escrita, a doce música.
      Não foi para morrer que nós sonhámos
      ser imortais, ter alma, reviver,
      ou que sonhámos deuses que por nós
      fossem mais imortais que sonharíamos.
      Não foi. Quando aceitamos como natural,
      dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
      o inominável fim da nossa carne; quando
      ante ele nos curvamos como se ele fora
      inescapável fome do infinito; quando
      vontade o imaginamos de outros deuses
      que são rostos de um só; quando que a dor
      é um erro humano a que na dor nos damos
      porque de nós se perde algo nos outros, vamos
      traindo esta ascensão, esta vitória, isto
      que é ser-se humano, passo a passo, mais.
      A morte é natural na natureza. Mas
      nós somos o que nega a natureza. Somos
      esse negar da espécie, esse negar do que
      nos liga ainda ao Sol, à terra, às águas.
      Para emergir nascemos. Contra tudo e além
      de quanto seja o ser-se sempre o mesmo
      Que nasce e morre, nasce e morre, acaba
      como uma espécie extinta de outras eras.
      Para emergirmos livres foi que a morte
      nos deu um medo que é nosso destino.
      Tudo se fez para escapar-lhe, tudo
      se imaginou para iludi-la, tudo
      até coragem, desapego, amor,
      para que a morte fosse natural.
      Não é. Como, se o fora, há tantos milhões de anos
      a conhecemos, a sofremos, a vivemos,
      e mesmo assassinando a não queremos?
      Como nunca ninguém a recebeu
      senão cansado de viver? Como a ninguém
      sequer é concebível para quem lhe seja
      um ente amado, um ser diverso, um corpo
      que mais amamos que a nós próprios? Como
      será que os animais, junto de nós,
      a mostram na amargura de um olhar
      que lânguido esmorece rebelado?
      E desde sempre se morreu. Que prova?
      Morrem os astros, porque acabam. Morre
      tudo o que acaba, diz-se. Mas que prova?
      Só prova que se morre de universo pouco,
      do pouco de universo conquistado.
      Não há limites para a Vida. Não
      aquela que de um salto se formou
      lá onde um dia alguns cristais comeram;
      nem bem aquela que, animal ou planta,
      foi sendo pelo mundo este morrer constante
      de vidas que outras vidas alimentam
      para que novas vidas surjam que
      como primárias células se absorvam.

      A Vida Humana, sim, a respirada,
      suada, segregada, circulada,
      a que é excremento e sangue, a que é semente
      e é gozo e é dor e pele que palpita
      ligeiramente fria sob ardentes dedos.
      Não há limites para ela. É uma injustiça
      que sempre se morresse, quando agora
      de tanto que matava se não morre.
      É o pouco de universo a que se agarram,
      para morrer, os que possuem tudo.
      O pouco que não basta e que nos mata,
      quando como ele a Vida não se amplia,
      e é como a pele do ónagro, que se encolhe,
      retráctil e submissa, conformada.
      É uma injustiça a morte. É cobardia
      que alguém a aceite resignadamente.
      O estado natural é complacência eterna,
      é uma traição ao medo por que somos,
      áquilo que nos cabe: ser o espírito
      sempre mais vasto do Universo infindo.
      O Sol, a Via Láctea, as nebulosas,
      teremos e veremos até que
      a Vida seja de imortais que somos
      no instante em que da morte nos soltamos.
      A Morte é deste mundo em que o pecado,
      a queda, a falta originária, o mal
      é aceitar seja o que for, rendidos.
      E Deus não quer que nós, nenhum de nós,
      nenhum aceite nada. Ele espera,
      como um juiz na meta da corrida
      torcendo as mãos de desespero e angústia,
      porque nada pode fazer nada e vê
      que os corredores desistem, se acomodam,
      ou vão tombar exaustos n

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