A democracia portuguesa está a viver uma particularidade interessante.
Das eleições legislativas resultou um Parlamento com um partido maioritário que, segundo a Constituição, foi convidado a formar governo – um governo minoritário.
Em princípio o governo governa (poder executivo), o Parlamento legisla e fiscaliza o governo (poder legislativo). Nas próximas eleições, antecipadas ou não, os cidadãos deverão julgar a acção executiva do governo, premiando-o ou punindo-o, renovando-lhe a confiança ou, pelo contrário, confiando noutra(s) força(s) política(s).
Mas nesta legislatura poderemos ter os papéis misturados ou mesmo trocados. O Parlamento assumiu um mandato para governar. Como o não pode fazer directamente, resolve obrigar o governo a governar com um programa híbrido, mais ou menos fabricado entre os partidos da direita (CDS e PSD) e da esquerda (BE e PCP).
No entanto, depois de tanto se falar da responsabilidade política de Sócrates, de tanto se indagar da interferência do anterior governo na comunicação social, os partidos que nos representam na Assembleia da República ainda não pediram inquéritos parlamentares para esclarecer esses assuntos.
Enquanto tivermos partidos da oposição que não têm soluções para o país, à esquerda ou à direita, o poder só se justifica pelo poder, não pelo interesse e pela ambição de servir o povo. Por isso não teve qualquer interesse, na campanha para o Parlamento, discutir política, discutir soluções alternativas, gastou-se o tempo a denegrir o carácter de Sócrates e a falar da asfixia democrática. Onde estava a oposição a confrontar o governo com os números do défice e da crise que, dizem eles, só agora se conhecem?
Estamos perante uma legislatura em que a justiça serve para fazer luta política, não olhando a meios para atingir os fins, em que a oposição esconde a falta de ideias com ataques ao carácter dos detentores de cargos públicos, em que o jornalismo se demitiu de informar e entrou descaradamente em manobras de desinformação. Assistimos à emergência de uma nova república, depois da república dos generais e da república dos juízes – a república dos jornalistas. Só assim se entende o desplante de responsáveis editoriais que, apesar de publicarem notícias mentirosas que objectivamente interferem na vida política, se arrogam o direito de continuar a tecer considerandos sobre a actuação, a hombridade, a competência e a capacidade dos nossos governantes.
Quanto ao Presidente da República fechou-se na concha dos seus assessores.
Como votaremos nas próximas eleições? Nos incorruptos juízes, nos prescientes jornalistas e comentadores políticos? Tanto se falou do bloco central, afinal temos um bloco em ângulo obtuso – todos contra Sócrates.
(Também aqui)
Vc lembra-me muito esta passagem em versão sócrates
ResponderEliminarhttp://www.youtube.com/watch?v=nqjQG-Tw9FY
Fosse o partido do governo recto e já não teriamos problemas de Geometria.
ResponderEliminarJRD , o governo ainda nem teve tempo para definir quais os ângulos em que vai trabalhar.
EliminarSofia, É capaz de ter razão, mas esperemos que não seja um ângulo raso, para não tornar a crise ainda mais aguda.
Eliminarbfs
"Em que o jornalismo se demitiu de informar e entrou descaradamente em manobras de desinformação".
ResponderEliminarJá nem sei que jornal adquirir, a fim de obter, mesmo aproximadamente, uma informação equilibrada.
Não reflectem que, querendo seguir a moda corrente e demitindo-se de INFORMAR, poderão criar autênticos boomerangs? Não os lamentaria, pelo contrário.
Gostei de a ler