(pintura de Alia E. El-Bermani: Kitchen Window)
São de mulher estas queixas, em frente a um espelho que a deforma, porque por dentro não existem rugas, só as que resultam do amolecimento do amor, da negação da paixão, do adormecimento dos sentidos.
São de mulher estas ânsias de olhar-lhe nos olhos e saber que é ele, que será ele sempre, para toda a eternidade, mesmo que essa eternidade se meça em dias ou meses, este estremecimento que aguarda quando lhe toca, quando o cheira, este amansar do desgosto de o saber sem ela, quando se habitam por momentos.
São de mulher estes cansaços do que já sabe, do que já mente, do que já arrumou num canto da memória, os gestos iguais, a mesma sombra que a persegue e que é ela própria, num desejo de já não existir.
São de mulher estas mesmas sobras que coleccionou pelos anos que lhe pesam, pelos caminhos em contínuo que a sugam, por aquele mar infinito que, inexoravelmente, acabará por escolher mergulhar, até ao adormecimento final.
Sofia, que coisa tão linda e tão de mulher.
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