10 junho 2009

Rescaldo

 


Tenho lido e ouvido inúmeras reacções, considerações e confabulações sobre os resultados eleitorais. Há quem rejubile e sonhe com o regresso do PSD/CDS ao poder, há quem rejubile e sonhe com as ruas cheias de manifestantes exigindo aquilo que lhes foi negado até agora, há quem preveja o mais negro futuro e a mais instável instabilidade.


 


De facto, muita coisa mudou com as eleições, mas sempre muda. Podemos estar mais ou menos aleta, mas sempre que os eleitores se exprimem os representantes devem observar e pensar.


 


A abstenção foi grande mas, tal como já li, quem se absteve foi porque não quis votar. Sendo assim o seu não voto não conta.


 


Os votos em branco e nulos foram imensos. Parece-me significativo. Tal como a dona do café das minhas manhãs de fim-de-semana, que me disse que não fazia ideia em quem votar, terá havido muitíssimas pessoas que não se revêem nas propostas ou nas políticas seguidas pelos partidos concorrentes. Ou que não gostam de nenhum deles, por razões diversas e muitas vezes antagónicas.


 


O PSD ganhou estas eleições. Perfilam-se já no horizonte, todos os que se arredaram de Manuela Ferreira Leite à espera da derrota. E vão-se mostrando os regressados da direita, como Bagão Félix e Santana Lopes. Paulo Rangel vai mostrando de que é feito, basta ver as afirmações dele em relação à lei do financiamento dos partidos, vetada por Cavaco Silva.


 


O CDS vislumbra uma perspectiva de regressar ao poder. Portas soma, segue e continua.


 


O BE ganhou 3 deputados, uma enormidade de votos e uma hipótese de viabilizar um governo de esquerda nas próximas legislativas. Mas para tanto terá que reciclar o populismo e a demagogia que nos encheu os écrans na noite das eleições. Também o BE precisa de uma substituição de rostos – deixar cair Luís Fazenda e Francisco Louçã, por exemplo. O primeiro reafirmou de novo que o BE não se dispunha a coligar-se com o PS, enquanto houve sinais de abertura a essa possibilidade por parte de Fernando Rosas.


 


O PS perdeu pesadamente. Sócrates disse o que tinha que dizer. Ou o governo tem um cunho reformista e está convencido das suas razões, o que me leva a admitir que terá que mudar na forma e não no conteúdo, ou passará a guinar para o lado donde lhe parece que virão mais votos e isso só lhe tirará credibilidade e será contraproducente. E que tal se Sócrates olhasse em volta e substituísse alguns dos seus fantásticos apoiantes por outros menos fantásticos mas mais sérios? E nada de começar a falar nas esquerdas plurais e nos companheiros e companheiras. Isso soa a oco e é oco.




O acordo assinado entre os sindicatos médicos e o ministério da saúde, em que se deixou cair a necessidade de trabalho a tempo inteiro e dedicação exclusiva aos hospitais públicos, mantendo o status quo, será um exemplo das meias tintas de que fala o Saúde SA? As mais do que previsíveis manifestações de professores farão recuar o governo? Será este o caminho do PS até às eleições?


 


Duma coisa estou certa. Vai haver grande animação. É, pelo menos, uma oportunidade de se discutir política e alternativas. Espero que o governo e o PS tenham cabeça fria e visão das necessidades do país. As falinhas mansas não me parecem boas conselheiras.

 

7 comentários:

  1. "Espero que o governo e o PS tenham cabeça fria e visão das necessidades do país."

    Ah... vai ser agora então... :-)))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Na minha opinião tem tido muita visão das necessidades do país. Penso mesmo que é dos melhores governos que temos tido. Já o disse e repeti várias vezes.

      Eliminar
  2. Ernestina16:32

    Também sou contra as falinhas mansas.
    Sócrates tem de continuar claro e decidido. Se ceder aos que clamam por mudanças, corre o risco de se transformar em cata-vento , à semelhança de Santana.
    Era preciso, antes de mais, uma maior atenção ao que se escreve, ouve e vê no dia-a-dia. Quando "pelotões" de polícias, enfermeiros, trabalhadores da função pública, professores, sargentos, etc. saem à rua clamando por regalias perdidas, contra novos estatutos, por menos trabalho e melhores reformas, seria indispensável explicar o que se fez e quanto custariam as reivindicações.
    E, de uma vez por todas, que o bem das crianças, dos doentes e dos utentes são prioritários nas escolas, hospitais e repartições. Respeitar as corporações, sim, mas deixá-las bloquear as reformas do Estado, é que não.
    Quanto a Paulo Rangel, ouvi as tais declarações na Antena 2 e, pela primeira vez, foi confrontado, por vários jornalistas, com as suas contradições. Votara a favor, mas era contra - que coerência! Estendeu-se a todo o comprimento.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Odete Pinto18:13

      Subscrevo na íntegra, só que..."seria indispensável explicar o que se fez e quanto custariam as reivindicações"... a resposta em jeito de insulto vem de rajada: "economicista"!

      Não era bom termos poços de petróleo, minas de ouro e diamantes para dar para todos os peditórios mais para os espoliados do BPP?

      Eliminar
  3. Apesar de ter algumas discordâncias quanto ao conteúdo (p. ex.: obras públicas; justiça, onde tudo parece ter falhado; comunicação social), até admito que o governo precise acima de tudo de mudar de forma. Aliás, algum conteúdo nasceu durante o governo de Durão Barroso, que não teve tempo ou coragem de o implementar. (Ainda me lembro de ver, nos primeiros meses do actual governo, Aguiar Branco dizer no parlamento ao ministro da justiça que as medidas que ele estava a apresentar tinham sido preparadas pelo PSD.) O problema é que a forma advém de Sócrates. Arrogância, incapacidade de aceitar a crítica e de fazer autocrítica (não tenho dúvidas que Sócrates sabe que o modo como obteve a licenciatura foi tudo menos ético; onde está uma pitada que seja de contrição?), manipulação da comunicação e por vezes da verdade, preocupação maníaca com a imagem, envolvimento numa montanha de casos eventualmente ilegais e, no mínimo, pouco éticos - tudo isto é Sócrates. No fundo, não mais que o típico português com poder (e alguns sem poder). O patrão de muitas das nossas empresas. Só que já era altura de termos melhor. Ainda por cima, como nas maiorias absolutas de Cavaco (mesmo assim, essencialmente na segunda), o estado rapidamente assumiu o estilo do líder. São os "fantásticos apoiantes" que refere, só que num número muito superior àquele em que provavelmente estava a pensar e espalhados por todo o país (não devo viver longe da “fantástica” Margarida Moreira, da DREN). É possível, agora, Sócrates fazer algo que mude isto?

    Já agora, apesar de ideologicamente não ser socialista (mais em questões económicas que morais ou de direitos sociais), admito que depositei algumas esperanças em Sócrates durante o primeiro par de anos do governo. Infelizmente, ele esbanjou-as.

    ResponderEliminar
  4. assis21:10

    estou basicamente de acordo com o post . e saliento mesmo o ponto principal: a obrigação de não mudar de rumo. se sócrates mantiver o mesmo rumo ganha de certeza as legislativas (mesmo que seja sem maioria) mas se tentar algo para satisfazer a esquerda isso irá custar-lhe as eleições.
    um ponto que não foi focado mas que deve ser enfatizado é o facto de ter sido uma legislatura difícil: primeiro o problema de cumprir o pac , nomeadamente o défice, e depois a crise internacional. o governo nunca teve descanso mas mesmo assim encetou reformas que nenhum outro até agora ousou fazê-lo. obviamente isso tem custos eleitorais que são acrescidos pelo facto de estarmos a viver uma crise de larga escala. creio que da campanha para as legislativas irá surgir naturalmente a comparação entre este governo e o anterior (esquecemos o santana ) e objectivamente este governo foi muito melhor: fez a reforma da segurança social, colocou as contas públicas na ordem, iniciou um processo de crescimento económico e de criação de emprego que a crise internacional interrompeu de forma abrupta. falhou na reforma da justiça como todos os outros governos precedentes (essa é uma reforma que só irá avante com um acordo de regime, que chegou a ser assinado com marques mendes mas que foi rasgado por meneses ). finalizando, não penso que os portugueses queiram regressar aos tempos do governo anterior, dos atrasos na colocação de professores, dos orçamentos rectificativos devido às contas da saúde, das contracções económicas quando os nossos parceiros cresciam a todo vapor, das maquilhagens do défice com vendas de crédito ao citigroup , vendas das falagueiras , retenção de iva dos exportadores; creio pois que sócrates irá ser reconduzido apesar da crise e do desemprego e apesar do oposição militante dos media.

    ResponderEliminar
  5. Certeiro.
    Acrescento somente uma frase de Churchill:
    "Em tempo de crise não podemos fazer o possível. Devemos fazer o necessário."
    Como você sublinha no seu poste, e muito bem.
    J.A.

    ResponderEliminar

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...