Desenho de Almada Negreiros: Fernando Pessoa
Poema de Álvaro de Campos a 01/12/1928
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e pró fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que fiz, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sendo senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia,
Sou uma coisa que fica a grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
Compreendo a ilustração com o Pessoa, mas este eu poético não deve ter ficado com o coração como antes: entre «um céu e um deserto» e «um escarro», a permanência parece-me difícil... :)
ResponderEliminarTão belo, mas tão negativo. Nem parece teu.
ResponderEliminarLS