13 junho 2009

Canção à Inglesa

 



Desenho de Almada Negreiros: Fernando Pessoa


Poema de Álvaro de Campos a 01/12/1928

 


Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.

Levei a mochila das coisas que sei para o lado e pró fundo

Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,

E o meu coração é o mesmo que foi, um céu e um deserto

Falhei no que fui, falhei no que fiz, falhei no que soube.

Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,

Não sendo senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia,

Sou uma coisa que fica a grande distância

E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,

Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.


 

2 comentários:

  1. escrevinhadora12:17

    Compreendo a ilustração com o Pessoa, mas este eu poético não deve ter ficado com o coração como antes: entre «um céu e um deserto» e «um escarro», a permanência parece-me difícil... :)

    ResponderEliminar
  2. Tão belo, mas tão negativo. Nem parece teu.
    LS

    ResponderEliminar

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...