O PS escolheu Vital Moreira para cabeça de lista das eleições para o Parlamento Europeu. Vital Moreira era um defensor do Tratado Constitucional Europeu, é um defensor do Tratado de Lisboa e foi também um defensor da quebra da promessa do referendo ao mesmo Tratado, justificando que não concordava com referendos a tratados internacionais e, inclusivamente, que este tratado em concreto era incompreensível.
Não me espanta a escolha de Sócrates mas, para mim, é uma escolha que vai reduzir a votação no PS nas eleições europeias. O que é uma pena e também faz aumentar o receio de desagregação da União Europeia (EU).
Porque, ao contrário do que me parece indispensável, que é o aprofundamento da união económica, o esforço para a democratização da EU com uma maior participação dos cidadãos e dos países nas decisões colectivas, reforçando os poderes do Parlamento Europeu, mantendo a equidade para todos os países, grandes ou pequenos, este tipo de atitudes, de directórios decisórios, de textos, alianças e tratados não compreensíveis para os cidadãos, como que legitimando uma vanguarda esclarecida de visionários europeus, pode conduzir a uma desconfiança e a uma resposta contrárias da parte dos comuns eleitores.
Tal como Maria João Rodrigues afirma, numa entrevista ao Público (pág.5), é necessário que se trave (…) o proteccionismo nacional, que seria uma catástrofe porque destruiria o mercado interno e a união monetária, só temos uma saída, que é uma resposta a nível europeu para proteger os interesses das empresas e dos cidadãos europeus (...). Em termos de actuação concreta, Maria João Rodrigues adianta (…) decidir que se vai expandir a despesa pública para estimular o crescimento da economia (…). De forma clara e colectiva (…); outra medida concreta, justificada pelas margens diferentes que os países têm para implementar os seus programas de estímulo económico, pois ao aumentarem o défice e a dívida o fazem com taxas de juro muito elevadas (…) lançar um instrumento que ainda não existe e que são os eurobonds (títulos de dívida europeus) (…).
Maria João Rodrigues chama ainda a atenção para o facto de ser do interesse da Alemanha optar pela solidariedade pois, se o não fizer (…) vai ficar rodeada por regiões em depressão que vão puxar a economia alemã ainda mais para baixo. (…) E mais (…) É preciso estabelecer uma regra mínima segundo a qual se um governo apoia empresas localizadas no seu país, vai ter de apoiar as suas filiais onde quer que elas se encontrem. (…).
Esta deveria ser uma época de respeito por tudo o que possa aumentar as tensões centrífugas na EU. A forma como o Tratado de Lisboa tem sido empurrado para ser engolido de qualquer maneira pelos estados-membros, não augura nada de bom.
Vital Moreira é um universitário brilhante, atento à realidade e sempre disponível para o debate. A sua intervenção política foi pautada por causas, não lhe dando benefício mas talvez até prejuízos, o que abona em favor do seu carácter.
ResponderEliminarQuanto ao referendo, a triste soma de resultados dos que houve diz, por si só, do alheamento do povo e sua "utilidade". E no caso do IVG até era bem familiar o tema para os eleitores. Mesmo assim, poucos foram às urnas.
Mas a minha oposição ao uso do referendo, Sofia, vem de mais longe. É um recurso de ditadores ou de governos autoritários. De Gaulle recorreu várias vezes ao referendo para cilindrar a Oposição. Por exemplo. Não cabe chamar à colação a Suíça, porque o sistema é completamente diferente, desde logo com todos os partidos no Governo.
Quanto ao problema do proteccionismo, estou completamente de acordo.
Ernestina, o uso de referendos não pode nunca ser comparada a uma prática ditatorial, visto que é uma das formas de exercício de democracia directa. Os referendos podem ser instrumentalizáveis, mas tudo pode ser, inclusivamente as eleições, mesmo em países com pluralismo de informação. Mas isso é outra coisa completamente diferente. O alheamento do povo é uma consequência directa das promessas eleitorais não cumpridas, que acontece com referendos e outras formas de participação democrática.
EliminarSofia, não digo que o referendo seja antidemocrático, mas é muito redutor e passível de manipulação.
EliminarPor exemplo, um referendo sim/não à Europa anularia as diferenças existentes nos partidários de uma e de outra opção, mais entre os ´pró-europeus . As coisas raramente são a preto e branco.
O referendo diminui os parlamentos, que , bem ou mal, ainda são o cerne do sistema democrático. E é mais manipulável do que a eleição. Não me esqueço de vergonhosos argumentos no referendo sobre a regionalização.
As razões da abstenção são, a meu ver, várias e diversificadas. Incluo, o que raramente se faz, a não exigência de cumprimento de deveres ao cidadão. Só lhes falam de direitos e nunca de obrigações.
Muitos não tardarão a arrepender-se de em falta de consciência critica, apostarem num falso Messias pretenso salvador da pátria.
ResponderEliminarQuando já pensava ter lido tantos disparates, eis quando leio esta tirada "uso do referendo, Sofia, vem de mais longe. É um recurso de ditadores ou de governos autoritários" extraordinário
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