A crise instalou-se mais nos nossos hábitos e consciências do que na nossa realidade, pelo menos naqueles que, como eu, são privilegiados.
Em vez dos lamentos e dos agoiros, dos sustos e dos discursos, deveríamos perguntar-nos o que poderá cada um de nós fazer para que os serviços públicos sejam melhores e mais eficientes, para que usemos mas não abusemos do estado, para que o nosso esforço possa dar oportunidade a quem ainda a não teve. Em vez de olharmos as nossas supérfluas necessidades como essenciais, deveríamos perguntar-nos como poderemos empregar esses recursos em prol de quem luta todos os dias para ter o mínimo.
Tanta roupa dentro dos armários, tantos sapatos, malas, agasalhos, tantos telemóveis que se substituíram porque há uns que fazem mais um trilião de coisas que desconhecemos e nunca vamos usar, tantos brinquedos amontoados com que ninguém brinca, tantos papéis, tantos sacos, tanta gasolina desperdiçada, tantos doces, tantas lautas refeições que nos amolecem e aumentam, à volta das quais tecemos aturados comentários sobre a crise que aí vem.
Estamos em crise dentro de nós próprios porque não vemos aqueles que precisam ser vistos, nem usamos a nossa sorte para melhorar a sorte daqueles que a não têm. E esta é uma crise que não tem dimensão nem previsão de término.
De acordo, desde que não se trate de brincar à caridadezinha, para descanso das consciências (tranquilas...)
ResponderEliminarDeixaste-me a pensar. Fiquei até um pouco deprimida ao recordar as lautas refeições que protagonizámos aqui em casa enquanto, exactamente como referes, discutíamos a crise.
ResponderEliminarContudo, pese embora o exagero de comida, de agasalhos, de calçado, de.... que admito que, porque sou privilegiada possuo, não sei de que forma posso reverter essa crise interior de que falas; essa que está aqui em nós. Porque eu até vejo o que me rodeia, até procuro intervir (não me estou a referir a gestos fortuitos de caridadezinha tão comuns nesta quadra)e, no entanto, ainda não encontrei forma que me satisfaça.
Vou continuando a tentar...
nem mais! a crise é realmente interna e é dentro de cada um de nós que se encontra a saída.
ResponderEliminarNão estará a exagerar, Sofia ? (Como sou um "pessimista antropológico fundamental" posso dar-me a este pequeno luxo de pensar, às vezes, que as coisas não são assim tão más...).
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ResponderEliminarA Sofia é um enorme coração
e eu acredito que também em 2009
continue a ousar
rasgar marés contra todos os destinos improváveis
Bom ano
Obrigada a todos pelos comentários, talvez um pouco romanticamente exagerados...
ResponderEliminarTudo menos caridade, zinha ou outra. Penso que o Estado tem obrigações e deveres e nós, para além dos impostos que devemos pagar, continuamos a ter obrigações e deveres para com os nossos concidadãos. Mas descansamos em várias desculpas que não são mais do que justificações para a nossa preguiça e para o nosso egoísmo. Acho que vale a pena pensarmos nisso e arranjarmos uma forma de contribuir um pouco mais para a felicidade colectiva. Para ser politicamente correcta - dar faz bem à saúde!