07 setembro 2008

Barco Negro


poema de David Mourão Ferreira; música Caco Velho


canta Amália Rodrigues


 


De manhã, que medo, que me achasses feia!

Acordei, tremendo, deitada n'areia

Mas logo os teus olhos disseram que não,

E o sol penetrou no meu coração.


 


Vi depois, numa rocha, uma cruz,

E o teu barco negro dançava na luz

Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas

Dizem as velhas da praia, que não voltas:


 


São loucas! São loucas!


 


Eu sei, meu amor,

Que nem chegaste a partir,

Pois tudo, em meu redor,

Me diz qu'estás sempre comigo.


 


No vento que lança areia nos vidros;

Na água que canta, no fogo mortiço;

No calor do leito, nos bancos vazios;

Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

10 comentários:

  1. Isto é belíssimo! Já gostava, mas hoje, ao ler, ao recordar a voz de Amália, deu-me um arrepio...
    Só posso mesmo estar a ficar velha. Antes não me aconteciam destas coisas. Gostava, ou não gostava. Não arrepiava.

    Beijos, muitos. Uma boa semana.

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    1. Mesmo para quem não acredita em Deus, há alguns toques de divindade, nalgumas pessoas.

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  2. Só foi pena não nos "dar" o vídeo (existirá ? ...

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    1. Desculpe o meu engano, Sofia. Como não estou habituado a usar links como a Sofia constantemente faz, não me dei conta de que o Amália a encarnado remetia para o vídeo. Agora fui relê-la e dei-me conta da minha estupidez. As minhas desculpas...

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    2. De facto o link está um pouco discreto, José Carlos. Mas ainda bem que o descobriu.

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  3. Assinalo o seu apelido.E a sua cultura.Não espanta!...
    O "Barco Negro"é a versão POLITICAMENTE correcta da canção "Mãe Preta",não sei se de autor português ou brasileiro,banida da Rádio Oficial (pelo menos...)Lembro um pedaço,exemplar do "caldo"do original:
    "Enquanto na sanzala
    Pai João apanhava
    Mãe Preta embalava
    O filho branco do Senhor"...

    Melhores cumprimentos...

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    1. Não sabia que "Barco Negro" era uma versão politicamente correcta de "Mãe Preta". Obrigada pela informação. Fica aqui a letra toda (penso que de Piratini):

      Mãe Preta

      Pele encarquilhada carapinha branca
      Gandôla de renda caindo na anca
      Embalando o berço do filho do sinhô
      Que há pouco tempo a sinhá ganhou

      Era assim que mãe preta fazia
      criava todo o branco com muita alegria
      Porém lá na sanzala o seu pretinho apanhava
      Mãe preta mais uma lágrima enxugava

      Mãe preta, mãe preta

      Enquanto a chibata batia no seu amor
      Mãe preta embalava o filho branco do sinhô
      (Piratini/Caco Velho)

      Só encontrei uma versão de Dulce Pontes:
      http://www.youtube.com/watch?v=ZAGudZOwIpY

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    2. Afinal a minha lembrança da "Mãe Preta"era mais ténue do que eu pensava...Mas recordo bem o facto da "transformação"no "Barco Negro".E se tivesse a perspicácia de José Alberto (36,boa colheita...)teria visto que o nome do autor (Caco Velho...)já constava do seu "post"e já o conhecia.Lapso momentâneo.

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  4. E aqui estou eu,outra vez,não para falar do Barco Negro,mas,habilidosamente,porque não consegui entrar nos "comentários"a outro "post"seu em que fala em "momentos de divindade",para acrescentar algo ao tema,que por estes dias também aflorei:
    O facto de se não acreditar no "Deus barbudo,vigiando-nos,e às folhas das árvores de cenho carregado"não exclui momentos(fugazes...)de contacto com a "divindade"."latu sensu"Que pode ir de coisas tão simples como "A valsinha",do Xico Buarque,como certas passagens,nos agudos,da parte coral da 9ªsinfonia.
    E ele há coisas...Você informa de uma versão do Barco Negro por Dulce Pontes.E eu tenho,em fundo,Dulce Pontes,tão maltratada pela nossa rádio,que só "passa" dela "cantiguinhas de ir à erva"...
    E tem,por exemplo,um dueto com Waldemar Bastos,dos tais que "cortam a respiração"...

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    1. Concordo consigo, Sivispacem , há momentos em que se toca uma qualquer divindade, na música, na poesia, no cinema, na pintura, na arquitectura, na descoberta de qualquer partícula cósmica ou se uma característica celular. Dulce Pontes não tem sido muito bem tratada no nosso burgo.

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