06 junho 2008

Regresso a casa

Sinto sempre uma desconfiança instintiva quando ouço falar de políticas de apoio à natalidade e à maternidade. Arrepio-me de cada vez que se enaltecem as qualidades das mulheres que cuidam dos seus rebentos, que quereriam estar em casa 6 meses, 8 meses, 12 meses, para amamentarem, para darem papas e banhos e para assistirem ao gatinhar, ao rir, ao andar dos seus rebentos.




Estranho a enorme quantidade de consultas a que têm que ir acompanhadas dos respectivos companheiros, quer eles queiram quer não, esperando horas infinitas para poderem ouvir os dois que o feto ainda na barriga da mãe tem que ter a companhia do pai, o amor, o apoio, enfim, toda aquela retórica que acompanha o amor e a educação primorosa que nos ensinam que é a correcta e única possível.




É claro que acho muitíssimo bem que quem quiser fique em casa a cuidar dos filhos. O que me parece é que, encapotada e subliminarmente, se vai fazendo de novo uma lavagem ao cérebro da sociedade ensinando às mulheres que a sua função primordial é procriar, amamentar e acompanhar os filhos, e que só o não fazem por razões económicas.




Se o tempo gozado em licença de maternidade fosse dividido entre o pai e a mãe, ambos teriam oportunidade de acompanhar os filhos e de prosseguirem as suas careiras profissionais. A coberto de um grande apoio social à família e à mulher, empurra-se de novo o género feminino para a sua função reprodutora, esquecendo que as mulheres são maioritárias no desemprego em geral e no desemprego de longa duração, em particular.




As políticas de apoio à natalidade deveriam ser igualitárias, com a existência de creches na proximidade dos locais de trabalho, horários em part-time, teletrabalho, tudo o que facilite a vida de quem tem filhos, mas em pé de igualdade para ambos os sexos. Em vez de se insistir para que os homens ajudem e acompanhem a gravidez das mulheres como uma obrigação, por vezes ridícula e sem justificação, olhando quem não o faz como um machista sem remédio, seria melhor que se insistisse na necessidade de os homens ficarem em casa metade da licença de parto, no acompanhamento dos filhos ao médico e aos infantários, na facilidade com que os podem alimentar, exactamente da mesma forma que as mães. E não condenar as mães que optam por dar biberão, que querem regressar ao trabalho rapidamente após o nascimento da criança, que também gostam de beber um copo com amigos ou colegas de trabalho ao fim da tarde, que adoram a sua independência económica, que não gostam de ficar em casa. Não são piores mães por isso.




E também se pode ter liberdade de escolher não ter filhos.




Depois da revolução da pílula, da conquista da independência económica e da realização profissional, a sociedade parece quer fazer sentir de novo que as mulheres têm uma obrigação imperiosa, da qual depende até a sobrevivência da espécie, de regressar a casa.


 


 


(Nota: este texto foi hoje publicado no Corta-fitas, respondendo a um amável convite do Pedro Correia. Espero que os corta-fiteiros não se desiludam. Obrigada.)

31 comentários:

  1. Com que então, convidada para o Corta-fitas ! que honra...

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    1. É, mas maior honra é ter leitores e comentadores tão assíduos.

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  2. Pelo que sei, as mulheres em Portugal têm toda a liberdade de não ter filhos.
    Até talvez sejam beneficiadas em termos de carreira profissional.
    E porquê não compensar economicamente as mulheres que se dedicam a cuidar dos filhos?
    Não se lhes pode ser facultada essa hipótese?
    Não podem ter liberdade para escolher esse caminho?
    Isto de impôr determinadas condutas supostamente "evoluídas" não é arcaísmo totalitário?
    A questão é muito simples: quem não quiser ter filhos, não tem; quem quiser ter filhos e trabalhar, tem esse direito; quem quiser ter filhos e ficar em casa, deve ter esse direito.
    Ou haverá alguma vanguarda iluminada que imponha as condutas às mulheres tipo estado totalitário e concentracionário?

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    1. A única coisa que quero realçar é que ter filhos não é uma obrigação pessoal nem social e que, com as melhores intenções de apoio à mãe, nunca e curiosamente ao pai, se via empurrando as mulheres a escolher, por motivos económicos e não por escolha própria, para o lar. Se osátiro tiver uma empresa emprega com mais facilidade uma mulher ou um homem, ambos em idade casadoira e reprodutora? Estaria disposto a deixar um empregado a gozar 3 meses de paternidade ? Ou prefere empregar homens e deixar as mulheres terem 6 meses de licença de maternidade?

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    2. Obrigada, Sátiro. Mulher, mãe, filha, de matriarcado antigo. Defendo que somos diferentes. Só nós engravidamos. Só nós temos disparos de ocitocinas que nos fazem ter voz de desenho animado quando vemos um bebé, gato, pinto ou humano. Somos nós que no limite ficamos com os filhos. Semana com a mãe, fim de semana com o pai. 6 dias com trabalho, a casa e os filhos. O homem fica com eles 2 dias, enquanto a mãe dá um jeito à casa, às unhas, à alma. Por isso o nosso organismo protege tão bem o sistema reprodutivo, transformando em celulite as toxinas nocivas a uma eventual gravidez. Visão periférica, intuição, instinto protector... Sim, quero poder optar. Ficar 3 anos a acompanhar os passos do meu filho. Desistir de uma carreira. Combinar carreira, filhos, marido, casa, ser boa mãe, ser boa mulher, na rua e na cama, manter-me eternamente bela e desejada pelo meu homem, saber cozinhar, saber receber, manter-me informada e interessante, não estar um caco à noite e não me doer nunca a cabeça. Opto sim. Opto por não ser a super mulher com todos esses atributos. Opto por aquilo que me faz feliz. Afinal tenho esse direito. Sou mulher, sou eu que engravido, sou eu que aborto, sou eu que tomo a pílula e que menstruo. Sou eu que mando na minha vida, nem que para isso tenha que abrir mão de alguma/muita coisa. E para isso existe uma coisa chamada Impostos. Para que esteja coberta qualquer que seja a minha opção. Não é preciso filhos, para poderem pagar as nossas reformas? Prefiro a Cidadania ao Feminismo. Sou pessoa antes de ser mulher, e sou mulher antes de ser pessoa. Somos um caso bicudo, por isso é que acasalamos de quando em vez.

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    3. Anónimo (a): Os homens e as mulheres são diferentes e ainda bem que o são. Mas as suas responsabilidades na educação dos filhos e as suas ambições e liberdades de escolha deverão ser as mesmas. Por isso não defendo a homogeneização de coisa nenhuma, apenas que deixem quem quer fazer o que quer, sem que, à partida, lhe seja atribuído um papel estrito e "natural". Isto não é feminismo, é cidadania.

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  3. Cheguei aqui através do Corta-Fitas e gostei muito do que vi, e em especial deste último post. Finalmente alguém sente o que eu sinto, e que o conseguiu explicar.
    Revejo-me completamente neste post, e em especial com a última parte. Faz parte da minha opção de vida não ter filhos, e quando alguém se apercebe disso, pois eu não o escondo, fica a olhar para mim como se eu tivesse acabado ter aterrado aqui na Terra...
    Parabéns!!

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    1. Obrigada mac . Acho que há muitas mulheres a recearem o mesmo.

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  4. A honra foi toda nossa, Sofia.

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  5. Excelente texto.
    Lamentavelmente caminhamos para uma situação em que o problema não é poder ter a liberdade de escolher, entre ter ou não ter filhos, mas de sim de poder ter a liberdade de poder escolher.

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  6. Sofia, respondi do outro lado. Obrigada. Muito obrigada.

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    1. Eu é que agradeço Isabela . É bom sabermos que não estamos sós. Quanto às bocas ridícula, ficam com quem as manda.

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  7. Aplaudo com ressalvas.
    Descobri (da maneira menos inteligente possível) que isso não acontece mais (a partilha de deveres) porque a maioria dos homens não está para isso. Não é machismo. É preguiça e egoísmo puro.
    E, como alguém tem de assumir, que dêem mais direitos às mães. Um dos que deveria ser completamente obrigatório era a custódia partilhada no divórcio. Uma vez isso instituído, o pai ao recusar já se pode ver corrido a insultos, completamente impossível a velha desculpa "ela não me deixa passar mais tempo com eles".

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    1. Clara, dar mais direitos às mães é tratá-las em pé de igualdade com os homens. Os filhos não são uma fatalidade nem uma obrigação das mulheres.

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    2. Uma fatalidade não são.

      São sim uma obrigação dos adultos que não se demitem deles (a maior parte das vezes, das mulheres) .

      A lei contempla, para pai parent ) que não detém custódia, Dever de provir sustento (caso necessário) e Direito de visita. A Lei defende-se a ela própria (e muito bem), não convém à Lei que existam crianças indigentes pois isso obrigaria a uma intervenção própria da Lei para prover essas crianças. Mas é indiferente à Lei se os pais se demitem da função de educar ou não, desde que haja um adulto que a cumpra.
      Ou seja, não é do âmbito da Lei responsabilizar adultos por mais do que questões materiais, que é onde ela pode intervir, questões morais não lhe podem ser imputadas, ou viveríamos num estado policial.
      Neste aspecto concordo com a Lei.
      Não posso concordar é que a própria Sociedade Civil não seja mais recriminatória dos comportamentos demissionários dos pais, ao passo que crucifica as mães que fazem o mesmo.

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    3. Clara, o meu post não tem a ver com a demissão dos deveres paternais, que existe em muitas situações. O que eu pretendia era alertar para uma lenta reviravolta naquilo que a sociedade vê e sente ser o papel da mulher. E é bem verdade o que diz sobre a recriminação social das mulheres e dos homens em relação à educação dos filhos: também é discriminatória.

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    4. cristina00:56

      Porreiro pá, ora aí está uma maneira de institucionalizar a guarda partilhada com a sogra. (ou acha que é mesmo o pai que vai tomar conta da criancinha?)

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  8. farta de dizer o mesmo. não quero um governo que me empurre para fora do mercado em nome da natalidade, quero um governo que me ajude efectivamente a criar os filhos que eu quero ter sem me obrigar a perder o comboio do mercado de trabalho e da carreira profissional.

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  9. TragédiaGeek09:05

    Totalmente de acordo com o seu texto Sofia e já agora, o meu marido também. Quando tive os meus filhos ele teria dado tudo para ficar algum tempo com eles em casa mas a lei negou-lhe essa possibilidade. Isso é uma grande injustiça. Para além do que já mencionou no seu texto, a lei tal como é, descrimina o pai.
    Sei bem, que sendo a lei igualitária, continuaria a ser a mulher, na maioria dos casos, a gozar a totalidade da licença de parto, e nada tenho contra isso. É o direito à escolha que é importante.

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    1. Obrigada, TragédiaGeek , por realçar a injustiça intrínseca a estas situações, com a menorização do papel dos pais.

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  10. Lucas09:48

    Vai por aí muita confusão no que respeita a CULTURA/NATUREZA.
    Aconselho uma aulas de Estudos Culturais.

    A propósito, ocorre-me agora uma situação próxima que, por suscitar muita estranheza junto do género feminino, obrigou a que um educador de infância tivesse sido (quase forçado) a abandonar a sua função no Jardim de Infância para ocupar o lugar alternativo de assessor do Conselho Executivo de um Agrupamento de Escolas.
    A vossa primeira cruzada terá, assim, de se dirigir a vocês mesmas, penso eu de que!

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    1. Lucas, não percebo o seu comentário, não entendo em que é que a situação que descreveu tem a ver com o meu post , nem estou numa cruzada.

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    2. Anónimo12:41

      Com efeito, é para se ler nas entrelinhas!

      Parece uma nota muito marginal face ao post, mas se conseguir juntar as pontas chega lá.

      Lucas

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    3. A.Teixeira15:36

      Lucas, você dá conselhos a quem não os pediu, escreve em linguagem críptica e não facilita, nem dá explicações; vê-se que você é Boooom!!!!!!!!

      O Mourinho ainda não ouviu falar de si?...

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    4. Anónimo23:20

      special one

      Homem de um só parecer,
      de um só rosto e de uma fé,
      de antes quebrar que volver
      outra coisa pode ser
      mas deste quadrado não é!

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    5. A.Teixeira10:03

      Dizia o Lucas: Que qualidade!!!
      Diz o leitor: Que prosa oca!
      Após o "banho da realidade",
      vai-te ó "Mourinho" e fecha a boca!

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  11. Eu estou completamente de acordo com o texto. Até gostaria de o ter escrito. :-) E acho que uma política de apoio á natalidade faz muita falta, dada a evolução demográfica do país, mas tal com a Sofia as descreve. Já agora, acrescento que a política do território, ambiental e dos transportes também devem ser chamadas aqui. Mas claro que ninguém tem a obrigação de ter crianças, era o que faltava...

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