31 maio 2008

Manipulações

Todos falam de crispação social e de instabilidade, de aumento da crise e do fosso entre ricos e pobres, assistindo-se, nos últimos dias, a declarações do Presidente da República, de Mário Soares, de Paulo Portas, de Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite e de Manuel Alegre (que decidiu que era no PCP e no BE que haveria força para responder a esses desafios) que, pelo que se propagandeia na comunicação social, estão a piorar.


 


Mas ao contrário do que se está a fazer passar aos cidadãos a situação não está a piorar mas sim a melhorar, pouco, pouco, mas a melhorar. E isto não significa que o problema não seja enorme e que se não devam procurar outras e melhores formas de distribuir a riqueza, de apoiar os sectores em maior risco, de investir, como está agora no programa de todos os partidos políticos, mas pelos vistos só agora, em políticas sociais.


 


Trata-se apenas de desmontar o alarmismo e a crispação que se estão a criar. Apesar de haver relatórios e estatísticas que os desmintam, nada faz desistir quem apostou em defender o catastrofismo instalado.


 


A luta política está já noutros campos. Neste momento os grandes actores das agendas políticas são os jornalistas. Não é de agora, nem é nenhuma surpresa, mas é cada vez mais avassalador e assustador.


 


Gostaria de saber exactamente quais as soluções que Manuel Alegre preconiza para melhorar as políticas sociais e para reduzir as desigualdades. O quê, de que forma, que políticas, mas isso no concreto e explicando como e quais as consequências. Talvez se o partido apoiasse os ministros verdadeiramente reformadores, como os da Educação e da Saúde (que saiu), por exemplo, talvez houvesse lugar a reformar aquilo que de essencial há nas funções assistenciais do Estado. Ou será que se está a preparar a hipótese de ausência de maioria absoluta (do PS) nas próximas eleições alisando o terreno para uma coligação à esquerda?


 


Ideias e idealismo não existem. Existe a lógica da repartição de lugares por quem tem estado afastado do poder. E essa lógica está a condicionar os partidos à direita mas principalmente dentro do próprio PS, mesmo daqueles que, ao longo do tempo, têm lutado pela abertura da intervenção política à sociedade civil.

12 comentários:

  1. Mas o que é que é, em seu entender, a "sociedade civil" ?

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  2. No meu entender a sociedade civil é o conjunto dos cidadãos, que poderão (e deverão) intervir civicamente organizados em partidos, associações ou individualmente . A forma com Manuel Alegre e a maior parte das pessoas utiliza o termo refere-se ao conjunto de cidadãos que não estão organizados em partidos políticos.

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    1. Concordo com a distinção que estabelece entre a sua maneira de entender a sociedade civil e a maneira como Manuel Alegre e a maior parte das pessoas a entende. De resto, os autores que se debruçaram sobre a questão não são todos da mesma opinião. Assim sem pensar muito (e pondo de parte o quase um século que os separa), Gramsci e Boaventura de Sousa Santos não falam exactamente do mesmo ao usarem a mesma expressão. Para si, se bem a entendo, tudo o que não é Estado é sociedade civil. Para outros (e nunca discuti isto com o Manuel Alegre, de modo que não sei se é esta a posição dele), a linha divisória passa entre o Estado mais os partidos com assento parlamentar, que são parcialmente financiados pelo próprio Estado e são dotados de estruturas (aparelhos) fortemente institucionalizados e o resto da sociedade (incluindo sindicatos e outros movimentos sociais).
      Para mim, que sou adepto (sem pretender abolir os partidos, como é óbvio) de uma democracia fortemente participativa, directa tanto quanto possível, de novos movimentos sociais, eventualmente efémeros, em suma de tudo o que envolva o empenhamento dos cidadãos, já está a ver por onde passa a minha linha divisória.
      Desculpe a extensão, mas citando já não sei bem quem, não tive tempo para fazer mais curto (o cansaço também não ajudou).
      Disponha sempre.
      :))

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    2. Obrigada, Transdesciplinar . O problema é que a referência à sociedade civil tem sido feita em contraponto aos partidos e aos políticos, o que me parece errado e perigoso. Ou seja, aquilo que se pretende, que é uma maior participação cívica, acaba por redundar em demagogia contra os políticos.

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    3. Isso é que foi uma resposta rápida! Felizmente que eu voltei logo ao computador.
      Percebo a sua preocupação (Já agora trate-me por José-Carlos ). Esse contraponto é de facto errado e perigoso. E meter todos no mesmo saco é péssimo. Mas concordará que temos assistido (veja-se o PSD, que é o que está agora mais à mão) a espectáculos indecorosos. Que se não faça demagogia contra os políticos acho bem. Mas também acharia bem que não existissem monopólios (ou oligopólios) para os membros e amigos dos aparelhos partidários. E, já agora, que o próprio Estado propiciasse o florescer de novos movimentos sociais, temáticos, eventualmente transpartidários (isto é o meu amor pelos trans ...). Chame-lhes transversais, se preferir ; desde que não monolíticos. Talvez assim haja mais gente interessada na e pela política (da polis).
      :))

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    4. José Carlos
      Concordo consigo que temos assistido a momentos, demasiados momentos, indecorosos, dos representantes do PSD e não só. Mas o Estado a propiciar o florescimento de movimentos de cidadãos? Como? Não deveriam ser os próprios cidadãos a associarem-se, independentemente dos apoios estatais?

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    5. Sofia,
      Decididamente esta troca eterniza-se. Quando digo Estado não estou necessariamente a pensar em Governo. Que tal autarquias (Câmaras e Juntas de Freguesia) ? Não são elas que estão mais próximas dos cidadãos ? Não podem pôr problemas à discussão e fornecerem salas para as reuniões ? Não podem fornecer meios tão simples como fotocópias ou transportes ? E se um grupo tomar a iniciativa não podem na mesma fornecer esses apoios (não estou a pensar só nesses, há muitos outros ). Ou seja : dar apoio logístico sem pedir contrapartidas partidárias.
      Sou constantemente bombardeado com SMSs do P.S. com convites para os mais diversos eventos. Que tal pôr uns telemóveis à disposição de grupos de cidadãos para facilitar convocatórias para reuniões e para transmitir notícias ? E mesmo no plano nacional : porque é que os partidos têm o monopólio das coisas do tipo Estados Gerais (e dos respectivos convites) ? Que a democracia representativa tenha o exclusivo do poder de legislar acho muito bem. Mas porque não pôr um tema em discussão pública e abrir uma lista de inscrições (sujeitas a critérios, como é óbvio) fornecendo a logística necessária ?
      Poderia continuar a dar exemplos. Mas acho que estes já chegam para dar uma ideia do que eu quero dizer.

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    6. Tem razão. Estava a pensar em governo. Tem toda a razão.

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    7. Ora ainda bem que nos entendemos.
      Com toda a estima ,

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    8. Isto saiu impresso duma forma esquisitíssima. Não percebo. Fiz o que sempre faço. Decididamente tenho uma guerrilha surda com estes bichos...
      Já agora um pedido prático : como é que mete links nos posts ?

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  3. impaciente16:05

    A "lógica de repartição de lugares" é a única razão de existência da política!
    Se não existisse não existiam políticos, o que seria um alívio para os bolsos do cidadão que os sustenta.

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  4. Que boa troca! Gostei de ler.
    :)

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