02 setembro 2007

Triste Festa

De novo a Festa do Avante, de novo as FARC. De novo?

A Festa do Avante, há muitos anos, teve um papel relevante na divulgação de determinado tipo de cultura e de um ideal de sociedade que, no Portugal do pós 25 de Abril, era aceite como a terra prometida da liberdade, da democracia, da igualdade, da felicidade a que todos poderíamos aceder.

Como fomos descobrindo, mais ou menos dolorosamente, essa utopia baseava-se numa realidade bem diversa, em que as perseguições políticas, a censura, o atraso no desenvolvimento tecnológico criou uma sociedade de uma imensa maioria de tolhidos, revoltados, pobres e excluídos, e uma escassíssima minoria de privilegiados, ditadores e corruptos, tal como em todos os estados ditatoriais.

Por ser um regime fundamentado na ideologia socialista, de esquerda, a mesma esquerda política ainda hoje tem alguma dificuldade em descolar da depressão que se seguiu à queda do muro, à exposição do engano e à desilusão.

Só assim se compreende a retórica de algumas pessoas bem intencionadas mas presas de um passado que não volta mais. E não me estou a referir aos dirigentes dos partidos políticos que acabam por ser cúmplices de indiscutíveis e indesculpáveis atentados à liberdade e à democracia, como é a manutenção de desculpas ridículas sobre a natureza das FARC, convidadas da Festa do Avante, ou o permanente elogio do regime cubano e seus amigos.

É muito triste que o debate ideológico esteja preso a cumplicidades que não se entendem, e que conspurcam à partida a boa fé de quem argumenta.

Entretanto, Putin soma, segue e continua. Tudo é nebuloso e escuso, jornalistas assassinados, envenenamentos de contornos pouco precisos, livros à medida da mentira e da manutenção da censura.

A Festa do Avante transformou-se numa caricatura de si mesma.

Adenda: ler também O PCP, os ditadores e o anti-comunismo, e A desonestidade política do PCP.

15 comentários:

  1. Donagata23:32

    É verdade, concordo absolutamente. E com que pena o digo!

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  2. Respeito, mas não subscrevo o post, porque o considero redutor.
    Nesta como noutra áreas continuo a ter por companheira a dúvida.
    Não será cómodo mas é, sem dúvida, muito mais estimulante.

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  3. Sofia Loureiro dos Santos20:54

    Obrigada à Dona Gata e ao JRD pelos comentários.
    JRD, se entende por redutor o facto de o texto ser sintético e superficial, tem obviamente razão; se pretende sugerir que é redutor pois se centra na análise de uma certa esquerda, já não concordo. Pois as ditaduras são muito semelhantes, à esquerda e à direita e, neste particular assunto, eu estava a falar do PCP, dos seus companheiros e da Festa do Avante. Qual a dúvida metódica que devemos manter?

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  4. Sofia:
    Não considero o texto superficial e reconheço-lhe toda a legitimidade, apenas não me identifico com ele.
    O que considero redutor é que , salvo melhor opinião, terá um registo simétrico, ainda que de sinal contrário, ao que se lhe opõe e que, obviamente, também classifico de redutor.
    Cumprimentos

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  5. impaciente22:30

    Creio que a Festa do Avante é profundamente actual!
    Tão actual quanto as festas dos druídas que, na Irlanda, retomam as cerimónias que o tempo enterrou... há séculos.
    "Ver para descrer", citando Júlio Pomar.

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  6. Mar Arável00:14

    Apesar do respeito na diferença
    que a Sofia me merece como intelectual de grandes méritos poéticos e que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente no lançamento do seu último livro -
    e com prazer - recordo que a forma e o conteudo como se expressou neste post não precisariam do 25 de Abril para serem expressas -
    - e depois se me permite -
    na minha modesta opinião as verdades absolutas são sempre duvidosas a menos que estejamos no domínio do religioso.
    Como sabe - na vida e no sonho -
    a questão essencial não se resume a constatar contradições -
    mas em resolvê-las - não por fé mas por convicções
    Não me tire esse direito de sonhar

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  7. Sofia Loureiro dos Santos19:32

    Mais uma vez agradeço os comentários.
    Mar Arável, a diferença entre as pessoas torna interessante estas conversas. Mas não percebo muito bem a sua evocação do 25 de Abril. A liberdade que a revolução nos trouxe é para podermos expressar todas as opiniões. E depois, a única verdade que aqui estou a professar é o entendimento do que é, precisamente, a liberdade.
    Impaciente, na verdade vejo hoje a Festa do Avante como uma comemoração anacrónia de um mito já desfeito.

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  8. Anónimo19:45

    Já cá Faltava… O SILÊNCIO ENSURDECEDOR
    Registe-se o SILÊNCIO ENSURDECEDOR da esmagadora maioria dos blogues defensores da democracia voluntariamente apanhados pelo fenómeno do “El Niño colombiano”.
    1. Nem uma palavra sobre as dezenas de milhar de colombianos assassinados às mãos dos grupos para-militares de direita e de extrema-direita.
    2. Nem uma palavra sobre os candidatos presidenciais assassinados de uma forma bárbara.
    3. Nem uma palavra sobre os presidentes de câmara eleitos mortos.
    4. Nem uma palavra sobre os autarcas eleitos assassinados.
    5. Nem uma palavra sobre os dirigentes sindicais mortos.
    6. Nem uma palavra sobre os sindicalistas assassinados.
    7. Nem uma palavra sobre os dirigentes camponeses mortos.
    8. Nem uma palavra sobre os dirigentes de associações e movimentos de cidadãos assassinados.
    9. Nem uma palavra sobre os activistas do Partido Comunista Colombiano, de outros partidos e movimentos de esquerda e democráticos mortos.
    10. OBJECTIVAMENTE, e sublinho OBJECTIVAMENTE, estamos perante a concepção proto fascista de que «todo o comunista (ou democrata) morto é um bom comunista (ou democrata)».
    11. Estamos todos mais esclarecidos…
    http://ocastendo.blogs.sapo.pt/42219.html

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  9. alexandrina guerreiro21:57

    Não vos fazia nada mal lerem os dois artigos abaixo indicados. Sempre era uma forma de deixarem de pensar que todo o problema da Colômbia são as FARC. No que eu já não tenho esperança é que vocês tenham pena e solidariedade com os milhares de mortos como têm com a Ingrid que felizmente parece estar viva.

    Em http://www.monde-diplomatique.fr/2005/05/CEPEDA_CASTRO/12196

    VIE ET MORT DE L’UNION PATRIOTIQUE
    COMMENT DES MILLIERS DE MILITANTS ONT ÉTÉ LIQUIDÉS EN COLOMBIE

    En mai 1985, dans le cadre de négociations tentant d’apporter une solution au conflit armé dont souffre aujourd’hui encore la Colombie, naissait l’Union patriotique. L’extermination des membres de ce parti d’opposition explique en partie la durée et la cruauté de cette interminable tragédie : un contexte de démocratie formelle camouflant des techniques sophistiquées d’élimination systématique des opposants.


    artigo de Iván Cepeda Castro (Chercheur en droits humains et droit humanitaire ; membre de la Fondation Manuel Cepeda-Vargas) e de Claudia Girón Ortiz (Chercheur en droits humains et droit humanitaire ; membre de la Fondation Manuel Cepeda-Vargas).


    e aqui em http://www.monde-diplomatique.fr/2005/10/GUTIERREZ_M_/12835

    LE CRIME ÉLEVÉ AU RANG DE SYMBOLE NATIONAL

    IMPUNITÉ POUR LES PARAMILITAIRES COLOMBIENS


    L’usage systématique de la terreur caractérise la stratégie paramilitaire en Colombie. Violemment critiquée, y compris par les nations unies, la loi de justice et de paix, approuvée le 21 juin 2005 dans le cadre de la « démobilisation » des escadrons de la mort, offre à ceux-ci une quasi-impunité et permet à leurs chefs de conserver les biens accumulés par la spoliation et le narcotrafic. Démobilisation ou légalisation ?

    por Carlos Gutiérrez .

    Leiam e depois vejam bem o que é que dá mais vontade de vomitar.

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  10. Sofia Loureiro dos Santos22:05

    Alexandrina Guerreiro:
    Não me parece que alguém tenha dito que o maior problema da Colômbia são as FARC. Não percebo a sua desesperança nos pobres de espírito que, como eu, se indignam com o sequesrtro de Ingrid. Essa indignidade não é pior nem melhor que outras indignidades. Mas não desespere, pode ser que algum dia possamos ver a luz.

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  11. Mar Arável22:36

    CONFRADE SOFIA
    permita-me dizer-lhe que a sua poesia está cheia de mitos,utopias,amanhãs e até verdades absolutas caso existissem.Mas quando diz que está a "professar" "precisamente" a liberdade - fico inquieto.
    Referi o 25 de ABRIL porque o seu texto seria publicável no dia 24.

    Mais me preocupa a liberdade de expressão limitada no novo código
    penal - os 45mil docentes que não foram colocados - a gasolina que
    aumentou 7,8% em 3 meses - e até ,veja lá - um elemento da polícia do VATICANO que foi encontrado morto ,a tiro,na casa de banho do seu quartel.

    Obviamente continuarei a respeitar a nossa diferença

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  12. Anónimo21:50

    Assassinatos e terror
    Tribunal na Colômbia examina o papel das companhias petrolíferas
    por Deirdre Griswold [*]
    O mais notável na situação política colombiana não apenas o alto nível de violência patrocinada pelo governo contra as organizações populares e os seus líderes e sim o alto nível de valor e resistência que emana de um povo que se recusa a ser abatido ou intimidade, ainda que os assassinos mascarados cheguem pela calada da noite.

    Este valor e esta resistência forma expostos em Bogotá nos dias 3 e 4 de Agosto, quando uma sessão especial do Tribunal Permanente dos Povos ouviu testemunhos acerca do papel desempenhado pelas companhias petrolíferas europeias e estado-unidenses nas campanhas de terror contra os activistas sociais na Colômbia.

    Umas 800 pessoas, de Bogotá e de muitas áreas rurais, congregaram-se num auditório cedido pelo Sindicato dos Professores, onde se ouviram dolorosos testemunhos de parentes e amigos de activistas jovens e velhos que foram assassinados por falar sobre as condições nas suas comunidades.

    Alguns das testemunhas tentaram conter seu pranto enquanto relatavam como homens armados entravam à noite em busca dos seus maridos, filhos e irmãos, cujos corpos sem vida eram encontrados a seguir, muito frequentemente mostrando horríveis sinais de tortura.

    Por diversas vezes as testemunhas descreveram como o exército colombiano e a polícia local davam rédea solta aos "paras", alguns dos quais trabalham como guardas de segurança para as grandes companhias petrolíferas – a Occidental, a British Petroleum e a Repsol. E assinalaram directamente o governo do presidente Álvaro Uribe Vélez, que actualmente está a tentar desviar a ira popular pela reorganização do comando militar, muitos de cujos membros estiveram directamente implicados nos crimes juntamente com os paramilitares e os narcotraficantes.

    Três auto-carros cheios de habitantes de Arauca compareceram ao tribunal. Arauca é uma região a nordeste, muito risca em petróleo, fronteiriça à Venezuela, onde a violência foi particularmente feroz.

    A cara de Alirio Martínez, um camponês de Arauca que foi assassinado há três anos, sorria para o público de um gigantesco cartaz colocado sobre o estrado. Por trás dele viam-se outros camponeses segurando cartazes que diziam: "Arauca Vive", e "Continuamos a construir caminhos de liberdade".

    Num momento no programa, um grupo de meninas e meninos de Arauca, que estiveram pacientemente à espera durante todo o dia, teve a oportunidade de dançar com precisão e graça exuberante frente ao cartaz.

    A energia destes jovens mostrou que a campanha de terror contra a população local não conseguiu quebrar o seu espírito. Mesmo aquelas testemunhas que choraram quando fizeram os seus depoimentos acabavam bradando palavras-de-ordem de luta e optimismo.

    O assassinato de Alirio Martínez

    A execução de Alirio Martínez por soldados do governo na manhã de 5 de Agosto de 2004 foi só mais um dos horríveis crimes trazidos perante o tribunal, mas ilustra a base real do conflito sangrento na Colômbia, o qual perdura já por várias décadas.

    Segundo a evidência apresentada ao tribunal, Martínez, presidente da Asociación de Usuarios Campesinos de Arauca (ADUC), havia passado a noite na casa de um amigo no caminho de Caño Seco, no povoado de Saravena, a seguir a uma reunião com líderes de grupos civis que avaliavam a situação regional quanto aos direitos humanos e sociais.

    Também estiveram presentes à reunião o presidente da Asociación Nacional de Trabajadores de Hospitales y Clínicas (ANTHOC), Jorge Prieto Chapucero; Leonel Goyeneche Goyeneche e María Raquel Castro, ambos membros da Asociación de Maestros de Arauca e da Central Unida de Trabajadores (CUT); e Samuel Morales Flórez, presidente da CUT em Arauca.

    Cerca das cinco da manhã, tropas pertencentes ao grupo Revéis Pizarro, assinalados na Brigada 18 do Exército Nacional, entraram na casa ou teve lugar a reunião, cerca

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  13. carlos freitas10:55

    Como vê "eles" acham que não sabemos tudo e que as nossas opiniões são tomadas de animo leve e sem conhecimento da realidade. Dai a promoção da intoxicação e do atafulhamento das caixas de comentários com copy pastes intermináveis. Assim vai a força do PC. Fraca força acrescento eu.

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  14. jps_ventura@iuol.com17:09

    Pois foi triste, nem se viu nem se falou como "nos velhos tempos" .... mas fosse triste ou não, porque não foi mostrada nos meios de comunicação?
    Porque tanto branqueamento?
    Sociólogo confuso.

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  15. Anónimo14:18

    1.O PC da Colombia (o verdadeiro convidado) não veio com a revista das FARC (a unica coisa que poderia aparecer deste grupo). Tinham o pavilhão mais pequeno da festa e fecharam sempre cedo.
    2. A comunicação social não mostrou uma unica imagem da festa. Pelo contrário filmou o Jeronimo sozinho, como aconteceu a olhar um cartaz do lenine (TVI às 14h de Sábado) ou a discursar no domingo. Também os jornais apenas focaram um grande plano deste senhor que não tem nada haver com a festa. O responsável da Festa, Ruben de Carvalho, deu uma entervista a uma revista que só lhe perguntou pelas FARC. Sublime. Do director do Jornal em causa, o Casanova, nada!
    Mas por detrás das camaras passou-se muita coisa. Houve ciclos de debates, cinema, teatro, 8 palcos de musica, mais de 40 organizações internacionais, mais 20 desportos em competição, artesanato, feiras do livro, do disco, do coleccionismo, centenas de bares e restaurantes...enfim, muita alegria e boa disposição.
    Nada apareceu nos media.
    O comicio no Domingo teve a maior participação que eu já vi (só vou à festa desde 2002).
    3. O nome de Putin é citado no fim deste texto "Triste Festa". Alguma razão? Não percebo a relação. Dizem que mata e esfola...mas não percebo! então? não queriam a Perestroika? Ai a têm! A pobreza disparou, a natalidade é a mais baixa de sempre, a corrupção é a mais alta de sempre, o abandono escolar é o maior de sempre, já nem ganham os olimpicos! Como é que aquele país ganhou o nobel da fisica e até da economia (sim! podem confirmar)?... agora só têm universidades de 2ª linha. E a música e a literatura? Agora têm a Zemfira, não é mau...
    Hoje este mr. putin escolheu um amigo para seu PM que ninguém conhece. Acho bem!
    Se queriam poder discutir os nomes para os cargos publicos não tivessem acabado com os sovietes. Agora sem sovietes os russos estão muito melhor. Alguns até compram equipas de futebol, onde estavam em 1990? todos no PCUS, claro! Os tais que votaram pelo fim daquilo a que eles próprios presidiam... curioso? Também curioso é seria saber como é que enriqueceram tão depressa. Isto não digo. Pensem.

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