22 janeiro 2007

Jornalismo interpretativo

Todos temos a nostalgia dos contos de fada. Das princesas boas, das bruxas más, dos príncipes encantados, dos heróis, das vítimas indefesas, dos ogres que comem criancinhas.

Sempre que a oportunidade se vislumbra, embarcamos a toda a brida na defesa dos inocentes, na admiração pelos indomáveis, de queixo duro, peito saliente e olhar desafiador, na condenação dos tratantes e maus caracteres, de sorriso falso.

Que melhor ocasião senão a que se nos depara com a história de Esmeralda / pai adoptivo / pai biológico? Está lá tudo para que possamos demonstrar a nossa boa índole, satisfazer-nos com a real garantia de que ainda existem heróis que, contra tudo e contra todos, não hesitam em sacrificar-se pelos que amam.

Mas a realidade é diferente da ficção e dos mitos. As pessoas são feitas de todos os tipos de ingredientes, de bruxa má, de ogre, de vítima inocente, de príncipe encantado, de herói e de vilão.

Ao contrário do que a Fernanda Câncio afirma, todas as notícias que foram veiculadas pela comunicação social, escrita e falada, foram absolutamente tendenciosas na forma como falaram da situação, apresentando o pai biológico como um estupor sem coração, a mãe biológica como uma desgraçada que tenta salvar a filha, os pais adoptantes como anjos caídos do céu e o colectivo de juízes como algozes, que administram o mal absoluto.

A única coisa que, mais uma vez, não deixa dúvidas, é a morosidade da justiça, que resulta em maiores injustiças. Porque entre decisões, apelações, recursos e demandas, testes de paternidade e fugas para parte incerta, já se passaram 5 anos. E as crianças não podem esperar, crescem a um ritmo demasiado acelerado.

Afinal o pai biológico, embora arrastado para um teste de paternidade (que custa a módica quantia de 1500 euros), sempre terá afirmado que assumiria a paternidade caso se provasse ser a criança sua filha. Deveria não ter tido dúvidas? Talvez, não sei, não sei quais foram as circunstâncias em que as relações entre ele e a mãe biológica se processaram. Deveria ter aceitado a hipótese de ser pai como uma bênção, como uma coisa maravilhosa? Talvez, não sei, mas será sempre assim que todos assumimos a hipótese de sermos pais/mães? Podia não ter perfilhado, mas perfilhou, podia não ter lutado pela custódia da filha, mas lutou, podia não ter tentado ver a filha, mas tentou. Terá sido porque tinha uma indemnização em vista, ou porque lhe doeu a consciência, ou porque precisou de tempo?

Só que as crianças não podem esperar. Será que é justo retirar a criança a quem lhe deu amor, a quem não teve dúvidas quanto à vontade de ser pai, mesmo apenas ao fim de 6 meses, 1 ano, 2,5 anos? Será que qualquer de nós não teria pressionado a mãe biológica, fugido do pai biológico, da justiça, do mundo inteiro, pelo direito de a cuidar, de a proteger, de a acarinhar? Provavelmente, não sei. Acusar de sequestro alguém que tentou tudo isto é um absurdo, faz revolver-se a noção de justiça de quem quer que seja. Mas será que tudo o que foi provado em tribunal é apenas absurdo? Não sei, mas vale a pena, como diz Paulo Gorjão, ler o Acórdão, para podermos meditar e fazer o nosso próprio juízo.

Para Fernanda Câncio o jornalismo é e só pode ser uma actividade interpretativa. Qualquer coisa que pensemos e escrevamos é uma actividade interpretativa. Em qualquer profissão interpretam-se sinais, interpretam-se factos, sejam eles sintomas de doença, alterações analíticas, cálculos de temperaturas, fenómenos atmosféricos, etc. A divulgação de factos também me parece fazer parte da função dos jornalistas. Ou o jornalismo não é uma actividade informativa, para além de interpretativa?

Independentemente do que se passou, o melhor para Esmeralda deve ser continuar com os pais que a acolheram e que sempre conheceu como tal. Mas a manipulação da informação que tem sido feita a propósito deste caso faz-me duvidar de algumas causas mediáticas a que nos temos dedicado, ao longo dos anos.

É a verdade a que temos direito.


(pintura de Nicolas Poussin: le jugement de Salomon)

7 comentários:

  1. HarryHaller09:55

    Concordo quando dizes que o jornalismos é uma actividade informativa, eu direi mesmo, essencialmente informativa e deverá ser objectivamente informativa.
    Relativamente a processos judiciais, deverá a informação ser dada por jornalista que conheça o conteúdo dos autos e com formação juridica, mormente de Direito Processual, ainda que essa formação seja básica.

    Bom dia Sofia

    Fernando

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  2. lino13:38

    Excelente posta, Sofia. Porque não estou devidamente esclarecido, não assinei o pedido de Habes Corpus quando ele me passou debaixo do nariz.

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  3. excelente post. chamo apenas a atenção para que se é indiscutível que houve uma grande intoxicação informativa, também o será de que ela só começou a ser eficazmente combatida quando os jornalistas começaram a chegar ao terreno e a fazerem perguntas e a revelarem-nos histórias e também, aquele principio do contraditório que torna suculento, e truculento, o trabalho jornalistico. é impressionante ver como a maior parte da intoxicação foi conseguida por se manter acriticamente, nas caixas altas, nas parangonas, nos leads, algumas figuras de um poderoso enredo ficcional. O que se passou é que, por um fenómeno a que deveríamos dar mais atenção, como se fosse um incêndio devastador, antes de termos sequer alguma informação credível, já tinhamos tomado posição. mas parabéns pelo seu texto.

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  4. Sofia Loureiro dos Santos17:54

    Fernando, Lino, JPN, agradeço muito os vossos comentários. Concordo com o Fernando que o jornalismo deve ser informativo e isento, e com o JPN quando diz que a desintoxicação se iiciou por acção jornalística, precisamente quando começaram a informar.

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  5. Ricardo S19:18

    "Todos têm a sua quota-parte de responsabilidade no processo, começando pela Mãe biológica (que agora já tem condições de criar a filha e mostrou vontade em exercer o poder paternal), passando pelo Pai biológico que podia ter feito logo de imediato os testes de paternidade e pelo casal que ilegalmente têm tido a menor consigo, violando deliberadamente a lei e decisões judiciais, terminando nos serviços de Segurança Social e nas autoridades policiais que, pela sua passividade e omissão, foram "cúmplices" com o casal.
    Tinha a menor 1 ano de idade quando o Pai biológico perfilhou-a, mostrando vontade em criá-la. Porque não se realizaram logo nesta altura as diligências necessárias (através da intervenção da PSP) para a entrega da menor ao Pai? Com 1 ano de idade, a transição seria bem mais fácil e menos traumatizante do que agora, com 5 anos de idade.
    Com o passar do tempo, o casal não "adquire por usucapião" a menor. Continua a haver uma decisão do Tribunal a cumprir."

    Este é um excerto da minha opinião, disponível em
    http://legalices.blogspot.com/

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  6. Cristina Loureiro dos Santos21:55

    A realidade é que a criança em causa tem 5 anos e NUNCA conheceu outros pais. Neste momento, acho um absurdo retirarem-na abruptamente ao casal que efectivamente a tem criado, independentemente do que for acordado quanto ao direito do pai poder vir a relacionar-se com a filha.
    O problema é que a nossa justiça é tão morosa... Estes casos são perfeitamente incríveis!
    Gostei muito do post.

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  7. Sofia Loureiro dos Santos19:25

    É claro que, agora, a criança tem laços afectivos com o casal que a pretende adoptar e não com o pai biológico. Para a criança a mehor solução é manter tudo como está. Mas convém perceber que esta situação se arrasta desde que a criança tem cerca de 2 anos!

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