18 agosto 2006

Manipulação


vários blogues se referiram à efeméride ontem comemorada: o centenário do nascimento de Marcello Caetano.

No documentário que passou na RTP1, de uma forma tosca e pirosa, traçou-se o panegírico de um homem que, apesar das suas com certeza muitas qualidades intelectuais, fica para a nossa história como o continuador de uma ditadura, como o indivíduo que cujas intenções não passaram disso mesmo, de intenções. De um político que não era ingénuo nem impoluto, que não soube ou não quis fazer a transição para a democracia, que manteve a censura e a lei do partido único, que teimosamente e em público defendia a guerra colonial, atacava os seus opositores apelidando-os de anti patriotas, que manipulava a informação.

De uma maneira despudorada tentou fazer-se passar a imagem de um homem desapegado do poder, idealista, um escravo da causa pública, quase subentendendo, por oposição, o regabofe de oportunistas e arrivistas que apareceram após o 25 de Abril.

Já não falo da entrevista à filha, Ana Maria Caetano, conduzida por Judite de Sousa que, tal como sucedeu com a entrevista à irmã de Álvaro Cunhal, foi acéfala.

As pessoas vivem de acordo com o carácter, consciência, personalidade, inteligência e segundo a época, o tempo, o espaço, a moda, as ideologias. Não se prestam favores, nem às suas memórias, nem às memórias colectivas dos povos, alisando arestas, ocultando factos ou apresentando uma realidade distorcida e mais ou menos açucarada. Foi vergonhoso.

Pelo contrário e entre o que li, destaco o artigo de Vasco Pulido Valente no Público que, apesar da acidez e da crueza que lhe são características, é muito bom.

2 comentários:

  1. José Carlos Pereira01:30

    A entrevista feita por Judite de Sousa enquadra-se mais nos critérios editoriais da revista "Lux" ou da "Caras".
    A RTP, na "Grande Entrevista" ou no documentário sobre Marcello Caetano, poderia ter levantado aspectos da vida do ex-ditador menos conhecidos, como, por exemplo:
    1. A ordem, não acatada, para que a GNR massacrasse os milhares de manifestantes no Largo do Carmo, no dia do gople;
    2. A perda da fé católica e em Deus, no exílio, bem como a crítica mordaz aos padres e à Igreja;
    3. As inimizades que foi acumulando depois do 25 de Abril, mesmo com figuras que lhe tinham sido politicamente afectas.

    De facto, os dois programas alusivos - entrevista e documentário - foram uma decepção.

    José Carlos Pereira - Diário de Felgueiras

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  2. Sofia Loureiro dos Santos09:00

    Estamos de acordo. A vida de Marcello Caetano foi enviesada e superficialmente abordada.

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